AS MENSAGENS NO OLHAR TRISTE DAS CRIANÇAS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Quantas vezes já ouvimos dizer que os olhos são a janela da alma, que os olhos revelam, que tem pessoas que sorriem com os olhos? Inúmeras vezes com certeza. Podemos enunciar alegrias e tristezas com todo o nosso corpo que fala, que grita, que silencia. Tantas palavras são expressas na pele através de lesões, irritações, em órgãos que se contorcem nos provocando dor para dizer o não dito. A linguagem da nossa alma vivida em cada milímetro do corpo que habita. Nosso corpo falando o que não pode ser dito, o quê não damos conta de simbolizar.

Voltemos à questão dos olhos. Essa semana eu vi uma postagem sobre uma menina que foi assassinada. Na foto, ela segurava uma criança, ou melhor ela abraçava a criança, um irmão ou irmã talvez. A postagem convocava que as pessoas prestassem atenção ao olhar triste da menina, o olhar triste de Aninha. Ali estava ela, miúda, pequena, ajoelhada cuidando de outra criança. A informação era que aos seis anos ela tinha fugido, mas não foi bem sucedida. Aninha foi encontrada morta com sinais de violência e a pessoa que fez a postagem não se permitiu entrar em detalhes, porém deixou claro que o malfeitor era o namorado da mãe que era uma pessoa com passagem pela polícia, por estupro. O padrasto foi preso como principal suspeito. Se será condenado, não sabemos, mas sabemos que Aninha está morta.

Certa vez, ao receber uma menina que eu atendia, dez anos, com uma série de comprometimentos físicos e psicológicos, com acentuada dificuldade no processo de aprendizagem, bem ela chegou irritada, indignada porque a mãe, no dia anterior a tinha ignorado preferindo estar com o namorado. Ela dizia, quase gritando:

- Pra que teve filha então? Pra quê Pra não cuidar? É isso?

Sim, ela estava enciumada, mas não se tratava apenas de ciúme, ela se sentia excluída quando o namorado da mãe estava presente, sentia-se ignorada entre outras coisas. Está aí uma questão: Qual a proposta, a busca em se ter um filho? Será que as pessoas têm noção da responsabilidade em se ter um filho? Acontece isso naturalmente, essa noção de responsabilidade? Um filho não deve ser impeditivo para se seguir com a vida amorosa, mas sim, é preciso ter cuidado com isso, com quem se leva para dentro de casa. Muitas crianças são silenciadas quando tentam denunciar abusos e maus tratos sofridos, muitas vezes por um familiar. Aninha foi silenciada pela morte.

Uma criança tenta pedir ajuda e mesmo que ela não fale, é preciso que estejamos atentos aos sinais. Uma criança alegre, comunicativa, afetuosa, que passa a se mostrar retraída, com irritabilidade, esquiva, chorando por tudo e por nada, regredida, voltando a fazer xixi na roupa, na cama, com dificuldade para dormir, amedrontada, sinaliza que algo não vai bem. Tudo isso e uma série de outros sinais possíveis, inclusive marcas no corpo e o familiar dizendo que a criança é desastrada e se machuca à toa. Sim, precisamos estar atentos sim. O esperado é que o adulto responsável pela criança se ocupe do seu bem estar, de sua segurança, entretanto existem casos em que o adulto não só usa de violência como viabiliza que outros pratiquem a violência com a criança. Do quê estamos falando afinal?

Não sei detalhes sobre a família da Aninha, não soube de qualquer coisa sobre a vida infantil da genitora dessa menina, talvez algo que falasse da sua vivência violenta na infância. Muitas pessoas que passaram por violência física, sexual, psicológica podem repetir essa situação com seus filhos inclusive. Para o nosso psiquismo a equação A+B=AB não encontra lugar, pois pensamos que esse tipo de repetição não aconteceria. Pensamos o seguinte: Se uma pessoa foi espancada, não espancará. Pois é, mas acontece sim e aos montes. O processo analítico pode marcar o quão identificado com seu agressor uma pessoa pode ficar e agir como o mesmo.

Eu fui catar um pouco mais sobre a história da Aninha. Houve uma tentativa de fuga da menina, suspeita-se que ela fugia do abuso e ela estava desaparecida. Depois de 60 horas foi encontrada morta, agarrada a galhos, o corpo boiando em um rio. O corpinho bastante machucado, mandíbula quebrada, tórax comprimido e sofreu violência sexual. O principal suspeito é o padrasto que no passado estuprou e matou a própria mãe. O cunhado do padrasto também foi detido. A mãe de Aninha estava no hospital em trabalho de parto e já tem um filho de 1 ano e 8 meses com o padrasto de Aninha com quem vive há cerca de dois anos. Se fizermos uma breve leitura, perceberemos que foi tudo muito rápido. Há dois anos juntos, com um filho de 1 ano e 8 meses e parindo outro. Não cheguei à nenhuma informação sobre o pai de Aninha. O quê está batendo aqui na minha cabeça é a seguinte: Que lugar Aninha ocupava na história da mãe, no desejo dela? De que maneira Aninha chegou à vida da sua mãe? Quem era Aninha para a sua família? Eu não sei e não saberei. O quê penso, é que nesse exato momento, mais uma criança está nascendo sem lugar na vida de alguém, assim como mais uma, várias crianças estão morrendo, saindo de cena de forma violenta. O quê podemos fazer? Pensar a respeito, falar desse silêncio tão barulhento que nos espreita através do olhar triste de tantas crianças e denunciar sim.

Aninha... Ana Paula... O futuro não existirá para essa menina. Drª Ana Paula, Profª Ana Paula, Mãe do Paulinho, Esposa do fulano, Primeira Dama. Não sabemos... por hora, Aninha...

Nosso sorriso, nosso afago para essa menina de olhos tristes para essas crianças devoradas pela violência, pela dor.

Até a próxima!

Um abraço,


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