AVÓ: POSSIBILIDADE DE ESPERANÇA NA VIDA


Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com



Hoje quero falar sobre um assunto suave e intenso. Algo que pode nos mover na vida. Sobre registros em nosso psiquismo, em nossa alma, que poderiam anular e nos aprisionar no calabouço do nosso sofrimento, sofrimento esse proporcionado pelo Outro adulto enquanto somos crianças. Registros que nos lançam no lodaçal existencial de palavras proferidas com raiva, com nojo, com o amargo gosto da rejeição, no sufocamento da inexistência. Quantos de vocês não trazem isso na sua existência, no seu viver, no seu sobreviver?

Tantas crianças negligenciadas tornaram-se adultos que precisaram se agarrar a alguém que lhes deu continente, que foi continente para que não perecessem. A presença daquele que cuida, aquele que desempenha a função de ajudar a um ser que inicia sua existência é fundamental, a maneira como essa pessoa se faz presente, mais importante ainda. Eu poderia citar a tia, a madrinha, o pai, a mãe, uma professora, alguém que convida a bailar, uma criança, uma ciranda de cores e sabores, falando de um mundo de possibilidades. Alguém que com o olhar estreita uma criança com o amor mais cândido e intenso. Um amor que recita o mesmo verso, como uma cantiga de ninar: “Eu estou aqui.” Pois então, hoje escolhi falar sobre as avós.

Sim, como eu já disse, tem avós que parecem o ser perseguidor mais insuportável do universo, tomando emprestado o exagero das crianças. Não, não é exagero, é como se sente. Enfim... nem todo mundo tem lembranças de uma avó legal para contar, mas como eu já esbarrei com avós que com sua presença, com a sua disponibilidade para amar, para cuidar; avós que mostraram possibilidades de sorrir para tantas crianças, hoje dedico esse texto a elas, aos sujeitos a quem elas ajudaram a se constituir.

E o quê falar? Não sei bem. Talvez primeiro eu deva falar sobre o peso que recai sobre os sujeitos que tiveram contato com a negligência, com pessoas que não estavam disponíveis mentalmente para serem pais. Sobre a trama que envolve quem acredita nas palavras negativas com as quais foram definidas, com a falta de atenção, a falta do olhar. Como se significar diante do nada? Como responder às acusações de ser a pior coisa a ter acontecido? Como se encontrar não sendo o bebê idealizado de alguém? Como ser o bebê real diante da negação do outro que concebeu você, mas não vê você? Como responder sendo o NADA? São tantas as interrogações que tantos sujeitos carregam em si e passam anos tentando entender o quê aconteceu para não ter acontecido nada.

E aí, aparece uma avó, como um ser encantado, olha para esse sujeito identificado como nada e cuida. Ela não apenas banha, penteia, alimenta, ela olha, nutre de amor e sentido aquela criança que poderia se tornar um espantalho na vida. Sabe aquela pessoa que num dia de tempestade consegue mostrar as estrelas que não estão presentes no céu? É ela, essa avó que traz o céu estrelado nos olhos, o cobertor mais quentinho em seu abraço e a sua voz é a canção mais bonita, e acolhedora que surge quando essa criança sente medo do bicho papão, do monstro que pode estar debaixo da cama. Estou falando dessa avó que olha você e aceita você com seus medos e tem um jeito todo especial com suas manhãs e contrariedades. Talvez falte limites, eu sei, mas talvez esse transbordar de amor, para pessoas a um passo de se constituírem como o nada, esse possível excesso tenha sido a salvação.

Mergulhar no mundo fantasioso de uma criança é algo mágico. Apresentar as possibilidades da fantasia para uma criança exilada na escuridão de si mesma, no odor fétido da rejeição, é uma jornada e tanto. Não é todo mundo que está preparado para tal. Essa avó que lança cordas através de olhares, sorrisos, acolhimento, essa avó traduz uma existência com possibilidades. Essa avó impede afogamentos, desistências, falam de uma vida possível. Não importa a forma que ela tem: alta, baixa, gorda, magra, de todas as cores, mais falante, mas recatada, as que gostam de cantar, de dançar ou cozinhar. O quê importa é a presença.

A primeira live que fiz pelo Psicanalítico no instagram foi sobre uma cena que vi entre uma avó e um neto. Foi encantador. Eu estava em um trem e vi o encontro de um menino com sua avó. A mãe do menino estava presente, com mais uma irmã e irmão mais velhos e a mãe estava com uma expressão brava, parecia muito irritada, impaciente e devia ter os motivos dela. O menino que parecia ter uns três anos com suas roupas humildes chegou até os braços da avó e ali se aninhou. Havia uma cumplicidade tão grande entre a avó e o neto, parecia que eles falavam um dialeto só deles dois. Ele tomava o rosto dela em suas pequeninas mãos e parecia adorá-la. Brincava com o cabelo em desalinho da avó e pousava a sua testa na testa dela. Houve um momento em que a avó abriu um sorriso e havia poucos dentes em sua boca. Aquele sorriso parecia uma janela escancarada mostrando possibilidades; possibilidade de sorrir, de gargalhar ao menos. Minha estação chegou. Eu levantei e segui o meu caminho com essa passagem gravada em minha memória até hoje. Pensei e penso nas pessoas que jamais tiveram e terão a chance de ao menos pensar em possibilidades.

Quando essa avó morre, vem o desamparo e quanto mais cedo a morte dessa avó acontece, mais marcado fica o desamparo, mas uma coisa é certa, quem teve a presença de uma avó mensageira de possibilidades, tende a viver com a certeza de que foi visto, foi reconhecido pelo olhar de alguém disponível para amar. Isso não é qualquer coisa.

Esse texto é para todas as crianças “nadificadas” na vida, aquelas que foram gestadas e concebidas como o NADA, para aquela avó e seu neto no trem, para todos os adultos resgatados por suas avós únicas e para você que foi, que é essa avó apresentada aqui.

O quê mais dizer?

Até a próxima!

Um abraço,

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