A MÃE DESNECESSÁRIA


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com



Hoje começo esse texto com uma interrogação: Como fazer uma pessoa que desempenha a função materna, entender a importância de ser desnecessária, de se fazer assim com o tempo? Árdua tarefa, com certeza. A imagem? Uma face tomada por angústia, indignação. Refletindo sobre esse assunto, lembrei-me de uma conversa com uma colega de trabalho, quando eu, diante de algumas queixas, sinalizei que o filho dela estava crescendo e que ela precisava ajudá-lo na conquista da sua autonomia, na sua caminhada na vida. Desolada ela me perguntou com um olhar de profundo desamparo: “E eu vou ficar sem nada? Você está dizendo que ele vai e não vai ficar nada pra mim?” Bem, por aí já dá para pensarmos um pouco sobre os conflitos que rondam a maternidade.

Também lembrei de uma lenda que pode nos fazer pensar a respeito do sofrimento da mãe que não pode deixar de ser, que não consegue deixar o filho ir. Vamos lá, eu conto para vocês.

Conta a lenda que em um povoado em algum lugar desse mundo, talvez em outra dimensão, as pessoas do lugar tinham seus hábitos, seus costumes e vivam bem, sem maiores problemas. Homens e mulheres trabalhavam a terra e se sustentavam, tendo uma boa parceria com a natureza. Eles tinham os seus festejos e a cerimônia de todo dia brindar a oportunidade da VIDA, algo que eles respeitavam muito, assim como respeitavam a MORTE. As crianças eram cuidadas e a maior proteção era o estímulo, a orientação para a conquista da autonomia, o cuidado de si e para o outro. As mulheres sorriam ao ver seus filhos aprendendo a andar e logo a “voar.” O ninho familiar não era esquecido porque onde quer que elas fossem, levavam o amor e os princípios recebidos desde cedo. Acontece que havia uma mulher nesse povoado que não conseguia se encaixar na harmonia dessa canção, ela se chamava TIONE.

Tione agia de maneira diferente das outras mulheres do povoado. Desde que parira seu filho, esquivava-se de participar da vida, da rotina que envolvia a comunidade; só queria ficar com o filho. Quando a criança ganhou o chão, Tione ficou desesperada porque a criança começava a ir em direção às outras pessoas, começava a se integrar à vida em grupo. O vento soprou, o tempo aconteceu e Tione não foi capaz de impedir que os olhos, o sorriso do seu filho procurasse outros pousos. O pai da criança não conseguiu alcançar Tione, todo o seu ser se voltava para o filho que fugia dela, como quem busca ar. Os anciãos se reuniram e decidiram que ela deveria passar um tempo na floresta, a fim de resgatar o seu EU que havia se perdido com o nascimento do seu filho.

Tione tentou argumentar, mas para a palavra dos anciãos não cabiam argumentos. Mergulhada na floresta, em busca de si no outro, Tione tomada pela magia da Lua, adotou filhotes da natureza, sentindo como se os tivesse parido. Para todos os filhotes, a mesma ação de retê-los consigo, em seus braços e a consequente fuga dos mesmos. Então, ela adotou plantas e junto ao seu peito, elas murcharam e as pedras que ela recolheu em seu colo, rolaram para longe dela. Tomada por intenso vazio, Tione sentiu seus braços, todo o seu corpo sem função e ela vagou por um tempo que ela não podia contar. Certo dia mergulhou em um riacho e não sentiu nada, ela queria reter a água, mas nada acontecia. Tione não conseguia ter nada, ela tentou ver sua imagem refletida na água, mas nada viu. Tione era ninguém sem o outro, não podia ser. Tione chorou intensamente e tão cansada estava que se recostou à uma árvore frondosa e seu olhar encontrou o céu, a Lua tão menina, tão mulher, tão mãe, tão conhecedora do feminino. Em seu silêncio Tione pediu à Lua que preenchesse os seus braços, seu coração para sempre. O pedido de Tione foi atendido. Ela sorriu ao sentir seu corpo se fundindo à natureza, tornando-se parte daquela bela árvore. Uma estátua, a forma de uma mulher pronta a acolher, com os braços disponíveis para embalar.

Até hoje se comenta que a estátua sorri quando alguém, pessoas, animais se recostam, se aninham, cochilam se entregando em busca de conforto, consolo e afagos. Quantas mulheres como Tione encontramos por aí? Quantas mulheres com contornos parecidos com os de Tione estão a ler esse texto? O quê fazer com a necessidade imperiosa de ser importante e necessária para alguém? Costumo chamar à atenção para o fundamental na constituição de um sujeito, o quantum de investimento afetivo, de olhar para a sua existência. Para tudo, uma medida. Tione traz a marca do transbordamento, do excesso. Muitas mulheres falam sobre a sensação de completude com a chegada de um filho e a terrível sensação de perda, de incompletude, quando esse filho vai para a vida, vai ao encontro de si. Quanta projeção é feita sobre um filho! Quanto isso pode ser pesado e aniquilador, ser objeto de posse de uma mãe.

Será que conseguimos entender o quanto pode ser terrível para uma mulher entender que ela será necessária apenas por um tempo, que faz parte ajudar a preparar o seu filho a ir por aí, pela vida? Quando encontramos mulheres na clínica, que se percebem sem função, sem rumo porque seus filhos caminharam, temos trabalho a fazer. Adentrar uma floresta, o seu inconsciente em busca de si, de um EU que deixou de ser, que talvez jamais tenha sido, é uma árdua tarefa. Apropriar-se de si, para deixar o outro SER.

A mãe desnecessária, aquela que aprecia o outro se preencher de si mesmo, que se antes não o fez, tem a oportunidade para se enxergar, mas esse é só o início da conversa.

Pensemos...

Até a próxima!

Um abraço,



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