A FAMÍLIA, AS COMPARAÇÕES E OS SUJEITOS FRAGILIZADOS



Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


Estou aqui a me perguntar que imagem eu quero convidar vocês a apreciarem. Pensando mais uma vez em família e na situação de comparação, competição, (dês)encontros, filhos fragilizados, pensei em um jardim. Um jardim de rosas brancas. Não flores coloridas, rosas brancas com suas diferenças. As famílias e suas diferenças. Quem nunca ouviu a seguinte afirmação: “Se eu tivesse dez filhos, cada um seria de um jeito.” Ou a seguinte indagação: “Mas por que fulano é assim, se eu eduquei todos da mesma maneira?” Pois é, diferenças... As famílias lidando com as diferenças que florescem ou murcham em seus filhos, em suas dinâmicas de (des)afetos.

Ter recebido e continuar recebendo crianças e adultos com suas crianças encolhidas em si, reclamando por marcas que machucam desde sempre, me faz observar o quanto algumas mensagens podem tatuar almas de maneira significativa, dolorosa. Ouço falar sobre marcas feitas por comparações que provocam fragilidades. É muito comum ouvirmos os pais expressarem o desejo de que os seus filhos sejam amigos ou se lamentarem porque seus filhos agem como inimigos. Muitas rivalidades fraternas, acontecem, em muitos casos, movidas pelas atitudes dos pais, esses pais que lamentam a falta de união dos filhos. Atitudes essas realizadas inconscientemente, ou não. Por vezes, trata-se de um jogo sórdido em que os filhos atuam como fantoches nas mãos de figuras importantes como seus pais, seus cuidadores em busca de afeto, aprovação, reconhecimento.

Quando um pai, uma mãe, uma pessoa com forte representação para um sujeito que está se constituindo, faz afirmações certeiras que ferem, que diminuem, isso tende a favorecer a um cenário de possível amargura, raiva, inibição, ódio. Afirmações como:

“Seu primo tem a mesma idade que você e já está na segunda faculdade.”

“Por que você não é como a sua irmã que sabe se colocar, tem iniciativa? Ela sim vai ter sucesso na vida.”

“Nossa! Como você é inteligente meu filho! A coisa que eu mais queria é que sua irmã tivesse 10% da sua inteligência. Mas essa garota só me dá desgosto! Já repetiu a mesma série três vezes! Que mal eu fiz a Deus?”

“Olha prima, eu não sei mais o quê fazer, a fulana sempre foi uma criança maravilhosa, quietinha, comportada. Depois que a irmãzinha entrou na mesma escola, ela destrambelhou; começou a fazer tudo errado, bagunça, ficou chorona, emburreceu. A professora disse que ela está precisando de atenção. Vê se eu posso com isso?”

Eu poderia deixar aqui registrado mais algumas dezenas de afirmações que ecoam em muitos sujeitos adultos que se escravizaram ao longo da vida à repetição do que parece uma sentença, determinando que caminhar de maneira segura na vida é algo viável para o outro. Crianças se debatem sem saber o quê fazer com os anúncios sobre quem são, quando elas estão tentando entender o seu próprio recheio. O quê acontece, é que o início do tempero desse recheio é dado pelo outro, o quê pode interferir e muito no desenrolar da história de muitas pessoas.

Filhos em busca de aprovação, de ver o orgulho estampado nos olhos dos pais, filhos em busca de amor, sentindo-se diminutos, esmagados por falas que desqualificam, tendem a se tornarem inseguros, fragilizados em suas jornadas na vida. Irmãos que não conseguem se entender e quando questionados a respeito, não sabem estruturar uma resposta, nunca falaram a respeito. Quando em análise, percebem que o ciúme sempre existiu, a inveja, o desejo de receber o mesmo olhar, o mesmo abraço, o tal do “parabéns,” por parte de seus pais, pedras rolam pelo caminho e há quem perceba que o seu olhar nunca foi voltado para si mesmo. O investimento do olhar do outro, tão importante não acontecido, desde do início, precisa ser realizado pelo próprio sujeito; e como isso pode se tornar uma tarefa árdua...

Pensando sobre as posições dos filhos na questão da ordem do nascimento, é muito interessante observar alguns detalhes. O primogênito tende a ser parte de um projeto, de inspiração para uma história idealizada, onde tudo dá certo e ele certamente receberá o lugar daquele que cuidará dos próximos filhos, inclusive dos pais. Poderá ser o depósito de muitas expectativas e frustrações. O filho do meio, será aquele que ocupará a posição do mais velho em relação ao mais novo e será o mais novo em relação ao mais velho, aquele que tenta se situar e que por vezes se queixa quanto a ser um tanto invisível. O caçula, vem ocupando o status de eterno bebê, a chance para os pais atuarem como necessários, já que o tempo vai passando e essa oportunidade vai se esvaziando. E não podemos esquecer do filho único, que acaba ocupando todas as posições

Bem,seja lá qual for a posição do filho, primogênito, do meio ou caçula, cada filho precisa ser respeitado em sua individualidade, em sua singularidade. Dificilmente os pais terão a mesma afinidade em relação a todos os filhos. Exaltar um filho e desqualificar o outro, pode ser via para contendas e a família, arena para duras disputas em que cada um quer ser melhor aos olhos dos pais, e acabam carregando isso para a sua maneira de estar no mundo, sua insignificância, sua mendicância afetiva. É comum que um filho reaja com tristeza ou agressividade à presença de uma outra criança que chega tomando toda atenção e privilégios para si, mesmo que não seja intencionalmente e isso precisa ser visto pela família.

Cada um com o seu dom, com suas possibilidades, inclinações, assim como é de grande importância que desde cedo, um sujeito seja encorajado a observar o quê há de melhor em si mesmo, para aprender a lidar com as frustrações, com a vida.

Família, um jardim de rosas brancas, cada uma com suas pétalas, seus contornos, seus espinhos, reagindo à maneira como são regadas. Um jardim revelando a beleza de suas diferenças. A unidade no que é desigual.

Até a próxima!

Um abraço,

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