AS CRIANÇAS E OS SEUS BICHOS QUERIDOS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Hoje venho convidar a todos para pensarmos um pouco sobre as crianças e seus bichos. Aposto que nesse momento, várias lembranças vieram à memória de vocês. Algumas pessoas pensaram em suas crianças próximas, ou em si mesmas, adultos, quando pequenos. Quase todo mundo tem uma história de criança relacionada a bichos, histórias de amizade.

Há algum tempo atrás, quando eu estava buscando material para estudar e fazer uma live sobre “Pessoas acumuladoras”, entrei em contato com a questão das pessoas que acumulam animais. Foram vários os relatos em uma reportagem muito interessante e triste ao mesmo tempo. Entendemos que os casos de acumulação trazem uma história, algo que ilustra a ponte para um possível entendimento do contorno da acumulação. Uma das histórias, me chamou muito à atenção, um relato que muito me tocou. Trata-se de um senhor, contando um pouco mais de setenta anos que acumulava cachorros e que estava acamado porque um dos cachorros o havia mordido. A repórter perguntou o motivo dele ter tantos cães. O senhor respondeu com lágrimas nos olhos, a voz cansada e trêmula, muito emocionado:

- Eu não sei, a única coisa que eu penso, é que quando eu tinha cinco anos, a minha família mudou de cidade e eu não pude levar o meu cachorro, não pude fazer nada. Eu só sei que, desde aquele dia eu penso nessa cena, eu lembro do meu cachorro que eu deixei para trás. O tem se afastando e o meu cachorro olhando pra mim, latindo- E o senhor desatou a chorar soluçando.

Pois é, isso me fez mais uma vez pensar nas marcas profundas que marcam como tatuagens a alma das crianças. Possivelmente cada cachorro que o senhor da reportagem resgatava, representava o cachorro que havia ficado para trás. Um menino de setenta anos em contínua reparação com o seu cachorro que ele, mesmo sem querer deixou para trás.

Vamos guardar essa imagem tocante, com um traço forte de agonia. Agora passemos a uma outra imagem. A expressão de uma criança que recebe um bichinho por muito tempo esperado. A emoção é contagiante, quando a criança parece não acreditar, quando aquilo parece gigante em seus braços. A criança olha, dá pulinhos, as mãos no rosto, na boca, como que para conter um grito de alegria e muitas crianças choram abraçadas aos seus bichos bem chegados, um sonho realizado.

São cães, gatos, papagaios, calopsitas, galinhas, galos, tartarugas, peixes, porquinhos da Índia e tantos outros bichos que chegam à vida de muitas crianças, trazendo um pouco de organização psíquica. Crianças solitárias passam a ter um tipo de presença para quem dirigir seus segredos, suas alegrias e tristezas. Crianças que têm dificuldade de contato, de tocar e serem tocadas, passam a ter tal experiência. Abraçam seus amigos bichos, permitem proximidade. Também tem aqueles bichos que passam a ser o mascote do grupo. Crianças gostam de falar das travessuras de seus bichos; gostam de mostrar que têm bicho.

Muitas histórias acontecem quando chega um animalzinho em casa, principalmente quando se trata de um filhote. Histórias de organização, desorganização, parcerias, ciúmes. Muitas vezes o animal que chega para ser das crianças, acaba ficando para os pais. Por falar em ciúmes, acabei de me lembrar de dois meninos, gêmeos que ficaram com um filhote Vira-Latas que estava perdido na rua e recebeu o nome de Bethoven. Acontece que a mãe dos meninos passava o dia a chamar pelo cachorro: “Be! Be! Vem com a mamãe!” E Bethoven, lógico fazia a parte dele, correspondendo ao carinho. Os meninos começaram a ficar chateados e um dia resmungaram: “Minha mãe agora só quer saber do Bethoven,”

Os animais vão chegando, encantando, conquistando e fazendo parte das famílias. Claro que não podemos esquecer que os animais estão sendo humanizados de uma maneira, que beira à violência; algo que descaracteriza os bichos, mas falaremos sobre isso em outro momento, em outro texto. Assim como podemos falar em uma outra oportunidade sobre crianças que machucam animais. A presença de um animal pode tocar muito uma criança, um adulto, a criança que vive em um adulto e eu estou falando de algo que vai além dos benefícios que a servidão de um animal pode oferecer aos seus humanos. Acabei de me lembrar da Kate, uma cadelinha que chegou para um menino e acabou ficando mais para os pais do menino. Kate teve uma existência breve, ela adoeceu e quando morreu, o pai do menino, que era um homem muito fechado quanto aos seus sentimentos, desabou em um choro que parecia represado por, sei lá eu, quanto tempo.

A morte da cadelinha Kate, me faz pensar em como as crianças lidam com a morte dos seus animais. Quando Bethoven morreu envenenado, o pai dos gêmeos decidiu que os meninos não participariam dos ritos fúnebres, quando acordaram souberam da morte do seu cachorro e que nunca mais o veriam. Talvez essa seja uma oportunidade das crianças lidarem com a morte, a única certeza na vida. Sim, não podemos esquecer que cada caso é um caso.

As crianças têm possibilidades que desconhecemos. Certa vez, um menino que eu atendia em uma instituição, perdeu o seu cachorro, ele morreu. Esse menino passava uns perrengues na escola, era calado, observador, com questões familiares e que tinha um cachorro bem levado, que ele adorava. Quando o menino falava do seu cachorro, eu via luz nos olhos dele. Quando o cachorro desse menino morreu, ele ficou profundamente triste e um dia, quando ele permitiu que nós falássemos sobre a morte do seu cachorro, sobre a sua perda, eu sugeri que nós escrevêssemos uma carta para o cachorro. Ele ditaria e eu escreveria. O menino aceitou. Posso dizer que foi algo muito pesado, porém libertador para ele. Enquanto ele ditava, eu escrevia sobre a sua tristeza, sobre a sua dor, sobre a sua saudade. Ele falava, chorava, soluçava, o seu corpinho se contorcia na cadeira. Ele entrou em contato com a dor dele. Quando terminamos, ele parecia muito cansado, porém um pouco mais leve. A vida seguiu para o menino, depois ele teve outro cachorro e vez por outra lembrávamos e riamos das travessuras do cachorro morto, mas vivo na memória do menino.

Lembram da imagem do menino de setenta anos vendo o seu cachorro ficando para trás? Pois bem, está decidido. Vamos ajudar esse menino. A cena agora vai ficar assim: O menino foi impedido de levar o seu cachorro quando a família se mudou para outra cidade. O trem partindo e o menino vendo o seu cachorro ficando para trás. O coração do menino cheio de tristeza e culpa. Eis que ainda deu tempo do menino ver um colega de escola pegar seu querido cachorro no colo e acalmá-lo. Ufa! Que alívio! O colega cuidaria do seu cachorro. Querido Sr. Menino de setenta anos, não sofra mais, seu cachorro foi muito bem cuidado e ele entendeu que você não poderia fazer nada. Sabe de uma coisa Sr. Menino, mesmo o colega não aparecendo, aposto que alguém cuidou do seu lindo cachorro querido. Você não teve culpa, procure descansar agora.

Histórias e historietas de crianças com seus animais. Eu conheço um monte, mas vou ficando por aqui.

E você? Qual é a sua história? Conta pra nós.


Até a próxima!

Um abraço,

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