A CASA – [Querer é só querer?]



Marcio Garrit - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


Se existe uma coisa na qual devemos tirar o chapéu para o neoliberalismo é o poder que ele tem de enfeitiçar! Mesmo que você seja a vitima, ele conseguirá, cedo ou tarde, a sua defesa. O que ele nunca te mostra, é que pra ele continuar existindo, as diferenças não podem cessar. Mas o canto da sereia é muito forte, e a maioria morrerá defendendo-o, principalmente nos dias de hoje. Esse filme é sobre isso!

Filme espanhol de 2020, dos diretores David Pastor e Àlex Pastor. A casa é um suspense distribuído pela Netflix. E vamos dar o mérito, que filme! Como sempre faço, vou me ater a mensagem que ele passa e dar a minha leitura sobre isso. A sinopse trata de um publicitário, Javier, muito bem sucedido, porém, desempregado; em uma idade avançada para o mercado que atua (na maioria dos casos, passou dos 40 anos já está Cult demais) e obviamente, descartável. Seu padrão de classe média alta começa a desmoronar e com isso seus hábitos também. Coisas como se mudar para um lugar mais barato, vender o carro, comprar menos e deixar de aparentar o que não é, começam a se tornar uma realidade que o protagonista, desde o início, se recusa a aceitar. Daí começam os problemas.

O mundo corporativo é uma fábrica de pessoas doentes! Essa frase, ou algo parecido com ela, já gerou inúmeros artigos de psicólogos, sociólogos e afins sobre o clima desajustado, cruel e nefasto que temos nas empresas. O mercado te obriga a vencer, diz que seu querer pode ser conseguido, basta querer, e o sujeito acredita que esse vencer irá equipará-lo aos personagens riquinhos de filmes americanos. Só esqueceram de avisar que é mais fácil conseguir se equipar ao protagonista do filme Psicopata americano do que ao de Michael Keaton em Fome de poder. A lógica corporativa não é difícil de entender. Primeiro dizem que você tem que ser muito bom, porém jovem. Deve estudar exaustivamente, falar inglês, ter liderança e uma aparência linear, para então, e, a partir do seu primeiro estágio, que tem que ser em uma empresa de fama, “vestir a camisa” como se não houvesse amanhã, gerar um lucro que nunca será seu e jogar sua vida para o alto, se necessário, e gerar resultados! Muitas das vezes para pessoas que você nunca conhecerá. Muitos resultados! Senão você será um perdedor. E eu nem falei daquele monte de literatura barata e workshops que só tem um objetivo: te alienar. Ou seja, você precisa fazer o sistema funcionar. Caso você não consiga, significa que você não se “matou” o suficiente, e se caso não conseguiu crescer na carreira, é porque não mereceu, pois a meritocracia existe e é a melhor e mais honesta (sic) de todas as teorias. Pierre Bourdieu e seu conceito de violência simbólica explicita bem isso. Essa violência não física, mas que agride o físico pelo pior viés: o psicológico. Dito de outro modo: Corra como um louco e se mate de trabalhar, deixe pra viver depois e quando “10%” do meu lucro baixar, não vou querer saber quem é você, simplesmente vou te demitir e você irá embora sem direito algum, pois, direitos trabalhistas é coisa de gente atrasada ou comunista. Não é bom para os negócios, e mesmo assim, é possível que até você que esteja lendo agora defenda esse sistema. Temos ou não que tirar o chapéu para o neoliberalismo? Eu acho que sim. Poucos conseguem convencer as pessoas a se destruírem tão bem.

Voltando ao filme, Javier é o típico sujeito escravo dessas ilusões. Me fez até lembrar dos ratinhos hipnotizados pela música no filme A flauta mágica. Todos indo em direção ao abismo e achando bom! Javier não consegue se realocar nesse mundo corporativo. Ou está velho demais ou arrojado de menos. Além disso, faz aulas de coaching onde escuta veementemente que pode mais e mais. Nessas horas dá vontade de entrar na tela e entregar um exemplar do livro, excelente, Fora de série do Malcolm Gladwell sobre a mentira da meritocracia e o consequente conselho: Você não pode tudo! Querer nunca foi poder! A vida não é um comercial de margarina! E por fim: Você foi enganado, aceite. O problema é que Javier não consegue ver isso e óbvio, não aceita!

Quando negamos a realidade, lançamos mão de algumas das defesas para lidar com isso. Algumas não são tão prejudiciais e não desfazem laços. Outras bem dolorosas seriam a agressividade, o delírio, a objetificação do outro para satisfação plena da sua imaturidade e até o crime. Javier lança mão de todas essas e com isso coloca como meta viver como, e com, a família rica que vai morar no apartamento de luxo que ele teve que sair. O detalhe é que ele pretende fazer isso eliminando um membro dessa família para se colocar no lugar dele. Ser o novo chefe dessa família, o novo marido rico e dono desse apartamento chique que no fundo nunca foi dele, era apenas um agrado que alimentava a ilusão de que ele poderia deixar de ser classe média para galgar algo maior. Não é fácil lidar com a frustração e para Javier, ela nem chega direito, parece que ele “foraclui” a mesma. Percebo isso quando o mesmo se projeta em suas próprias campanhas de marketing. Ele as assiste como se a criação, feita pra hipnotizar, fosse real e não um instrumento de ilusão pra contornar o vazio da vida, de e para gente vazia.

Se nos basearmos no pai de família Javier, vemos um sujeito entregue ao trabalho, apegado a aparências e pai ausente. O que é normal nessa estrutura familiar cujo foco é trabalhar muito, ganhar o máximo possível e tentar comprar felicidade em alguns fins de semana ou em férias “chiquezinhas”. Seu filho é um sujeito apático, acima do peso, sofre bullying e visivelmente acometido pelos transtornos já comuns no meio adolescente contemporâneo. Javier não faz laço, faz network! Os significantes que ditam sua vida são totalmente conciliáveis com os dos personagens do documentário de Lauren Greenfield, Geração riqueza. Não importa Ser, precisamos Ter. Até porque, o primeiro dá muito trabalho, pois parte de uma intensa reflexão ao limite do existir. Já o segundo é ridiculamente fácil, pois parte da negação da dor a partir do consumo.

Javier não se “transforma” em um “Psicopata”, ele simplesmente reage mal (reação típica do neurótico dragado pela cultura consumista e visivelmente marcado pelo que há de mais vil em seu narcisismo) aos que lhe foi vendido como verdade absoluta a afirmativa: Querer é poder! Pois descobre que na verdade a frase seria: Querer é apenas querer, lide com isso ou se aliene!

Continue refletindo....

Filme: Amor por contrato, dirigido por Derrick Borte

Pierre Bourdieu – Violência simbólica

Judith Butler – Corpos em aliança e a política das ruas

Noam Chomsky – Estratégias de manipulação

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