ÚTERO EM CINZAS E A CENA FAMILIAR


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Maio, mês das mães, comemoração do Dia das mães, dia de reunião em família, almoço especial, presente, comemoração nas escolas e no dia seguinte, tudo igual. Cada um vivendo essa situação de um jeito todo seu, muito parecido, porém bem particular. Hoje observamos que as mulheres nesse lugar de mãe, já não aceitam passar a manhã inteira cozinhando os pratos preferidos de terceiros, inclusive a sobremesa e ainda ficar com toda a louça para lavar, a cozinha para colocar em dia e de lambuja ainda tem o bolo que todos gostam para o lanche. Atualmente, muitas mulheres são levadas para almoçar fora. Será que almoçar fora configura uma mudança real? Estou pensando não sei bem ainda, as ideias ainda estão um tanto embaralhadas na minha cabeça. Estou pensando se almoçar e não cozinhar opera alguma mudança que culturalmente relacionamos às pessoas que desempenham a função materna, que ocupam esse lugar de mãe.

Quando eu escolhi o título para esse texto, pensei em uma postagem que vi no instagram em que uma mulher falava sobre a comemoração do dia das mães. A mulher pedia que cada um comemorasse o dia das mães, mas que não falassem nada a respeito das mães de pets. Havia um certo pesar nas palavras dela, uma certa irritação, no final da postagem ela falava que quem criticava as mães de pets não imaginava a dor das mulheres que não podiam gestar seus filhos. Eu fiquei pensando nas mulheres que eu conheci no consultório, na vida, que falavam sobre os seus conflitos, seu pesar, lembrei das várias moças, ainda bem jovens falando sobre a descoberta das impossibilidades diante do desejo de engravidar, gestar e parir. Queixas recheadas de vergonha, de culpa, medo, tristeza e um tal vazio que elas não sabiam de que forma preencher. Sim, também encontrei mulheres que seguiram bem diante da negativa da gestação biológica, física, não sei bem como dizer, mas falaremos sobre elas, falaremos em um outro texto. Certo?

Útero em cinzas... Conseguem formar alguma imagem com essa informação? Útero... a imagem que vem para mim, é como um ninho, lugar para habitar, estar, lugar de aconchego, mas também lugar de incertezas. A gestação, antes de acontecer no corpo de uma mulher, acontece no seu imaginário, no seu psiquismo. O bebê já existe em seus sonhos, em seus planos, quando até já sabe como ele será, como ele será aconchegado nos braços que tanto o esperaram. Imaginem quando essa imagem se esvai como fumaça, deixando as cinzas da frustração, da decepção. Vivenciar o luto de sonhos, de certezas, de uma história com início, meio e fim que não pode ser pensada com uma outra escrita, essa é uma árdua tarefa, a maioria das vezes negadas. Se para uma mulher que consegue parir uma vez e depois, por esse ou aquele motivo não consegue mais gestar, isso pode levá-la a conflitos profundos, para aquela que recebe a notícia que jamais gestará, a situação pode ser muito mais complicada.

Eu conheço uma história que fala sobre esse nosso assunto e vou dividir com vocês: Nadine, esse é o nome da mulher que descobriu que não poderia gestar. Com essa negativa da vida, ela deixou de sorrir, ela se calou. Casou-se muito jovem e com ela seus sonhos adornando os seus cabelos como uma grinalda de sutilezas e propriedades. Ela decorou a sua casa como um castelo e preparou com muito carinho o quarto do seu príncipe herdeiro e não esqueceu de colocar junto à janela, uma cadeira de balanço para amamentar. Teria cuidado com o balanço da cadeira para seu pequeno não engasgar. Seria tudo suave, seu filho junto ao seu seio se alimentando sofregamente, porém sentindo a intensidade e a suavidade do acolhimento de braços maternos e o encantamento dos olhares que se cruzam. Mãe e filho a se olhar, a se encontrarem numa dimensão por um tempo, proibida a qualquer um outro. Não, nos planos de Nadine não cabia a presença de uma mamadeira. Os seus seios estariam disponíveis para o seu pequeno, o seu filho; sim, Nadine sabia que seria um menino. Como eu explorei em um outro texto aqui no nosso blog, seios de onde jorram particularidades. Nadine escorrendo no meio do seu leite para dentro da boca, da alma do seu menino e se fazendo presente em sua vida para sempre, era sobre isso que ela pensava.

