CORDÃO UMBILICAL: FIO QUE LIBERTA E APRISIONA


Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


Hoje convido vocês para passearem comigo por esse fio interessante chamado “cordão umbilical.” Esse fio que mexe com o nosso imaginário, nos faz trocar histórias sobre bebês literalmente quase enforcados por esse cordão que serve para entre outras coisas, para nutrir. Também ouvimos falar de um sufocamento simbólico em que alguém deixa de ser porque se passa a ser o que o outro determina. Histórias sobre proximidades intensas e distanciamentos desérticos.

A motivação para escrever esse texto vem de uma animação que me foi apresentada, O Cordão, do diretor russo Aleksandr Bubnov, que certamente recomendo. Trata-se de um material que captura a atenção por apreciarmos a delicadeza cortante da passagem do tempo e as consequências do movimento de não deixar o outro ir, não deixar o outro ser. Percebemos o sujeito se constituindo e sendo para o outro.

O cordão fala sobre uma mulher que pari uma criança, um menino e ela não permite que os médicos cortem o cordão umbilical e esse cordão, esse elo, essa ligação permanece, onde um vai, o outro está; um como extensão do outro. Por vezes puxando, em outras afrouxando, aquela mulher controlava as investidas do seu bebê que ganhava o chão e investigava o ambiente, em busca de descobrir os perigos de ser e estar aí no mundo; entretanto a mãe não permitia que ele experimentasse o mundo, que no colo, escorregasse para o tapete da sala e seguisse por ali, por aí. Quem de nós não tem marcas no corpo que lembram histórias, que contam sobre o quanto se era levado, esperto? As famosas “medalhas” conquistadas na infância, marcas que desenham, revelam nossas histórias.

Há alguns momentos marcantes na animação que falam de outras possibilidades, outro desenrolar para essa história que fala de um cordão de vida, vivenciado como cordão de morte, da morte. Um desses momentos é quando a mãe, ainda jovem, com sua criança pequena, esbarra em um homem e por um breve momento os seus olhos não estão fixados no filho, mas o filho reage negativamente à presença de um outro que não é a sua mãe. Dessa vez, ele puxa a mãe pelo cordão e eles seguem, continuando um com o outro. O tempo acontecendo e a criança sem condições de estar entre outras crianças na escola, não vivencia qualquer frustração e passa a ser educado em casa. Mais tarde, o filho, já um rapaz, se interessa por uma moça, mas a mãe puxa o cordão e traz o filho de volta para si. Num momento de desespero, ele ensaia cortar o cordão e ela quase perece, ele desiste. Eles envelhecem, a mãe começa a diminuir, a encolher, ele tem os passos diminutos como os dela, ele a carrega, a alimenta, ele a cuida. Ela adormece sobre o peito do filho como um bebê e Thânatos vem buscá-la. É Thânatos quem cumpre o ritual de cortar O Cordão, o laço, o nó que atou quem deveria seguir, com a possibilidade de voltar. Thânatos foi quem falou sobre vida ao levar a mãe daquele que se tornou a sombra da sua mãe, ou... ela própria.

Despossuído de si, pertencendo a ninguém, o menino habitando um corpo de homem, um homem que não se constituiu como tal, ao despertar se desesperou, sem cordão, sem estar ligado à sua mãe, a si, ele berrou como no dia do seu parto, como no dia em que nasceu para não ser.

Quando pensamos em cordão umbilical, somos levados a pensar sobre a questão da nutrição, do quão importante é para o bebê que sua mãe, sua matriz esteja adequada ao evento da vida; que se cuide, que esteja conectada da melhor maneira possível, àquele ser que vai chegar. Muitos são os relatos de mulheres que se sentem plenas, preenchidas, como se qualquer sensação de incompletude escoasse pelo ralo da sua existência que até então não tinha sentido. O quê se contorce dentro de uma mulher, da maioria das mulheres, é só dela, ela detém um poder, algo precioso que ninguém tirará dela. Sabemos, ou acreditamos que sabemos sobre a importância de um terceiro sujeito fazer com que essa mulher volte a fazer outros tipos de investimentos depois de um tempo, após o nascimento de um filho, para quê ela não o devore de volta para si, para dentro de si, colado, alienado a ela. Na animação que aqui discutimos, outras pessoas não participaram do desenrolar da história, um pai, uma avó, um outro alguém. O homem que se interessou pela mãe, foi barrado pela exigência do filho da mãe para si e a moça que se aproximou do filho, foi expulsa pela determinação da mãe e assim eles, mãe e filho seguiram sem sair do lugar, seguiram sem movimento, sem partir.

Quantas pessoas vocês conhecem e que talvez estejam assaltando a lembranças de vocês que me lêem e que “seguiram casados” com suas mães. Pessoas que desfilam em círculos, olhado para o próprio umbigo como via de ser onde unicamente são, no alimento idealizado do outro, sendo do outro, sem conseguir ser de si mesmo. E se alguém em algum momento tentou dizer para uma mulher nessa situação, o quanto a situação é perigosa, certamente será afastado, porque de uma maneira geral, ela não vê dessa maneira, ela não enxerga nada além da sua própria cria, da sua própria criação, sua criatura. Esse é um lado bastante complexo da maternidade, de se desempenhar a função materna.

Alimentar para vida ou para a morte em vida? O quê está na pauta? Sobre o quê estamos falando? Esses filhos altamente investidos como objeto que jamais serão sujeitos. Talvez eu esteja exagerando. Vamos lá... Esses filhos que terão muita dificuldade de se perceberem como sujeito, tendem a seguir como criaturas sem recheio, ou melhor, com o recheio do outro. Esvaziados de si, desenham-se como o outro. Estão nas esquinas dos abismos da sua sujeição ao desejo do outro, mergulham no nada e se lambuzam de angústia por si e para si.

O Cordão, sem dúvida recomendo que pensemos a respeito.

Até a próxima!

Um abraço,

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