A TABACARIA - [Uma análise dos sonhos]

Atualizado: Mar 4



Marcio Garrit - Psicanalista

Email: contato@psicanalitco.com


Eu vou lhe receitar três remédios: Pare de pensar no amor, escreva todos os seus sonhos e volte pra ela ou a esqueça de vez! E assim temos vemos a saga do jovem Franz, de 17 anos, recém chegado de sua pacata cidade e já em conflitos com um desejo que nem sabe qual é. Sozinho, a libido a flor da pele e com o mundo de angústia que os 17 anos trazem. Sorte dele ter encontrado Sigmund Freud pelo caminho. Ou teria sido azar?

A tabacaria é um filme Austríaco, de 2019, dirigido por Nikolaus Leytner. Totalmente ambientado pela tensão da década de 30 e a evolução dramática para a segunda guerra. Não podia ser diferente. Freud estava no seu apogeu. Após a década de 20, a Psicanálise já tinha alcançado sua respeitabilidade e Freud era, e é ainda, Freud. Como dito no filme: “Ele conserta pessoas!”. Quem conhece a psicanálise, sabe que ela tem lá seus dons. Franz tinha tudo que um neurótico costuma apresentar ao procurar um analista: dúvidas, angústias e desejos reprimidos. Não sei dizer se os remédios de Freud conseguiram êxito, mas uma coisa fizeram: Franz não parou de tentar entender. Às vezes isso basta!

Nikolaus Leytner faz um filme voltado para a dinâmica onírica. Nada mais honesto, aliás, a psicanálise nasce, tecnicamente, a partir do lançamento do livro dos sonhos em 1900. Este era o livro de maior orgulho pra Freud, até 1913, onde ele escreve outro, Totem e Tabu, sobre o início da cultura que faz ele repensar se aquele deveria continuar ou não sendo o seu “queridinho”. Curiosidades a parte, os sonhos continuam, até hoje, sendo uma ferramenta muito importante nos settings analíticos. Psicanalistas autorizados ao atendimento não desperdiçam essa mensagem, que para o criador da psicanálise “era a estrada real que conduzia ao inconsciente”. Para este, os sonhos eram carregados de mensagens, distorcidas, do desejo real do paciente. Ali, era uma forma de provar que não éramos senhores da nossa própria morada e que o desejo real estava recalcado, reprimido, oculto e nos entregava, pois invariavelmente diz muito de nós. Diz o que realmente somos.

No filme, Freud tinha o costume de ir regularmente a tabacaria comprar caixas de charutos. Fora da ficção, Freud fumava dezenas por dia, segundo Élisabeth Roudinesco, uma de suas biógrafas, era para substituir seu antigo vício em cocaína. Ao chegar lá era atendido por Franz, que após seguir seus conselhos (escritos no início desse texto) pede pra deitar no divã de Freud, afirmando: “Eu preciso me entender”. Isso não acontece, mas Franz continua se encontrando com o mestre e anotando seus sonhos. Todos muito intrigantes e tendo como pano de fundo a água. Uma água sempre turva, similar à do rio nos fundos da sua casa, similar as turbulências do nosso desejo que não consegue dizer claramente o que quer de nós.

Com a evolução da tensão pré guerra, os encontros com o mestre ficam mais difíceis, e Franz não desiste de continuar a tentar entender. Escreve seus sonhos e cola na vidraça da tabacaria. Um movimento que deixa claro que seu desejo precisa ser comunicado, exposto, falado, buscado e entendido. Deixa claro que somos desejo e que alguém precisa desejar um pouco disso que desejo para que no fim eu me sinta amado e nem que seja só por um minuto,...... FELIZ!

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