A FAMÍLIA E O SOFRIMENTO PSÍQUICO

Atualizado: 12 de fev.



Psicanalista: Cláudia Moraes

E-mail: contato@psicanalitico.com


Estou aqui, em uma brecha no trabalho quando uma pessoa faltou à sessão, para me voltar ao texto do blog, do nosso blog. E sobre o quê eu quero escrever? Vejamos... Permito-me devanear, me ver ondulando com o vento e disponível para que minhas idéias cheguem e se espalhem sobre o papel, como palavras se espraiando, escorrendo e tentando dizer o que penso... mas o quê penso? Penso em falar sobre o sofrimento psíquico. Quem sabe, explorar um pouco o tortuoso existir de quem não pode ser e talvez por isso seja? O sujeito não cabendo em si, transbordando para dentro e para fora de si. Para isso, mais uma vez recorro a um recurso muito querido meu, a história na história.

Odille é o nome dela, nossa personagem parada diante da janela do seu quarto. Odille, uma mulher que tenta não se perder em si mesma. Às vezes parece olhar e não ver. Talvez porque olhe para uma outra dimensão, um lugar onde se abrigam suas lembranças, suas ilusões primeiras, esperança, anseios de quem não se preocupa em entender a vida, mas tende a criá-la, de modo a caber nela.

Diante da janela se desliga do barulho irritante dos carros que passam na rua, cada um seguindo o seu caminho. Odille respira o cheiro das suas lembranças e concentrada se vê em um passado distante, por vezes tão próximo, conversando com as flores do jardim da casa da avó. Odille amava sua avó sempre carinhosa e quituteira, o que agradava muito a menina. Parecia que da família, a avó era a única que entendia a menina Odille. Achava engraçado quando a avó dizia com um sorriso largo: “Está novamente conversando com as flores Odille?” A menina muito tranqüila respondia que sim. “Algum recado para mim?” E Odille respondia prontamente: “Sim vovó, todas as flores estão agradecendo por todo o cuidado e carinho que a senhora tem com elas.” “Tá certo. Agora encerre a conversa e venha lanchar, fiz o bolo de fubá com côco que você tanto adora e antes de dormir o seu mingau misturinha,” A avó da menina sentia um misto de alegria e preocupação ao observar a neta crescendo com dificuldade para estar com as pessoas. Os pais pouco se ocupavam da filha, viajavam muito a trabalho. Odille cresceu conversando com as flores, com as pedras, dava vida a tudo o quê era inanimado, nomeava-os e direcionava sentimentos, compaixão por eles. Achava que se as roupas dormissem no varal, sentiriam frio. Continuou sozinha na adolescência, a escola era o seu martírio, sentia-se excluída, as pessoas a achavam esquisita. A moça de aparência frágil, um tanto desleixada, abatida refugiava-se nos braços da avó, como quem buscava respostas para um viver sem propósitos. Questionamentos de quem não queria existir.

Odille gostava de como a avó brincava com o seu nome: “O seu nome quando pronunciado parece uma onda de água que bate quando a língua toca o céu da boca na última sílaba.” A menina sorria e comentava “E se gritarmos o meu nome, a onda pode sair como um jato vovó, quem sabe como uma cachoeira.”

Odille um pássaro sem pouso, sem sua avó não sabia em que, em quem se ancorar. Olhava-se no espelho, aproximava-se e sussurrando perguntava “Quem é você?” ela, uma estranha tão sua conhecida. Um corpo que ela habitava e temia. A cada dia mais taciturna, às vezes pensava qual seria o gosto de ser normal, de ter uma vida como as pessoas levavam. Às vezes chorava por horas, mas na sabia responder o motivo. Uma vez conseguiu responder: “Talvez eu possa desaguar em mim vovó, me entranhar na terra e florescer em paz.”

Odille entrou em desatino com a morte da avó. Ela que desde criança acostumara-se a dar vida ao inanimado, não conseguia animar sua avó, dar vida à ela. Diante do caixão, a sensação total de desamparo. Ali, paralisada parecia não ver ninguém ao redor. Ali estavam Odille e sua avó morta e uma imagem, uma cena em que ela em um barco remando sofregamente para chegar até sua avó que boiava em seu caixão em um lago de água negra. Por mais que remasse, o barco não saía do lugar. De repente, a avó de Odille se pôs de pé no caixão e sorrindo, preenchida pela morte, acenou para a neta e afundou em seu caixão. O desespero de Odille era intenso e ela gritou pela avó. Um grito que expressava toda a dor do seu silêncio na vida, da sensação de aprisionamento ao seu existir.

De volta à cena do velório, as pessoas se assustaram com o grito de Odille que também se assustou ao ser repreendida por seus pais e retirada do local. Odille se perguntava confusa sussurrando “Onde eu estive? Onde eu estive?”

Com a passagem do tempo odille cada vez mai esquiva se perdia em seu temor de cenas cada vez mais aterrorizantes. Passou a viver com o pais e se sentia estranha à mesa do jantar, quando seus pais mal se dirigiam à ela. Odille vasculhava os detalhes da face da mãe, do pai tão envolvidos em seus assuntos e se interrogava “Será que eu me tornei invisível de verdade?”

Certo dia, Odille despertou em plena madrugada e se assustou, pois parecia que o quarto estava repleto de galhos, folhagens, a maior parte secas que iam entrelaçando a cama e prendendo suas pernas. Tomada de pavor, Odille começou a se debater e a gritar, quando a empregada empurrou a porta perguntando o quê havia acontecido e o quarto voltou ao normal. Odille tentou explica o quê havia se passado, mas não conseguiu. A empregada que conhecera Odille quando criança tomou as mãos dela nas suas e olhando nos seus olhos tentou acalmá-la.

Era visível o incômodo dos pais com a presença da filha. Quando Odille tentava algum contato dizendo “Mamãe.” Era interrompida de imediato “Agora não Odille, estou ocupada.” E o mesmo se dava em relação ao pai. Odille se sentia um resto, sem lugar. Sem o colo da avó, entendia que não havia lugar no mundo para ela. Temia dormir e ter pesadelos, temia ser invadida por cenas violentas. Pouco se alimentava porque não tinha apetite e ela sentia um certo horror aos alimentos, sentia-se ameaçada. A empregada, D. Conceição com muito jeito conseguia fazer com que Odille tomasse um mingau que era uma lembrança da avó. Mesmo crescida, adorava o mingau que a avó chamava de misturinha. Certo dia, com muito esforço D. Conceição conseguiu arrumar os cabelos desgrenhados de Odille e a levou para tomar um pouco de sol. Os passos de Odille, apoiada no braço firme de D. Conceição, eram incertos. Estavam caminhando em um parque bonito, quando se sentaram para descansar um pouco. Inicialmente estava tudo bem, até que Odille começou a ficar agitada sussurrando para D. Conceição que aquelas pessoas estavam olhando para ela de maneira esquisita, que talvez soubessem o quanto ela era horrível, suja e desprezível e que iriam tentar matá-la. D. Conceição abraçou Odille e com lágrimas nos olhos disse: “Menina menina, o quê está acontecendo com você?”

Certa noite Odille foi orientada a não sair do quarto porque haveria um jantar para convidados importantes. Foi quando se aproximou sem ser vista e escutou a mãe respondendo a um dos convidados: “Nossa filha Odille está passando uma temporada em Paris estudando.” De volta ao quarto, Odille se aproximou do espelho e chorando sussurrou: “Você está em Paris?? Então eu estou sozinha?”

Aproveitando mais uma viagem dos pais de Odille, D. Conceição sabendo que poderia ser demitida e não suportando mais ver o sofrimento da moça para ela ainda a menina que ajudou a criar, marcou uma consulta com um psiquiatra. Durante a consulta, Odille em silêncio observava a sala, os detalhes, a figura do médico. Segurando fortemente a mão de D. Conceição, ela parecia ausente. Imaginava-se com uma corda no pescoço pronta para pular da cadeira. D. Conceição ia relatando a situação com o peito apertado.

Ao final da consulta, D. Conceição levava na bolsa uma receita e o cartão de um analista. O horário com o analista foi marcado e lá diante da porta aberta, D. Conceição foi conduzindo Odille que insistia em não soltar a sua mão. Em sua sabedoria de quem conhecia as dores da alma em si e no mundo D. Conceição sussurrou ao ouvido de Odille: “Está tudo bem, pode entrar, eu estarei aqui esperando por você.”

Diante do analista, encolhida em uma poltrona, depois de um tempo em silêncio, conseguiu responder à pergunta: “Minha avó me chamava de Odille... eu sou Odille... mas quem é Odille?”

Nossa história poderia continuar, poderíamos saber o desenrolar do processo da análise, entender o quê aconteceu com Odille, mas deixo isso para a imaginação de cada um que vier a ler esse texto, ou quem sabe Odille retorna em um outro texto do nosso blog? O que eu quero nesse momento é convidar vocês a pensarem sobre o sofrimento psíquico que se apresenta de diversas maneiras. O sujeito que transborda em si e pode se perder em uma avalanche de imagens deveras perturbadoras. Almas retalhadas que não conseguem se recompor andam por aí, paralisadas no seu desmanchar, em seu diluir que se esgota e se renova na dor da falta de apreensão de si mesmo.

Odille não cabia na mesa para o jantar, talvez só coubesse no desejo da sua avó e no afeto, na compaixão de D. Conceição. Conviver com o sofrimento psíquico não é nada fácil, o que nos foge à compreensão não é fácil, entretanto ignorá-lo é como fazê-lo emergir cotidianamente..

Quantas Odilles circulam por aí? Quantas pessoas amargam o sabor do sentimento de desadaptação em um mundo de pseudo normalidade.

Afinal, o que sabemos sobre tudo isso?

Pensemos...


Até a próxima!

Um abraço,


50 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo