BONECA INFLÁVEL - [Qual o substituto do seu desejo?]


Marcio Garrit - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Sabe aqueles filmes, que por mais diferente que seja a história ele consegue ser surpreendente e comovente? Torço para que já tenha tido essa experiência, pois esse filme me proporcionou literalmente isso. Uma agradável surpresa! Como poderíamos aprender e, também, nos emocionarmos com uma boneca inflável? A resposta é nada óbvia, pois nesse filme podemos aprender muito. Qual o substituto do seu desejo? Porque não conseguimos preencher nosso vazio sozinho? Qual a sua posição em relação ao desejo do outro? O que é ser útil? É sobre isso, e outras coisas extremamente intensas, esse filme.

Boneca inflável é um filme drama japonês dirigido por nada mais que Hirokazu Koreeda. Tem sua estréia mundial em 2009 e sua sinopse não é nada regular. O filme aborda a vida (ou seria certo colocar aspas?) de Nozomi, uma boneca inflável que passa seus dias com um solitário garçom que a trata como um ser humano. Nozomi, magistralmente interpretada por Bae Doona, vai tomando vida aos poucos e com isso começa sua jornada ao longo dos dias, aproveitando a ausência de seu dono. E é a partir daí que tudo vira uma viagem sem volta a questões existenciais que deveriam ser feitas por todo e qualquer sujeito. Seria impossível fazer um texto completo sobre as questões abordadas. Acredito que isso é função para um livro, porém, como sabem (pelo menos os que costumam ler meus textos) pra mim, cinema é sintoma. E é a partir disso que vou comentar o que mais se evidencia nas experiências da boneca Nozomi: O desejo, a solidão e a dependência!

Diz Nozomi: “Eu sou o substituto do desejo de alguém!” Lendo/ouvindo isso, a impressão que temos é que Nozomi leu bastante as obras de Freud e Lacan (rsrsrs), pois não há nada mais psicanalitico que isso. Nozomi está certa! Nós nunca somos o que mais gostaríamos de ser, ou seja, o desejo de alguém. Somos sempre o substituto de uma perda fantasiada, o retorno de um recalque que insiste, uma parte que falta no outro ou até tudo isso junto em um sintoma! Mas com certeza, não temos o poder de ser a completude de ninguém! Nozomi “vive” isso ao extremo. Seu dono vê nela tudo que ele acredita que lhe traria felicidade. Ela é a puta, a dona de casa, a mãe, a filha, a irmã, a companheira, a confidente, para no final não ser nada! Esse espelhamento de faltas constantes não cessa de marcar sua presença fazendo jus a tudo que nos é de mais comum na vida, o ato de repetir! Me lembra a relação de analista e analisando, onde este último, não desiste de negar a possibilidade de direcionamento do seu olhar para o seu real desejo, seu real desamparo, talvez para não ser invadido por esse real.

Nozomi é só, e talvez toda essa solidão se coloque justamente porque existe para tentar dar cabo daquilo que não é possível: completar aquilo que falta no outro. Servir pra viver ou viver pra servir? É meio piegas, mas é tão real! Onde se encaixa a sua realidade nessa questão? Ser solicito demais, ter bondade demais ou querer ajudar demais, pode ser um sinal claro de que algo está muito errado com você. Talvez exista um medo inserido na existência que nos faça fugir dela a ponto de se instalar na vida do outro. Quem sabe?!

A única coisa que sabemos é que seria impossível existir uma Nozomi por ai, assim como seria impossível dizer, nem que seja um pouquinho, que não exista algo dela em nós. Seja nos deslizes do desejar, nos momentos cruéis de solidão ou nessa incapacidade estruturante de resolver as faltas sozinho. “Esses humanos!” Diria Nozomi.

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