CRIANÇAS SILENCIADAS E O SOFRIMENTO QUE GRITA


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Ontem assisti um filme que me incomodou muito e me fez pensar sobre um monte de coisas que não sei bem como explicar e resolvi trazer para cá, para o nosso blog, as minhas inquietações. Quem sabe possamos trocar impressões e eu enxergar melhor o quê talvez esteja bem claro e eu não esteja a enxergar.

O filme em questão é “Em Silêncio” o título original é Silenced, e já deixo aqui a referência de que assisti o filme pela Netflix. Antes de entrar na temática do filme, convido vocês a imaginarem uma cena que vou descrever. Logo no início do filme, uma criança pequena, de uns seis anos caminhando por uma via férrea, pela linha do trem. Aquele pequeno corpo parecendo frágil, dando pequenos passos, arrastando a sua alma que parecia traduzir um sofrimento tamanho, toda a figura dele transbordava a sensação de desamparo. Tanta tristeza, dor e um vazio impactante vindo da figura de uma criança caminhando na linha do trem e que não parecia desavisado, ao contrário, ele parecia saber muito bem aonde estava. O trem veio e a vida daquele pequeno menino se foi. Guardem essa cena, depois retornaremos à ela.

Em Silêncio é um filme que fala sobre a história real de crianças surdas que sofreram violência física, psicológica, sexual por professores, diretores, enfim uma história difícil de digerir. Sim, talvez alguém esteja a me interrogar, qual a novidade e aí já começa a minha angústia, pois eu sei que em algum canto do mundo, do bairro onde eu vivo, entre pessoas que eu conheço, talvez até amigos, algum tipo de violência esteja acontecendo, com alguma criança, com muitas crianças, centenas, milhares de crianças que são silenciadas com ameaças atrozes e sutis. Sim, eu sei e me assusta ainda mais quando percebo o quanto estamos a naturalizar coisas que não podem ser ditas sem repugnância, sem incômodos.

No filme em questão, a escola recebia crianças surdas, pobres, com deficiência intelectual e os responsáveis pela escola eram vistos como pessoas honradas na comunidade, na igreja, respeitadas e reconhecidas como aqueles que faziam um belo trabalho e que também faziam o dinheiro circular, em benefício de poucos e a escola era reconhecida como a melhor. Quando um novo professor chega à escola e começa a perceber as crianças acuadas, esquivas, com hematomas, tenta entender, conversa com um outro professor que tenta resumir a situação dizendo que trabalhava com crianças surdas havia muitos anos e que era daquele jeito mesmo. Esse professor era um agressor, que espancava frequentemente o irmão do menino que morreu na linha do trem. Ele espancava o menino que devia ter uns doze anos, batia violentamente como se o menino fosse um homem. As pessoas na sala, como se fosse a secretaria, o administrativo da escola, elas continuavam envolvidas em suas tarefas sem qualquer reação, sem qualquer movimento para interferir em tamanha violência. O professor novato indaga do que se trata e o agressor diz que está disciplinando o garoto e inventa umas mentiras, arrastando o menino.

A trama envolve corrupção, perversão, muita maldade, opressão e crianças que amargam o dissabor de uma existência em ruína. As coisas começam a tomar um novo rumo, quando o professor novato ao terminar seu expediente e está saindo da escola, observa uma criança sentada na janela ao ponto de quase cair. Ele volta correndo, tira a criança que reage se debatendo e se encolhendo, mas a menina puxa o professor pelo paletó e o leva ao topo de uma escada e aponta para uma porta. Lá, o professor vê uma mulher enfiando a cabeça de uma menina em uma máquina de lavar cheia e em movimento, uma menina que mostrava traços de já ter sido espancada. Havia tanto ódio, raiva no rosto daquela mulher que se dizia educadora e que estava a disciplinar sua aluna. A menina é levada para o hospital pelo professor, que entra em contato com uma mulher que ele conhecera no início do filme, que trabalhava com direitos humanos; e ali vai sendo desvendado toda a tortura sofrida pelas crianças.

Voltemos ao início do filme quando o pequeno menino caminha ao encontro da morte. Infelizmente tenho que contar à vocês que ele foi estuprado pelo agressor do seu irmão mais velho que também o havia estuprado. Aquele menino tão pequeno, miúdo não suportou ter passado pelo o quê passou, ele se entregou à morte já estando morto.

O professor novato tentou se silenciar também, pois sua mãe, que cuidava da neta, queria que o filho preservasse o emprego. Mais uma vez o professor viu o menino ser espancado e não conseguiu se manter indiferente e agrediu o agressor do menino. Sim, depois de idas e vindas, finalmente o professor... não mais vou chamá-lo de novato, pois os outros não podem ser chamados de professor. Bem, o professor e a funcionária pelos direitos humanos conseguiram a atenção de um canal de TV e a polícia que também recebia para fazer parceria com a escola e cobrir irregularidades, teve que prender três agressores e aí... eu não vou contar mais, espero ter despertado o interesse de vocês pelo filme. O quê eu insisto em que possamos debater é... sobre o nosso silêncio, sobre naturalizar o quê é errado. Por quê não nos indignamos mais com situações aviltantes?

O filme Em Silêncio trata, entre outras coisas da supremacia do poder do dinheiro, do quanto e como nos vendemos por esse e por aquele motivo, nos escondendo atrás de nossos argumentos, nossas posições. Apontamos o dedo para os erros alheios, falamos de uma justiça que não é linear, que mutila almas, existências, aceitamos, nos calamos. O quê há conosco? Nós e nossa hipocrisia diária. O filme se passa em Mujin, uma cidade no sul da Coréia onde tem muita névoa. Eu achei interessante essa coisa da névoa e o não visto, o difícil de ver, o que não queremos ver.

Crianças, adultos, pessoas são espancadas, violentadas todos os dias. Crianças são desrespeitadas em salas de aula, nas nossas famílias e um posicionamento pode começar a mudar o rumo de alguma história. As crianças da escola para surdos em Mujin viviam a desesperança, o desamparo, a dor de existir como objeto de tantas vilanias. Quando encontraram alguém que as olhou em sua linguagem silenciosa, em seus gritos por suas lágrimas abundantes, em seus corpos marcados pelos espancamentos, uma ponta de esperança surgiu, o ensaio de um sorriso e isso faz diferença, mesmo que nem todas as crianças tenham sido socorridas.

Que possamos continuar nos incomodando...

Até a próxima!

Um abraço,


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