AS MÃES DOS FILHOS DAS DROGAS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Parada diante da tela do computador estou a pensar sobre como iniciar esse encontro de palavras, para soprar ao vento algumas impressões sobre um assunto tão forte e delicado. Um assunto que deixa marcas profundas nas famílias e talvez precisemos pensar a respeito do conceito e desconceito do que vem a ser família. Pensar sobre as mães, sobre as pessoas que desempenham a função materna e se depararam com a questão das drogas, me põe a escrever. Lembrar das lágrimas que eu vi escorrer pelas trilhas de tantos rostos, da ira impressa em lábios contraídos ao pronunciarem a impotência sentida por não conseguir desviar o curso das drogas na vida dos seus filhos, isso me põe a pensar e a escrever.

Imagens? Talvez a primeira seja essa que tantas pessoas me apresentaram, o olhar sobre aquele ser tão pequeno, tão frágil, por vezes irritante com um choro que não cessa. Um olhar que desenha a vida desse ser, que inventa contos e cantos, paisagens, conquistas, acertos... Tudo o quê esse ser nomeado filho, filha viverá, ela sabe, elas sabem que não sabem, mas é difícil aceitar. A vontade imperiosa de deixar esse filho guardado no bolso e caminhar por ele, viver por ele, não permitir que qualquer perigo o atinja. Mãe e filho prisioneiros de algo que não se pode ter numa relação em que não se respira e qualquer movimento põe tudo a desabar. Um tudo traduzido como nada.

Hoje, a idéia não é a de falar diretamente sobre os filhos das drogas, mas sim sobre as mães desses filhos. Nesse momento eu me lembro de uma mulher que estava na instituição onde trabalho, com dois filhos em busca de atendimento, pois a escola havia encaminhado por problemas apresentados na escola. No encontro comigo, para falar a respeito de um dos filhos que passaria por avaliação psicológica, ela falou sobre um outro filho, um filho que escapava ao seu olhar, aos seus cuidados, alguém tão seu e nunca mais seu, porém sempre seu. Complicado isso... Quando ela tinha alguma noticia de alguém que tinha visto o seu filho, ela corria para o local indicado, mas ele não estava mais lá, então ela voltava para casa, com o vazio a pesar mais e mais. E assim ela ia vivendo, de indicação em indicação e sempre chegava atrasada. Quando ela menos esperava, ele aparecia, sujo, faminto, perdido, encontrando-se no domínio das drogas. Ela tinha vontade de tomá-lo nos braços, de niná-lo até ele adormecer e finalmente descansar. Ali, tão perto e tão distante com um olhar que não encontrava o seu. O olhar do seu filho estava voltado para outro lugar. Qual? O quê havia nesse tão lugar de tão interessante, que ela, sua mãe não podia oferecer. Ela conseguia fazer com que ele tomasse um banho, se alimentasse e quando ela menos esperava, ele já tinha ido, sem ao menos um beijo, como ele fazia quando ia para escola. Tchau mãe.

Essa mulher de quem falo, trazia a dor expressa em cada detalhe do seu rosto, do seu corpo, até no seu cabelo, mas ela dizia que não ia desistir e que tinha os outros filhos para cuidar e como ela temia que os outros tivessem o mesmo caminhar, como ela temia perder os outros filhos para as drogas. Um cansaço profundo de quem só queria poder descansar um pouquinho, tomar um café, ver sua novela, não sentir tanta dor nos seus pés e a força persistente condensada em uma mulher que veste sua armadura, toma sua lança e vai para vida prover o sustento dos filhos. Ela e ninguém mais. Essa mulher me disse que sabia que do jeito que as coisas iam, provavelmente seu filho perderia a vida, mas enquanto ele estivesse vivo, ela continuaria tentando resgatá-lo. Narrar essa lembrança, me trouxe à memória um filme chamado “O Retorno de Bem”, em que a mãe interpretada por Julia Roberts recebe o filho que estava numa clínica para reabilitação e ele fica para o feriado porque ela se responsabiliza para que ele não cause problemas; esse é o acordo com o marido. Essa é mais uma mãe de um filho adotado pelas drogas e ela colou nele até onde pôde e ela tem a mesma postura, a de não desistir.

