A AMIZADE NA INFÂNCIA - LAÇOS


Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


Vamos lá, que recordação vem para você ao ler o título desse texto que começa a ser escrito? Seja lá a idade que você tiver, de um jeito ou de outro, você passou pela infância e marcas ficam, boas ou não tão boas, são histórias para lembrar e talvez para contar. Histórias com risos, lágrimas, travessuras, aventuras, silêncios, solidão, amizades...

Hoje o convite é para lembrar e refletir sobre a questão da amizade na infância, a ética na amizade entre as crianças. Tem algo bem interessante nesses encontros entre crianças que é a questão do tempo. As explosões de raiva, os rompimentos, quem é o dono da brincadeira, quem tem mais poder, tudo isso vai sendo encenado num tempo que é muito próprio da criança. Quando escutamos um menino falar para o outro: “Nunca mais fala comigo!” é algo de uma sonoridade tão intensa que parece cortar a dimensão tempo, como o voo de uma abelha em missão secreta. Só que no dia seguinte, tudo tende a ser resolvido. Pode ser que outrora você tenha dito: “Você não é mais a minha melhor amiga porque você não quis me emprestar a sua canetinha nova!” Só que logo você se encontrou com a ex-melhor amiga e ela emprestou justamente a canetinha vermelha, a mais bonita, a mais disputada e tudo se resolveu. Claro que a raiva, o ressentimento pousa entre crianças, os rompimentos sérios, eternos também, mas de maneira geral, as questões entre elas tendem a não criar raízes.

Temos os valentões, os tímidos, os rejeitados, os carinhosos, os mais alegres, os sempre distantes, mas de alguma maneira as crianças se buscam. Infelizmente, hoje as crianças andam encarceradas em suas casas, prisioneiras de suas séries de TV, em seus tablets, em seus amigos celulares, que muitas vezes são dos seus pais que precisam de um pouco de silêncio. Não vemos mais as crianças correndo exibindo seus corpos suados, com suas belas medalhas nas pernas, frutos de suas quedas porque brincaram. Temos então, esse novo brincar paralisado, mas as crianças ainda se encontram, mesmo que seja virtualmente.

Faz um tempo que assisti um filme com o título Meninos de Kichute, uma produção brasileira lançada em 2009, e ver aquelas crianças reunidas num campo de futebol com suas diferenças e semelhanças, interagindo, se entendendo e se estranhando me fez pensar sobre a ética nas relações infantis. Todos ali tinham um propósito, ganhar o jogo, mas havia mais do que esse propósito, eles tinham suas histórias e apesar das encrencas, eles de alguma maneira se apoiavam, se acolhiam. Recentemente assisti outro filme, Turma da Mônica laços, e não teve como não pensar sobre esse entendimento que há entre crianças com diferenças tão marcantes. Temos uma menina agarrada a um coelho, um objeto transicional, que de alguma maneira a sustenta, que viabiliza seu jeito de estar no mundo, com o ímpeto da sua raiva, depositando todos os afetos no seu belo coelho Sansão, sim a Mônica. Magali uma menina com uma séria questão alimentar, que nunca está satisfeita, Cascão com seu desespero em relação à água, fiel escudeiro do seu amigo Cebolinha que tem um problema na fala e está sempre bolando um plano para derrubar a Mônica e finalmente ser o dono da rua. Basta Cebolinha ter o seu cachorro roubado, o Floquinho, que as crianças se reúnem e partem numa missão interessante, resgatar o cachorro do amigo Cebolinha. Todas as diferenças aparecem, mas não são impeditivos para que eles consigam ir adiante. Quando eles sinalizam que todos tem que olhar para as suas fragilidades e se unir para conseguir êxito, conseguem avançar para conquistar seu objetivo e depois comemorar e seguir. Interessante foi ver as crianças da turma com seus pais presentes, coisas que muitas crianças não tem. Temos sim, crianças com suas famílias muito desestruturadas.

O quê nós adultos andamos ensinando sobre ética na vida para as crianças? Sobre respeito às diferenças, sobre empatia? O quê andamos falando sobre amizade?

Será que estamos conseguindo explicar para as crianças o quê vem a ser esse mundo tão intolerante que andamos construindo? Sim, pois esse cenário violento não se construiu por si, temos nossa responsabilidade! Somos responsáveis quando não ouvimos quando uma criança reclama que está sendo apontada dentro de casa, na rua, na escola porque ela traz alguma marca que para o outro a faz diferente e por isso torna-se motivo de chacota. Somos mais que responsáveis quando não falamos sobre respeito por si mesmo, respeito ao próximo. Que tipo de laços na vida estamos auxiliando as crianças a criar?

Pensemos...

Até a próxima!

Um abraço,




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