A SEPARAÇÃO DOS PAIS E OS FILHOS COMO RESTO


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Hoje vou começar esse texto com uma imagem que pulou no meu colo quando escolhi o título em questão. Vamos lá: uma criança olhando pensativa para um ponto de interrogação em suas mãos. Estive com muitas crianças que mal sabiam formular seus questionamentos em relação ao quê viviam em família, os dissabores familiares, mas a angústia aparecia de várias maneiras. Elas precisavam entender, sentiam-se desalojadas em si mesmas, perdidas, sem saber o quê fazer.

Muita gente acredita piamente que crianças não entendem uma separação, um desenlace conjugal e oferecem o silêncio ou a gritaria, o que tende a confundir o curso do pensamento das crianças. O quê tenho percebido é que o problema não é a separação em si, mas a maneira como isso acontece. Para muitas famílias chega um momento em que o melhor a acontecer, de fato, é a separação. O término acaba chegando como um alívio para crianças que estavam mergulhadas em verdadeiras tormentas. É preciso que a comunicação seja a mais clara o possível e com isso não estou incluindo as particularidades do casal. É impressionante como tantas crianças são expostas à intimidade de seus pais de uma maneira dura, fazendo-as ingressarem em um universo que não é o delas, pelo menos por hora. Precisamos mesmo respeitar o tempo de uma criança, o tempo de ser criança. Esse tempo que chega de mansinho e em algumas fases da vida parece vendaval; que por vezes ondula como mar revolto e bate violentamente pedras de realidade em seres que não têm como se segurar, se proteger e ficam à deriva, na mão de marujos que mal sabem de si, quanto mais desses pequenos seres, as crianças.

Estive com muitas crianças que lamentaram com dor profunda, o término do casamento dos seus pais, mesmo verbalizando seu sofrimento por viver em um ambiente de discussão, brigas e até mesmo violência doméstica. Crianças apegadas à fantasia de que um dia seus pais voltariam a se encontrar e que todos seriam felizes, talvez, como nunca tenham sido. É muito interessante como encontramos adultos que depois de anos, ainda vibram com a possibilidade de um ambiente familiar, de uma história que jamais existiu.

Separações mal realizadas nos fazem perceber, na clínica, na vida, crianças que se tornam irritadiças, agressivas, esquivas, tristes, adesivas, inseguras, medrosas, perdidas, enuréticas. Aquilo que não é compreendido, tende a ser vivido na escuridão e o psiquismo dessas crianças grita em seus corpos que precisam denunciar a sua dor. Então vemos esses pequenos vivenciando o seu luto, sem entender exatamente porquê choram, o quê aconteceu e o quê deixam para trás quando tantas vezes se sentem deixadas para trás.

Um dia desses assisti a psicanalista Diana Corso falando sobre os filhos como o resto do final de um casamento e achei muito apropriado. Quando uma união, uma junção de idéias e propostas, um projeto, um casamento, começa a acontecer, o assunto filhos entra na lista fazendo parte desse começo. Um casamento, um projeto que visa construção, crescimento, frutos, renovação, esperança. Muita idealização? Talvez sim, mas há um investimento naquilo que se deseja acreditar, inclusive em um filho idealizado. Quando toda essa história chega ao fim, aquilo que não deu certo; o filho fica nesse meio, é o que resta, o resto. A sobra daquilo que não aconteceu e com o tempo girando e acontecendo, os pais, em um determinado momento começam a investir em novos projetos, novas uniões, novos casamentos, buscando novos frutos. Esses pais envolvem-se, criam novas histórias em que o resto da história anterior precisa ser encaixado, inserido nesse novo roteiro e nem sempre acontece bem, aliás, nem sempre acontece.

Ser o resto pode ser não fazer parte, não ser. Lembram da imagem da criança com o ponto de interrogação nas mãos? Pois bem, diante dos relatos, dos quais fui testemunha, talvez possamos traduzir da seguinte maneira: Como ser o resto na vida do outro? Que lugar é esse reservado para mim? Para quem eu serei importante agora?

Bem, esse é apenas um pequeno ponto, uma breve leitura de um assunto tão complexo. Muito a pensar, muito a discutir.

Até a próxima!

Um abraço,

36 visualizações1 comentário

Nos siga nas redes sociais!

  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone Instagram

Para falar conosco, envie um e-mail: