A FAMÍLIA E A MORTE NEGADA


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Eu e as imagens... eu, as imagens e as palavras... eu, as imagens, as palavras e minhas divagações. Eu e minhas divagações turvas. Eu pensando sobre vida... sobre morte... sobre mortes negadas, mesmo que declaradas, anunciadas. Eu pensando que todos os meses do ano poderiam ser amarelo. O fato é que minhas idéias são cinzas e nas sombras tento enxergar o invisível. Esse incolor que tinge de matizes do mesmo tom, essa mortalha que veste os vivos. A vida se vestindo de morte. Pulsão de morte, com o seu quê de pulsão de vida. A morte que silenciamos, principalmente quando é convocada e não somente acontecida.

Eu, as imagens e histórias. Eu contadora de histórias talvez lidas. A imagem para começar? Uma senhora com vários porta-retratos à sua volta, ela cercada de histórias. Seu nome? Que tal Ela? Eu conto para vocês. Ela com os retratos, as imagens, as histórias registradas, as mais bonitas em preto e branco. Ela envolta pelo silêncio em uma casa que de repente ficou grande demais para alguém que estava habituada ao movimento de gente entrando e saindo, risadas, correria. Bem, na verdade não eram tantos risos, mas era uma casa com vida, até que a morte foi convidada.

Ela não gostava de lembrar, por muito tempo havia negado os acontecimentos em sua família, entretanto nos últimos anos, o quê mais fazia era pensar em tudo que havia escapado dos seus planos, de suas idealizações. A imagem que mais gostava estava naquele retrato em que ela estava cercada por seu marido, seu filho e sua filha. Uma família bonita de se ver, de se apreciar e até de se invejar; era o quê ela pensava, mas guardava no cantinho mais secreto do seu ser. Com esse retrato apertado próximo ao peito ela se levantou com dificuldade e com os passos arrastados chegou ao quarto do filho e parecia ter voltado no tempo, ao ver seu menino, já com barba, mais ainda o seu menino. Lembrou que todas as vezes que viu seu menino encolhido no canto do quarto, com uma expressão de agonia, com a alma a parecer gotejar pelas pontas dos dedos, Ela sentia o coração apertar, mas dizia que seu menino havia puxado ao avô, sempre quieto, meio esquisito. Agora, cabisbaixa, lembrava que jamais permitiu que seu menino falasse sobre a sua dor. Mais alguns passos e lá estava o quarto da filha, tudo no devido lugar, as almofadas com as capas em tom de lilás, com detalhes bordados feitos por uma mãe que adorava lilás. Mas qual era mesmo a cor que a sua filha mais gostava? Ah sim! Aquela discussão horrorosa porque a filha queria cortinas vermelhas no quarto, no seu quarto. Onde já se viu, uma moça educada para ser contida e parecia uma gaivota com um bailado exótico, uma criatura que parecia não caber dentro de si. Era como Ela pensava, até que percebeu que a sua ave com uma estranha mania de viver à sua moda, deixara de reivindicar vida; os olhos ficaram opacos, as asas pareciam cortadas. Ela e seus filhos sem vida, Ela e seus filhos desistindo da vida, Ela e seus filhos mortos.

Ela encontrou seu menino sem vida, caído no chão do seu quarto, aquele mesmo cantinho onde ele ficava encolhido gotejando sua alma, uma alma que não conseguia ser, mas ninguém sabia, na família ninguém ousava saber. Até porque se quisessem saber, o motivo, se é que o menino sabia, teriam que perguntar a ele. O menino tomou uma quantidade enorme de comprimidos que Ela desconhecia; não estavam na caixa de remédios, muito menos no armário do banheiro. Pouco tempo depois, a gaivota triste resolveu voar de fato e pulou do telhado da casa onde vivera sua infância, sua adolescência e parte de uma juventude mergulhada em desistência. Ela pensou sobre a sua doce rebelde gaivota com seus modos inadequados. Duas mortes negadas que, se fosse possível, seria um assunto jamais comentado. Quando indagada sobre os acontecimentos, Ela sorria e perguntava se alguém iria querer mais café. O marido de Ela se tornou uma sombra de si mesmo e foi encolhendo, murchando, vivendo o quanto agüentou e deixou de querer viver, sua alma desistiu e seu corpo não reagiu mais aos medicamentos, aos tratamentos. Resmungando consigo mesma, Ela dizia que o marido desde sempre não demonstrava ter sangue nas veias. Ela e sua certezas...

