ALZHEIMER E FAMÍLIA: TRILHAS DA MEMÓRIA



Cláudia Moraes - Psicanalista

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Inicio esse texto trazendo a imagem de um baú pequeno, empoeirado, largado em algum sótão, porão, galpão e para quebrar essa série de “ão” quem sabe num quartinho onde se deixam coisas, o famoso quarto da bagunça que muitas casas, muitas residências têm. Um baú que, visto por fora parece algo velho, sem interesse. Eis que você estreita o olhar, resolve se aproximar e abre o tal baú. Quanta surpresa! Quanta coisa guardada! Lembranças boas e más! Memórias...

Alzheimer e memória: estamos caminhando! Já faz um tempo, eu fui a uma jornada sobre o envelhecer e uma mulher que conviveu por anos com a sua mãe com Alzheimer iniciou sua fala marcando a diferença entre esquecer e lembrar. Ela disse que o problema não estava em uma pessoa que esquece onde havia colocado as chaves de casa, não! A questão estava em a pessoa não lembrar o quê era uma chave, sua serventia. Isso diz tanta coisa; é de uma amplitude tão estreita, daquele tipo que se vê ao se olhar uma viela, como o corredor da casa que parece um deserto para o sujeito que demencia.

Será que podemos pensar sobre um sujeito que demencia, como alguém à deriva? A visão de desamparo cabe aqui? E desamparo para quem? Para quem foi abraçado pelo Alzheimer, para o familiar que se vê enredado, aprisionado pelas tramas da demência ou para os dois?

Quem já conviveu ou convive, por parentesco ou por trabalho, com a pessoa que é acometida pelo Alzheimer, sabe que para cada peça, um cenário. Embora o Alzheimer traga características particulares, que nos levam a identificar essa condição de maneira geral; aprendemos que os atores são diferentes assim como o desenrolar da história. A vivência do Alzheimer depende do recheio de cada um.

Entre o sujeito acometido pelo Alzheimer e a família, as trilhas da memória. O quê um não lembra a outra parte pode não esquecer. As relações permeadas pelo tempo, passado, presente, futuro, um tempo que marca e fala, que grita dores, alegrias, encontros e desencontros que fazem com que as pessoas se olhem e se vejam. Quantas pessoas se contorcem diante de um outro e precisam de cuidados, mas despertam sentimentos de raiva e desejo de distanciamento. Por vezes cuidar de quem se odeia, por diversos motivos, produz sofrimento para aqueles que não conseguem ir. Outra face dessa situação é aquela pessoa que assiste o adoecimento de alguém que se ama e tem que lidar com a limitação do seu amor, tendo que entender que o melhor a fazer é pedir ajuda e permitir a presença de um cuidador. O amor não dá conta de quem não conta com os limites do ser.

O quê se sepulta nos caminhos do Alzheimer? Que loucuras vêm à tona, quando a sanidade se esvai? O quê há de verdadeiro no transbordamento da demência que faz o sujeito tão senhor de si em suas certezas, colocando-o como gladiador, que por vezes agride, abate, despreza quem outrora amara? O quê cintila naquele que submerge em seu alheamento, nos labirintos da memória desenhada como um mosaico de fatos passados? A quem o Alzheimer embala, enquanto pisoteia a família que não sabe o que fazer com o pacote da demência? Falamos de uma família que pode ver ruir quando presencia o ruir da ilusão de um belo contorno familiar que jamais existiu, ou se de alguma maneira existiu, se diluiu. A demência esfrega a dureza do real e nos faz perecer.

E qual será a beleza do real da demência? A beleza sórdida da demência fala do “deixar de ser.” Se um dia desabrochamos, quem for tomado pela demência, poderá vir a se despetalar. Serão pétalas arranhadas, manchadas, amassadas, pétalas com registros de vida. A “repetição” do Alzheimer pode trazer em si o não dito ao longo da vida. As falas desconexas parecem saltar de porões da alma e gritar capítulos de um Eu represado que a demência arrebenta.

Lembram do baú? No processo do Alzheimer pode acontecer daqueles que acompanham quem está à deriva, recolherem as pétalas e guardarem com cuidado e carinho. Essas pétalas podem parar no lixo, podem ser sopradas ao vento, choradas, mastigadas, cuspidas... Mas afinal, a quem pertencem essas pétalas?

Demência... Espelho de nós enquanto sujeitos donos do nada. Alzheimer... Rabiscos dos laços formados por todo tipo de afeto; ciranda que toca melodias fúnebres em quem anseia por bailar livre da dor. A dor do cuidador! A solidão do Cuidador! O silêncio suave e agressivo de quem cuida, precisa de ajuda, mas não encontra. O sombrio daquele que aceitou ficar; que foi eleito, inconscientemente ou não e urra por vingança, com a cabeça enterrada em si mesmo porque se envergonha de reclamar, do que sente. O cuidador familiar que tem suas memórias o açoitando e dizendo que jamais terá fim, se não se encerrar dentro de si. Não adianta contar com a morte, é preciso que o sujeito se olhe, se interrogue, que se permita ir.

Muitas interrogações... O real do Alzheimer possibilitando alguns a estarem inebriados por verdade pútridas de si mesmo. Pútridas porque se fala do humano.

Esse perfume que cheira mal é do humano que faz de conta que a carne não apodrece.

Trilhas da memória... Que cada um tome a sua.

Até a próxima!

Um abraço,

Cláudia Moraes.

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