A CRIANÇA E O ALCOOLISMO DOS PAIS


Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com



Pensar sobre esse assunto, o alcoolismo circulando pelas famílias, faz-me lembrar de várias histórias, sim foram muitas quando estive próxima de crianças que gritavam a sua dor, sua angústia, suas artimanhas para lidar, para conviver com suas tragédias pessoais. Engana-se quem acredita que crianças tem uma vida plena de alegria, sem problemas; certamente precisamos repensar o “MITO DA INFÂNCIA FELIZ”.

Ao longo da minha jornada profissional, trabalhando em instituições, consultórios, esbarrando com histórias de vida aqui e acolá, estive com crianças e suas famílias que contaram como foi estarem mergulhados na questão do alcoolismo. Crianças que puderam falar sobre a sua raiva por ter que parar de brincar para ir buscar mais um tanto de cerveja, o tal líquido que de forma mágica provocava uma mudança quase que instantânea em seu pai, sua mãe ou algum outro familiar. Uma mudança que trazia a agressividade, a intolerância, o abuso, entre outras coisas. Sujeitos que falaram sobre a vergonha de ver seu familiar escorado em balcões sujos, por vezes urinados, suados, caídos; crianças que entenderam cedo o sentido da palavra “sarjeta”. A lágrima vinha fácil e o brincar revelava um amontoado de sentimentos possíveis e inimagináveis, por elas.

Crianças que gostariam muito de falar orgulhosamente sobre seus pais, tomados de culpa porque o sentimento mais presente era o da raiva, mas não aceitavam que ninguém falasse, apontassem o seu pai, a sua mãe, o seu familiar. Pois é, estamos falando sobre uma situação cada vez mais frequente nas famílias. Situação que costuma trazer outro elemento também muito complexo, o da “VIOLÊNCIA DOMÉSTICA”. Então observamos filhos tratando suas mães com a mesma agressividade, violência que seu pai, passando a achar que aquilo é normal, que é daquele jeito que se faz. Por outro lado, temos crianças que sonham acordadas constantemente com a morte do seu pai e chegam a imaginar detalhes do quê entendem como uma libertação. Por outro lado, temos aquelas crianças que aproveitam a embriaguez do familiar para receber um abraço, ou conseguir que se compre um biscoito, um refrigerante, uma guloseima desejada, mas nunca conseguida porque a bebida é prioridade.

Quando uma criança percebe que há um espaço, uma possibilidade para falar, sobre a sua dor, sobre entre outras coisas, a questão do alcoolismo, seja através do brincar, do desenho, da sua expressão verbal, que por vezes vem como em um fio; é como se ela desaguasse, como se derramasse em cada canto desse espaço cheio de potencialidades, de possibilidades. Quando essa criança percebe, com o tempo acontecendo que pode confiar, ela parece repousar seu coração acelerado, seu olhar perdido no olhar e na escuta de quem está ali com ela, disponível para receber sua enxurrada de controvérsias.

Vários são os dramas, as tramas que capturam as crianças e suas famílias e o alcoolismo faz parte desse cenário sombrio e espinhoso e por mais que falemos, ainda teremos muito a falar. Quando uma criança fala, muitas vezes entre lágrimas, depois de ter anunciado seu desejo de morte do familiar:

- “Mas ele é meu pai Claudinha”

- “Ela faz essas coisas, mas é minha mãe”,

Ela tenta justificar a pessoa, ela culpa a si mesma. É um longo e árduo trabalho, é um alinhavar de tecidos, uma costura que se faz e desfaz e essa criança faz e refaz o seu percurso em sua própria história.

Eis que no meio de tanta tristeza, temos a possibilidade de ver essa criança sorrir, sim, muitas vezes acontece, podem acreditar e é maravilhoso quando rimos até as lágrimas brotarem, até parecer que o ar vai faltar, um momento em que crianças que lidam com o alcoolismo dos pais, tiram esse fato, essa situação do centro da cena das suas vidas.

Quantos adultos viveram na infância o alcoolismo de seus familiares e trazem hoje as suas marcas? Muitas repetem hoje os seus dramas passados, tão atuais. Essas crianças encolhidas dentro dos adultos também precisam ser ouvidas.

FALAR PODE AJUDAR!

Pensemos...

Até a próxima!

Um abraço,

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