Ela e tudo que idealizara desde sempre. Diante da janela, apreciando o seu jardim tão bonito e tão querido. Como podia aquele jardim parecer que estava a desabrochar por minuto e ela sem viço, sua família perdendo o contorno nos porta-retratos. Para onde tinham ido as vidas que não se faziam mais presentes na sua casa, diante dos seus olhos. Ela foi sendo invadida pelas lembranças de um passado que fazia desfilar diante dos seus olhos, por entre as flores do seu jardim, Ela com seus bebês, Ela a tecer sonhos, Ela a se autorizar definir a busca do outro, de seus filhos. Entre os encantos do jardim, a morte a acenar e como que pela primeira vez Ela se deu conta do quanto somos diminutos e Ela aceitou a idéia de finitude e entre outras coisas, uma finitude provocada. Uma morte que não cabia nos sonhos de Ela, a morte por suicídio, esse cessar de vida, o qual nos assusta, nos machuca falar a respeito.

Com um longo suspiro, Ela lembrou de si mesma, quando era muito jovem, muito menina pensando em desistir e não havia sido uma única vez. Ela chorou e pela primeira vez no transcorrer do bailado de tantas estações, Ela ouviu-se soluçar e a gritar toda a sua raiva, sua dor, sua culpa por entender que não chegou a tentar compreender que seus filhos não deram conta da vida. Ela gritava para toda a mobília e para os personagens nos porta-retratos, parecendo se apresentar para um júri rigoroso. Ela gritava que sim, ela não quis saber, não quis ouvir, que se agarrou às suas idealizações, como uma maneira de resistir, de não desistir, de se entregar para não ser que sbe-se lá porquê resolveu continuar. Ela esperneou, gritou, se desgrenhou, suou e ficou parada por um bom tempo. Depois arrumou os retratos e viu nos olhos de cada um deles da sua família, que eles não pertenciam à ninguém. Voltou à janela e lá estava a morte a acenar, a sorrir. Muito calma, muito tranqüila, Ela acenou de volta para morte e disse em tom de voz alto: “Até qualquer dia. Agora preciso arrumar essa bagunça.” Entre os dentes Ela disse só para si: “Abusada.”

Como lidar com a vida negando a morte? Eu penso na morte de todo dia em que desistimos porque nos cansamos, porque nos negamos, porque nos retiramos de cena por não podermos ser. Eu penso nesse monte de motivos que jamais saberemos que pode nos levar a convocar a morte. A morte para aquela dor terrível, para aquela decepção, uma tremenda frustração, mas que chega acabando com tudo. O suicídio e o seu silêncio que grita ao vento e nos faz pensar.

A história de Ela é para falar sobre o quê? Não sei, apenas brotou, pipocou no teclado e tomou forma. Que não fique presa na tela do computador, que voe por aí, que seja lida, contada e sei lá mais o quê. Que seja uma possibilidade de pensar a respeito de um silêncio significativo. A vida dos filhos não estavam na mãe de Ela, essa que precisou silenciar a sua própria busca em passos que de alguma maneira a fizeram paralisar. Nem sempre há sinais... Como falar, querer explicar um assunto multi, entretanto singular? Não sei...

Que a prevenção ao suicídio possa ser talvez pensar sobre o entrelaçamento da vida e da morte. Que a morte não seja ignorada.

Até a próxima!

Um abraço,

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