Três anos de casamento e nada de Nadine engravidar. As perguntas nos encontros familiares eram freqüentes. Afinal, onde estava o bebê de Nadine e seu marido? O quê eles estavam esperando? O marido se justificava dizendo que eles ainda tinham algumas viagens para realizar, antes de se dedicarem exclusivamente ao filho, aos filhos, que eles eram jovens e tinham tempo. Nadine se esquivava, abaixava o olhar e mergulhava em sombras. Um dia o marido a questionou a respeito da gravidez, que talvez houvesse algum problema. Era uma cobrança, afinal na família dele, do marido ninguém apresentara qualquer problema até então. Nadine chorou escondida pensando que talvez o marido tivesse razão, talvez houvesse algum problema com ela, com o corpo dela. Depois de muito relutar ela foi ao médico, exames foram pedidos e no dia de receber o veredito, o marido estava ao seu lado, mas ele não tomou a sua mão, quando o médico foi categórico sobre a impossibilidade de Nadine gestar. O príncipe pelo qual ela havia se apaixonado, ele a olhava com repulsa, com raiva. Timidamente ela perguntou se havia algo a fazer e o médico falou sobre tratamento, mas no caso de Nadine a chance de uma resposta positiva era mínima. Ela resolveu tentar e sofreu com mais uma negativa e o distanciamento do marido. O médico falou sobre adoção, o marido sentiu-se insultado e ela não se imaginava em tal situação.

Nadine em sua tristeza, banhada em suas negativas, não enxergou possibilidades, retirou-se um pouco mais para o seu castelo. Não desfez o quarto do seu príncipe, ele existia, ela só não sabia onde encontrá-lo. A notícia circulou pela família, as pessoas passaram a tratá-la com piedade, lamentando a tal impossibilidade. No dia das mães, queriam parabenizá-la, afinal toda mulher é mãe, essa era a justificativa, ela era tia, madrinha e tinha todo jeito para ser mãe. A cada lembrancinha, abraço e votos de força e coragem por não poder realizar o seu sonho, Nadine recuava e se irritava, embora soubesse que as pessoas acreditassem que faziam um bem para ela, não faziam. O marido passou a tratá-la com frieza e distância, as traições começaram e parecia que não terminariam. Um dia em meio a uma discussão, como tantas outras que ele fazia questão de iniciar e ele com muita raiva disse que ela era seca, uma árvore seca sem condições de dar frutos. Nadine, a princesa sem herdeiros, pensou que devia ter sido amaldiçoada. Retirada na torre mais alta do seu castelo, presa na emboscada do seu psiquismo, ficou presa na impossibilidade do gestar. Por detestar as soluções que davam para o seu caso, como adoção, apadrinhamento, cuidar dos sobrinhos, fazer caridade, estudar, trabalhar, ter animais, ela continuou retirada. O marido deixou Nadine porque queria formar uma família e com ela isso não seria possível. Ela não chorou quando ele partiu, já vivia só mesmo.

Uma noite, Nadine se recolheu no quarto do seu filho não nascido, e chorou até a exaustão. Ela foi ao berço e lá estava ele, tão real como nos seus sonhos, lá estava o seu filho. Sorrindo, ela tomou o seu filho nos braços e sentou-se na cadeira de balanço junto à janela. Estreitando seu bebê nos braços, junto ao seu peito, chorou ao vê-lo mamar tão sereno. O balanço da cadeira ninou Nadine e seu filho etéreo e os dois adormeceram. Quando acordou, os seus braços estavam vazios, pareciam vazios, mas de alguma maneira não estavam. Nadine sabia que não havia alucinado, ela precisava ter vivido aquilo. O dia amanhecia e pela janela ela viu seu pequeno já um pouco crescido cruzar o jardim, pensou que ele estava parecendo um rapazinho. Antes de fechar o portão, o filho se voltou mostrou a ela o seu útero em cinzas, o beijou e acenou para mãe. Nadine se emocionou ao ver que seu filho não se enojava do seu útero adoecido em cinzas, se desfazendo; pensou em falar para o filho levar o casaco, mas riu entendendo que ele não precisaria. Seu filho ganharia o mundo, é assim com todos os filhos, nascidos ou não. Eles precisam ir, não seria diferente com o seu filho. Ele estava indo, mas jamais sairiam do seu coração, do amor que ela sempre sentira por ele, seu filho agora nascido, do jeito que podia ser.

Nadine olhou ao redor e sabia que podia desfazer o quarto do seu filho ido. Foi até um espelho e procurou por si, precisava se reencontrar, precisava abrir a porta e sair, tomar ar fresco, tomar sol, caminhar. A jornada seria longa, não tinha ideia para onde iria, como recomeçar, como começar. Não se tratava de olhar para trás, mas de olhar para dentro de si. Voltou à janela e não gostou nem um pouco do estado das suas rosas, daria um jeito naquilo.

Nadine e todas as mulheres que se sentem atravessadas pela impossibilidade do gestar, precisam de tempo, do seu tempo para entrar em contato com uma dor que parece, precisa ser sentida para passar. Um útero em cinzas precisa ser visto, colhido, entendido. Ele não se desfaz por si, por um adoecimento especificamente, mas pela tirania possível imposto de maneira dura por uma cultura, pelo que há de (dês)humano em nós. O feminino, a função materna estão para além dos contornos de úteros, ovários, trompas, está em um enigma difícil de decifrar e intenso de vivenciar. O quê realmente sabemos a respeito? Penso que esse assunto exige muito de nós, mais um assunto que não se esgota, que traz muitas interrogações e reflexões. Continuemos a pensar.

Até a próxima!

Um abraço,


33 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo