AS MAZELAS DO MUNDO E A PRESSA DOS PAIS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Estamos de volta e eu às voltas sobre o quê falar, ou melhor, escrever. Inebriada por esse impasse, lembrei de um vídeo que me chamou à atenção. Trata-se de uma mulher falando sobre sua filha ter vivido uma situação de exclusão por outras meninas no parquinho do prédio onde morava. O motivo da exclusão? A menina ser preta.

No vídeo, a mãe fala sobre sua pressa em que algo aconteça, para que o mundo se modifique; ela menciona a rapidez com que as crianças aprendem a excluir. O nome da moça? Eu pesquisei e descobri, Ana Paula Xongani. Ao ver a filha sozinha no parquinho, a mãe perguntou pelas coleguinhas da filha, a criança respondeu que era sempre daquele jeito, mas que estava tudo bem porque ela gostava de brincar sozinha. Será?! Tão jovem e já usando recursos para estar no mundo, nesse mundo onde a diferença é marcada, não para ser vista, entendida, absorvida, mas sim para efetivar a exclusão, a humilhação. Percebam que estou falando sobre a necessidade de um processo, a coisa não se dá apenas, faz-se necessário que se marque, que as diferenças sejam aceitas naturalmente.

Continuo às voltas com as imagens, nesse relato, a imagem que me capturou, foi a criança sozinha no parquinho, no balanço. Alguém aí que está a ler esse texto, lembra a sensação de andar de balanço? Impulsione o balanço com as pernas esticadas, a ponta dos pés, calçados ou não, como se fossem pés de bailarina e ao retornar, recolha as pernas, os pés, inclinando o corpo para frente. Depois que já estiver com ritmo, segure-se firme, feche os olhos, jogue a cabeça para trás e deixe acontecer. A sensação é maravilhosa, principalmente quando acontece conquista do ritmo, do vôo que leva e traz, a entrega. Tudo isso acrescentado ao riso das crianças mergulhadas na magia da coisa séria do brincar. Risos que aparecem nas bocas, nos olhos, no suor, nas regras e limites do brincar. Para aqueles que ainda não conseguem alçar vôo sozinhos, tudo bem, aos poucos se aprende. São coisas desse tipo de conquista que as crianças entregam aos seus adultos, colegas com um mal disfarçado sorriso, bradando silenciosamente como os olhos principalmente: EU CONSEGUI!!!

Nos balanços solitários dos parquinhos, praças, escolas, templos, famílias, esquinas, por aqui e aí, crianças a sentir que existir pode doer muito. Nesses bancos estão crianças de pele preta retinta, com seus cabelos característicos, crianças com síndromes, com necessidades diferenciadas, negligenciadas ou devoradas por super proteção, crianças gordas ou muito magras, com orelhas de abano, aquelas que por algum motivo não conseguem aprender, outras tantas que fazem xixi na cama, as muito ricas e as muito pobres. Sujeitos aprendendo a SER. E por perto, muitas vezes adultos agoniados sem saber o que fazer, como agir, precisando de ajuda. Xongani, a mãe do vídeo mencionado acima, fala sobre a pressa em saber ajudar sua filha a estar no mundo, foi assim que entendi. Também lembrei de vários adultos perdidos em um emaranhado de tentativas de fazer algo por sua criança. Ajudar uma criança a se preparar para a vida. Isso é interessante, pois tantas vezes observamos crianças ensinando aos adultos sobre o mundo, sobre a vida. E isso acontece pela simplicidade de um olhar que questiona os motivos para tanta complicação, pela alegria do embalo do “Vai passar, tá?” e com um beijinho, a certeza de que a dor vai passar, que a mamãe vai parar de chorar. Lições que vêm através da sinceridade infantil.

Uma vez, nas estradas da vida, cheias de entremeios, em uma instituição em que trabalho, deparei-me com uma situação em que chegou um menino para ser atendido e ele não gostava de pessoas pretas, gordas e nordestinas. Eu era a única pessoa preta na equipe... pois é pessoal, a questão ficou comigo. Bem, quando eu conheci a mãe do menino, ela quase atravessou a parede, se encolhendo diante da minha mão estendida. Ela, a mãe, tinha uma questão com pessoas com a pele preta. Fizemos um trabalho bem legal, incluindo uma palestra para os pais, falando sobre, diferença, preconceito, etc. Precisamos prestar atenção ao quê transmitimos para as crianças.

Diante de um mundo repleto de mazelas, como apresentar a vida, como ajudar um sujeito a entender que é preciso levantar, após cada queda, quando o adulto quer super proteger, resguardar? As quedas ajudam o aprendizado do seguir, do caminhar. As cicatrizes nas pernas, nos braços contam histórias. Xongani fala sobre se chegar a muitas bolhas; eu entendo que ela fala dos redutos em que se rejeita o quê não cabe na nossa moldura. Agarramo-nos àquilo que nos faz bem. Se a diferença nos incomoda, a questão é nossa.

Talvez a pressa esteja referida a olharmos para nossa desumanidade, nossos dejetos anímicos.

Voltemos à imagem da criança solitária no parquinho e imaginemos muitas crianças, cada uma com suas marcas, suas características, com sua singularidade, apenas sendo.

Cito novamente Michele Kamers que em uma de suas lives disse “Nessa aldeia ninguém larga a mão de ninguém. Que seja então uma grande ciranda, o aprendizado da vida com a sensação de entrega, quando se anda de balanço.

Que a pressa seja de nós adultos em aprendermos a sermos empáticos.

Até a próxima!

Um abraço,


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