A FAMÍLIA E A CRIANÇA COM NECESSIDADES DIFERENCIADAS


Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com



Se formos nos ater ao significado da palavra louco, seremos remetidos a pensar naquele que perdeu a razão, o insensato, que não tem controle sobre si mesmo, o alienado. Eu penso na loucura como algo que transborda. Aliás essa coisa que transborda, que derrama, que se espalha no sujeito, fazendo com que o mesmo se perca e se encontre em si mesmo, é uma imagem interessante, eu acho. Talvez se perca porque se encontre.

Pensei em rabiscar, contornar esse texto, quando lembrei de um trabalho do qual participei. Vamos lá, vou contar um pouco dessa experiência. Eu participei de um trabalho com grupos de pais/responsáveis de crianças com necessidades diferenciadas, as chamadas crianças especiais. Foi uma experiência muito interessante com todos os atravessamentos e variáveis que certamente eu jamais imaginei que viveria, com tamanha intensidade. Pensar sobre essa experiência faz com que eu me lembre da minha professora de estágio escolar, na época da graduação, me perguntando que desenho eu queria dar à minha prática. Eu recebi algumas orientações, mas para cada um, a sua assinatura. Nesse caso, nesse trabalho, embora eu tivesse algumas idéias, a disponibilidade foi a minha maior assinatura. Eu estava ali para desenhar aquela prática com aquelas pessoas, que no início eram poucas, que rejeitavam o trabalho e depois, com o passar do tempo, me cobravam se me atrasava.

Estar com aqueles sujeitos foi poder entender e aprender fora das linhas compactas e certeiras dos livros que falam da vida através da teoria. Foi ver a vida acontecendo, dando lugar para uma fala oculta, enterrada em todos os tipos de sentimentos de quem convive com o real. O idealizado morrendo na rotina de berros, desatinos, deformidades, atrasos, impossibilidades, vergonha e assim vai. Tudo isso e muito mais mergulhado nas entranhas de um amor que aprende, que se ata, que se cola e descola desse outro que chega e diz o quanto se é humano.

Gestar o ideal é ter encontros maravilhosos com algo que ampara, que acolhe, que fala de flores e cores de todos os tons, as mais belas paisagens, com narrativas que levam ao êxtase, através daquele que vai chegar e trazer paz, trará amor, daquele tipo que preenche, que apazigua. Então parir o ideal e se deparar com o real, tende a ser uma operação que leva à subtração. Onde foi parar tudo aquilo que habitou o imaginário de quem ficou com os braços abertos à espera desse inusitado tão certo, tão desejado?

É muito forte a cobrança externa e interna para uma aceitação incondicional para o encontro com a realidade. Quem chega, trazendo a sua diferença, sendo nomeado de especial, certamente vai precisar de um lugar, necessitará de um olhar que enxergue possibilidades, um lugar no desejo do outro. Por outro lado, esse que desempenhará a função materna/paterna precisará de amparo para sustentar o idealizado em si, que rui, que cai por terra. A dor precisa de espaço, os gritos sufocados precisam de escuta, a fala que precisa discorrer sobre a culpa pela rejeição, precisa de alguém que a receba sem julgamento e muitas e muitas vezes mesmo isso não acontece. Quem nunca escutou a seguinte afirmativa: “As crianças especiais são entregues a pessoas especiais.” Tem pessoas que convivem com frustração, que amadurecem, que se desesperam, que se sentem fortes, derrotadas, que se descobrem ao conviver com o real que as crianças com necessidades diferenciadas trazem. Acontece de tudo, desde relações extremamente amorosas desde a impossibilidade de convivência. Certamente não estamos tratando de tamanha amplidão, de tantos atravessamentos. Aqui estamos falando da importância da reação ao real que chega rasgando o sujeito em si mesmo, e a possibilidade de um espaço de escuta.

As crianças chamadas especiais são, desde cedo, encaminhadas para os devidos tratamentos, muitos responsáveis são orientados a buscarem tratamento para si mesmos, apoio psicológico, muitos outros jamais ouvirão sobre a importância do cuidador ser cuidado. Ainda hoje temos as pessoas colocando a busca de ajuda psicológica como bobagem, como jogar conversa fora. E quem é essa pessoa que vai falar sobre o seu filho, sua filha se quem conhece a criança é ela? A resistência tende a ser grande. A raiva sob a imposição de freqüentar o Grupo para os responsáveis, como fazendo parte do tratamento e permanência da criança na Instituição, é grande de uma maneira geral, mas depois, conhecendo um pouco da dinâmica do trabalho, a participação vai se tornando efetiva.

Foi muito interessante ver as pessoas conseguindo se ver como sujeitos com espaço para falar sobre si, pelo menos por cinqüenta minutos ou menos. Chega ser engraçado que os responsáveis na escola, nas instituições passam a ser chamadas pelo nome das suas crianças. A mãe do fulano, a avó do beltrano e quando ali no nosso trabalho, cada um era tratado pelo seu nome, no início pareciam perdidos. Claro que falávamos sobre as crianças, mas foi um trabalho de resgate de uma identidade que falava de um sujeito com a sua história, com seus desatinos, com suas alegrias e tristezas. A maneira como recebiam a notícia do problema do seu filho/a, a reclamação pela frieza com que os médicos falavam sobre síndromes que eles jamais haviam ouvido falar, era frequente, Todos vivendo a sua normalidade, com suas queixas cotidianas, que não sabiam de forma alguma, o quê era conviver com aquilo que escorrega do supostamente ser normal.

O filho como extensão de si mesmo, e o tal narcisismo sangrando, anunciando que a criança não teve êxito na escola, ou em qualquer outra área da vida e esse responsável sentindo-se fracassado por isso. Bem, nesse caso não se trata exclusivamente das crianças especiais; isso é bem comum de maneira geral.

Na experiência mencionada acima, sobre o trabalho que realizei, foi confirmado mais uma vez, a importância de nos aproximarmos dos nossos fantasmas, das nossas dores, de um espaço para gritar com nossa voz, com nossos silêncios, com nossos corpos que se contorcem eretos apoiados na sustentação aparente de que está tudo bem.

Há tanta coisa para se falar sobre esse universo. Fica aqui esse breve registro.

Até a próxima!

Um abraço,

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