Não desistir... por quem não se desiste? Em nome do quê? Um filho como a extensão de alguém, carrega esse sujeito em sua constituição psíquica, carrega suas marcas e faz as suas. Podemos pensar que não desistir de um filho, é não desistir de si mesmo? O quê está em jogo? O interessante é notar que muitas vezes o que se tem a fazer é que o outro não desista por si, que esse filho/a possa se descolar dessa mãe para caminhar. No filme “Querido Menino” temos um pai tentando entender o motivo do filho estar totalmente absorvido pelas drogas, quando ele entende que tem uma proximidade construída ao longo dos anos, desde que o filho era pequeno. Esse pai entendeu que havia um limite para a situação e que ele não conseguia ir além e ele disse que era com o filho. Não se afastou totalmente, não abandonou o filho, mas foi buscar uma outra maneira de viver tudo aquilo. Aliás nosso limite para ajudar o outro é estreito, não há como agir, desejar pelo outro. Ao lidar com as mães dos filhos das drogas, ouvi, ouço constantemente: Eu falhei! Eu fracassei!

Muitas mulheres tentam lidar com o despertar da raiva que sentem ao descobrirem seu filho/a como usuários de drogas. Temos aquelas que tentam negar, justificar atitudes, se refugiando em trabalho, problemas dos outros, religião, entre outras coisas. Há aquelas que querem acabar com a situação, que não conseguem olhar para esse filho, e falam sobre a raiva que sentem pela destruição que as drogas trouxeram para a sua vida, a sua família.

Como não lembrar de uma mulher que chorando muito falou sobre a vergonha que sentia pelo o quê o seu filho andava fazendo. O filho dela estava roubando dentro de casa e ela temia e tremia pela possibilidade do filho estar fazendo a mesma coisa na rua. Ela disse entre seus soluços:

“Não foi isso que eu ensinei a ele, não foi assim que eu eduquei ele. Eu não posso falar sobre isso com qualquer pessoa, na verdade eu não tenho ninguém para falar. Na minha família todos me julgam e me condenam, dizem que eu acoberto, até dizer que eu compro a droga pro meu filho já disseram. Só que eu estou tentando entender o quê é isso, eu tento conversar, brigo muito, mas não tem efeito. Quando a minha família me condena, é como se eu estivesse usando as drogas, como se eu tivesse roubando. Eles dizem que eu tenho que bater, espancar pra ver se ele se endireita, que eu tenho que denunciar para a polícia. Será que se fosse com os filhos deles, eles agiriam assim? Quem me condena entende o que eu estou passando? Alguém quer saber o quê eu estou sentindo? Eu sei que o filho é meu e que eu que tenho que cuidar, mas eu me sinto só nessa batalha e quando eu penso que eu posso ter colaborado para o meu filho ter ido por esse caminho, aí que eu sofro mais com a minha culpa. Você me desculpa viu, mas você me deu a chance de falar, aí parece que eu não vou parar mais, preciso aproveitar a oportunidade. Desculpa, desculpa. Que vergonha!”

As mães dos filhos das drogas... O quê eu tenho para falar? São tantas, vários perfis, várias histórias, esperança e desesperança, idas e vindas, a vida acontecendo de alguma maneira, Notícias de morte e de vida, desatino, pedidos de perdão, a raiva se espalhando na sala, nas tentativas de uma refeição com sossego. Saudades... muitas saudades do riso frouxo das crianças, dos filhos pequenos, de quando a preocupação era resolver o problema da cólica, de ter que ensinar o dever de casa. Quando as coisas começam a desandar? Mães dos filhos das drogas, mães cujos braços parecem vazios, e o coração a transbordar de toda a sorte de sentimentos. Mães que esperneiam feito crianças que não aceitam se responsabilizar, que precisam ajudar seus filhos a também se responsabilizarem.

O quê falar? Sobre o quê falar? Talvez eu precise continuar ouvindo e voltar a escrever depois...

Até a próxima!

Um abraço,

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