AS MÃES ESPANCADAS E SEUS FILHOS QUE CHORAM


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Está aí, um assunto bem complicado de se tratar. Quando penso sobre esse assunto, me vem uma imagem interessante, a água do mar batendo forte em rochas. Escutem o som... a água do mar chicoteando as rochas. Ou seriam as rochas quebrando a violência do mar? Um ciclo que se repete ritmicamente. Bofetadas chicotadas... de que curso falamos, não falamos, não queremos pensar?

Nesse exato momento, eu me lembro de uma mulher que levava o filho para uma escola-clínica em que trabalhei. Aquela mulher que apanhava, talvez ainda apanhe se estiver viva. Pode ser que vocês pensem “Que horror Cláudia!” “Você está sendo pessimista!” Ou talvez haja quem pense: “Se morreu, foi mais que merecido, se não caiu fora, foi porque gostava, sem vergonha!” Essa mulher de quem falo, chegava para trazer seu filho e eu via que as pernas dela pareciam que se dobrariam a qualquer momento. Eu tentava entender a prisão em que ela havia se metido e dela não saía. Penso que não adiantaria eu dizer a ela que a porta estava aberta, que as trancas e correntes faziam parte da subjetividade dela. Eu tinha esse direito? Eu tinha esse dever? Aquela mulher precisava de um espaço de análise para ela, só que não havia.

Através do trabalho com a criança, eu cruzava com os pais. A mãe trazia a narrativa dos seus espancamentos, as marcas no seu corpo, as chagas na alma e um psiquismo que desmoronava. Aquela mulher, uma mãe levando o seu filho para os atendimentos, pedindo para ser atendida. Alguém que exibia o seu sofrimento, numa narrativa que desenhava a distância e a proximidade de si mesma, na mesma proporção, era o quê parecia, era como eu lia. Ao encontrar com o pai, aquele homem com estatura de gigante, deparei-me com um olhar que parecia conter a desmedida. Foi estreitando o olhar que eu vi mais do que um gigante com seu potencial agressivo parecendo que escaparia a qualquer momento por sua respiração, na sua sombra. Eu vi alguém que também precisava de tratamento. Não, eu não estou justificando aquele homem que espancava aquela mulher, sim ele precisava da lei. Eu queria entender a dinâmica, aquela “parceria” entre os pais, para talvez entender a dinâmica daquela criança. Uma criança que não podia falar. Assim como a sua mãe se refugiava no sigilo da ética do atendimento psicológico e falava sobre a sua história, aquele menino se abaixava e sob a mesa, falava baixinho, principalmente quando estava perdendo no jogo, em alguma atividade que realizávamos. Como a sua mãe, aquele menino não podia falar publicamente sobre o quê ia dentro de si.

Penso que todos nós já vimos em filmes, novelas, situações em que uma criança, desde as bem pequenas, que reage diante da agressão que sua mãe está sofrendo. A criança sai em defesa da sua mãe; ela não teme o adulto, o tamanho, a força do adulto, a criança apenas vai, tenta empurrar o adulto, grita, chora, apenas vai. Para ilustrar, cito o exemplo de um filme que vi recentemente chamado Laço Materno. Tem uma cena em que a mãe de uma criança, um menino totalmente negligenciado, atravessado pelas inconsequências dessa mãe, ele vê a mãe apanhando do namorado e tenta ajudá-la, tenta defendê-la e apanha também. Um menino pequeno, franzino, anulando-se pela falta de olhar da sua mãe, parte para encarar um homem adulto, forte, agressivo, a fim de proteger a sua mãe.

Muitas crianças ficam bem confusas sobre a situação em que suas mães apanham de seus maridos, namorados, namoradas, esposas. É bem comum termos notícias de crianças que vão crescendo e mudando de atitude. A situação de violência doméstica continua e os filhos começam a tratar suas mães como entendem que tem que ser. Passam a ser agressivos, desrespeitosos e a lógica passa a ser a seguinte: “Se o meu pai faz assim, isso é o certo!” Há também aqueles filhos que imploram para que suas mães se libertem, que os libertem, que se separem, pois sofrem com um ambiente repleto de tensão e violência e se mostram irritados e cansados pela mãe não romper com um ciclo destrutivo.

Muitos são os adultos que ao lembrarem da sua história infantil, relatam suas vivências de ter a mãe sendo espancada, insultada e recebendo o seu quinhão de violência e que ao crescerem acabam sendo os agentes do fim das surras, não das brigas. Então temos uma fala que é muito comum: “Aí eu cresci né e ele veio pra cima da minha mãe como sempre, mas eu pulei na frente, disse que ele não ia bater na minha mãe nunca mais. O quê aconteceu? Ele recuou.” O pequeno herói crescido transformado em um agente da lei, aquele que vai dizer CHEGA!

Quando uma mulher é convocada por seus filhos a pensar sobre o motivo de continuar vivendo com uma pessoa que a desqualifica, a despreza, a humilha; mostram-se desconcertadas, perdidas em suas certezas infundadas. Então você está ali, ouvindo a mãe do seu pequeno paciente dizendo que faz tudo para manter a família unida, que só mantém o casamento por causa dos filhos. Explicações que revelam e escondem e colocam uma conta impossível de ser saldada pelos filhos. Trabalhando com os pais, com grupo de pais, houve a oportunidade de falar sobre a violência doméstica e não foi fácil. Foi difícil alguém se manifestar, mas era interessante como parecia que eu captava muitas histórias em rostos envergonhados, em olhos que me olhavam como se eu estivesse ditando a sua história em particular. Mulheres envergonhadas sobre a sua situação, justificando a situação, mergulhadas em sua miséria, tentando entender a sua humanidade. Sujeitos servindo a um ser colocado em um lugar de dominação, de força e elas mergulhadas em uma servidão cega e surda, tentando se amparar no afeto dos filhos que também queriam ser amparados.algumas mulheres me procuraram para falar em particular, muito em particular sobre a confusão cristalina de uma situação sobre a qual se quer, às vezes falar, mas acredita-se que não pode. Esse é um assunto complicado demais.

As bofetadas, as chicotadas do mar nas rochas, ou as rochas contendo as bofetadas do mar. Que encontro é esse? Talvez estejamos falando de um desencontro em que há respingos que machucam quem está no entorno.

Bem difícil para quem está no entorno participar de uma trama, em que o roteiro anuncia tragédia e sentença de impossibilidades. Crianças trazem pata o setting analítico, o quanto é confuso, complexo lidar com conflitos onde se sentem reféns e o quanto querem uma rede para repousar, um ambiente acolhedor. Apesar de serem atravessados negativamente por participarem de experiências de espancamento das suas mães, podem vir a repetir, em sua vida futura, a dinâmica do mar e das rochas.

Esperamos que esses filhos que choram por suas mães espancadas, possam se perceber em uma outra imagem, em uma outra perspectiva.

Quem saberá?

Até a próxima!

Um abraço,


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