A FAMÍLIA E AS SITUAÇÕES IMPOSSÍVEIS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Situações impossíveis... O quê determina uma situação como impossível? Tem a ver com desejo, empenho, conhecimento, disponibilidade? O impossível e suas limitações... as limitações é que levam ao impossível, às impossibilidades ? Eu e as interrogações que me invadem, me inundam, que me levam a navegar no sombrio em busca de ar.

Gostaram da imagem? Navegando no sombrio em busca de ar. Respirar em busca de respostas. Será que para todas as interrogações há respostas? Aceitamos? Convencemo-nos de que assim é, porque é assim que pode ser? Caramba! Acho que estou a convidar vocês para um passeio em um labirinto árido e florido. Bora?

Penso que o filme que assisti recentemente me tem feito pensar mais ainda sobre limites. Digo mais ainda porque no meu trabalho, na vida aprendi, venho aprendendo sobre o limite estreito da nossa ajuda para o outro. É preciso entendermos o quê é viável, e o quê não é. Diante do impossível, trabalhar as possibilidades.

O filme? Transtorno explosivo. Um filme que fala sobre uma menina de nove anos que não cabe em lugar algum. Uma menina extremamente agressiva, ao mesmo tempo imensamente mergulhada no desamparo, em um desamparo que parecia transbordar dos seus olhos e revelar sua alma infantil esfacelada. Uma menina pedindo mãe, colo o tempo todo e também pronta para ferir a qualquer momento.

A menina do filme se chama Bernadete, mas é chamada pelo apelido, Benni e essa menina me fez pensar sobre tantas crianças que conheci no trabalho, na vida. Narrativas sobre crianças impossíveis de se trabalhar, de se lidar; essas crianças e suas famílias. As impossibilidades e eu com uma acentuada dificuldade em ouvir, em aceitar o que para mim sempre pareceu uma sentença: “NÃO TEM JEITO!” A minha proposta no trabalho com os pais sempre foi a de nos envolvermos com as possibilidades, uma vez que já conhecíamos as impossibilidades.

Voltemos à Benni um pouco; o filme não explica quem foi Benni, qual o início da sua constituição psíquica. Apenas noticiaram que Benni surtava quando tocavam no rosto dela. A suposta explicação era porquê quando Benni era bebê, esfregaram, colocaram uma fralda em seu rosto. Benni havia passado por mais de dez abrigos e rejeitada, expulsa de todos não tinha um lugar para ficar. A criança não entendia o motivo de não estar com sua mãe e seus dois irmãos menores. Ignorando as regras apresentadas sem recuar, parecendo um carro desgovernado, Benni ia atropelando tudo e a todos, inclusive a ela mesma.

Crianças como Benni provocam um misto de sentimentos por onde passam. É possível perceber raiva, irritabilidade, ternura, piedade, impaciência, compaixão, indignação, amor, ódio e eu sei lá mais o quê. Por mais que uma equipe esteja integrada, empenhada em trabalhar, em tratar uma criança, é imprescindível que se apure as limitações de um tratamento. Precisamos lidar com as nossas frustrações, com nosso narcisismo arranhado, com nossas fantasias de onipotência e tentar alcançar as possibilidades.

À certa altura da minha jornada na vida, encontrei um menino que parecia não caber em lugar algum. Eu não o atendia, eu trabalhava no colégio em que ele estudava e toda vez que ele dava problema, era mandado para ficar no meu setor, até se acalmar. Era muito interessante, eu trabalhando, envolvida com as minhas atividades, ele se aproximava e puxava conversa. Era um garoto medicado, cheio de tiques, mas... olhando nos olhos dele, parecia que eu via um sujeito que corre sem sair do lugar, tentando abrir portas trancadas. A porta que se abria era aquela, quando ele contava dos passeios que fazia à uma fazenda ou sítio de uma pessoa das suas relações. Nesse momento o menino se mostrava sereno, coerente, astuto, suave. Era bom conversar com ele, aprender com ele, não apenas sobre agricultura, mas também sobre a vida. As pessoas não acreditavam muito quando eu comentava sobre esse menino que existia dentro do outro que se apresentava turbulento a maior parte do tempo. Ele não se encaixava ou nós não o alcançávamos? Os pais chegavam para buscar o filho, com uma expressão de cansaço, perdidos, envergonhados. Comentavam que os pais eram idosos e não davam conta de educar o filho. Esse tipo de situação, não acontece apenas com filhos de pais idosos, não mesmo. Depois de um bom tempo, infelizmente eu tive a notícia de que aquele menino, já um rapaz estava em um hospital psiquiátrico. O quê terá acontecido? Agora, escrevendo estou lembrando daquele menino, do sorriso dele, pensando no quê pode ter sido da ordem do impossível.

As famílias e as impossibilidades... o desejo de que aquela situação acabe, se transforme. Muitas famílias seguem como robôs, as orientações sem se apropriarem da situação, não dão conta. A mãe de Benni não dava conta, não suportava a presença da filha. Benni parecia correr léguas para encontrar, os braços, o colo da mãe.

Na história de Benni havia uma assistente social que, muito implicada no caso, não aguentou ter que dar a notícia à criança de que a mãe dela não cumpriria o prometido, ela não levaria Benni para casa. Lá estava a assistente social chorando, sentada no chão, se sentindo mal, sendo amparada por Benni que dizia com doçura: “Não chore Sra. Bafané, não chore.” A Sra. Bafané teve que entrar em contato com o limite das possibilidades com a mãe de Benni, com a própria criança e não foi fácil. Esgotada também essa possibilidade, da criança voltar a morar com a mãe, a assistente social aceitou a indicação da psiquiatra da equipe, sobre um projeto para crianças como Benni em outro país. Interessante ver a Sra. Bafané

Benni, uma criança que podia se mostrar doce, capaz de cuidar dos irmãos, de um bebê e ao mesmo tempo quebrar a casa toda, pegar uma faca, ameaçar se matar e matar a quem ela acabou de declarar amor. Crianças assim existem, não é coisa de filme. Você que está a ler esse texto, conhece ou conheceu alguma criança assim? Você foi uma criança assim?

O filme pontua bem, a dor do sujeito que não se aconchega no desejo do outro. Li em uma resenha sobre esse filme, que marca uma cena muito forte em que Benni, junto com um dos educadores que a convida a experimentar o eco em uma montanha, e ela grita várias vezes, com um desespero, uma agonia que parecia tomar todo o lugar. Benni grita: MAMÃE, MAMÃE, MAMÃE...

Confesso a vocês que apesar de saber de dificuldades tamanhas, reconhecer limitações significativas, até hoje ainda é difícil escutar o seguinte: “Esquece Claudinha! Não tem jeito!” Talvez seja apenas eu tomada por minhas fantasias de onipotência.

De qualquer maneira, deixo aqui o meu abraço para todas as crianças e suas famílias, para as quais as impossibilidades se tornaram uma sentença.

Até a próxima!

Um abraço,


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