DE QUEM É O SUTIÃ? [O insistente movimento de colocar sentido.]


Marcio Garrit - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Qual o sentido da existência? Qual seria o melhor jeito de se viver? Há algum roteiro a seguir? A filosofia se ocupa de tentar explicar a existência humana há muitos séculos. Muita coisa interessante foi escrita pelos helenistas, por exemplo. E muita coisa trágica pelos existencialistas. Mas é com Freud que a coisa fica mais objetiva, pelo menos para mim, ao afirmar que não temos instinto, somos pulsão. Sendo assim, somos formados pelo Outro e é no laço social com esses Outros que lançaremos mão de objetos para satisfação parcial da pulsão. Dito de outro modo, seria afirmar que por não termos um instinto que nos roteirize, precisaremos continuamente colocar sentido em nossas vidas. Importante pontuar que não sabemos o que e como, porém não podemos abrir mão disso, senão, a vida pára. O movimento da existência é se afastar ao máximo da falta de sentido, nem que para isso nos coloquemos em situações absurdas. É sobre isso esse filme.

De quem é o sutiã? é um filme de 2018, do Azerbaijão, dirigido por Veit Helmer. Tem como protagonista, Miki Manojlovic no papel de Nulan, um maquinista solitário que faz o mesmo percurso sempre. O curioso desse percurso é que seu trem passa pelo meio de uma cidadezinha chamada Baku. Antes do trem atravessar essa cidade, um menino vem com seu apito desesperadamente avisando a todos os moradores que o mesmo se aproxima. Nesse momento começa uma imensa correria. Todos retiram suas mesas e cadeiras do meio do caminho, as mães correm para pegar seus filhos brincando na linha do trem, e o mais curioso: as pessoas penduram seus varais de roupa no meio da passagem. Acredito que a essa altura, você deve estar imaginando o cenário cômico e trágico da cena. Pois bem, Nulan está para se aposentar, e é justamente na sua última corrida que uma moradora de Baku não consegue tirar o varal a tempo, o resultado disso é um sutiã, azul, que fica preso nas ferragens do trem. Nulan não terá mais função na vida, até porque, é nítido no filme que isso é a única coisa que dá sentido pra ele. A trama começa a se desenrolar a partir daí. Nulan sai em uma investigação engraçada, emocionante e muito rica de significados. Ele vai tentar descobrir de quem é o sutiã!

Antes de mais nada é importante registrar que o filme não tem diálogos. E o mais interessante é que não faz falta alguma. Chaplin já sabia disso. Uma imagem vale mais que mil palavras! As cenas transcorrem de maneira leve e engraçada. A fotografia do filme é belíssima e os atores dão um show! Em minha opinião, o ator mirim, Ismail Quluzade, esse que sai apitando para avisar a todos da chegada do trem, é o personagem mais marcante de toda trama, além de ter um papel crucial para o fechamento da história.

Nulan é aquele sujeito que se entrega a rotina da vida e quando percebe a vida passou. Um homem solteiro, sozinho e que viveu pra trabalhar e pagar contas. Um belo dia percebe que se aposentou e não sobrou nada além da vida. Isso que era pra ser tudo vira o nada, pois no afã de tentar sobreviver, esquece de tentar entender o que seria viver. Nada muito diferente do homem contemporâneo.

Ao perceber que ficará totalmente só, vai procurar uma esposa antes que se aposente. Só que Nulan, homem de idade avançada, se interessa por uma menina muito mais jovem e por isso sua empreitada é impedida pela mãe da menina. O que sobra após isso é a frustração. Sentimento esse que é deslocado imediatamente após sua última viagem de trem. Viagem essa que vai lhe presentear com um motivo para continuar sobrevivendo. O bendito sutiã azul preso nas ferragens do seu trem. Seria como se a máquina dissesse pra ele: “isso é uma extensão do propósito que te dei, continue sem mim, não tenho mais sentido pra te dar, e assim continuará, só que agora com outro objeto.”

Nulan não tem mais nada além da vida, que como já dito, ele não sabe o que é. Quando ficamos como Nulan, costumamos fazer igual a ele, qualquer coisa serve. Porém é um servir mentiroso, pois na verdade, servirá desde que eu não faça o luto da perda, desde que eu não precise me posicionar frente ao meu desejo, desde que eu continue fugindo, etc. E com isso costumamos seguir em jornadas que não vão nos levar a lugar nenhum. E assim ele segue em busca da dona do sutiã, como se daí surgisse a mãe idealizada para o derradeiro acalanto que só ela pode dar. Aquela que ficou lá atrás e que no fundo é o que todos buscamos de alguma maneira em momentos como esse.

O filme é muito cômico e às vezes trágico, muitas cenas me remeteram aos “absurdos inesquecíveis” dos filmes de Chaplin, inclusive o desfecho do mesmo. Após muitas tentativas, Nulan causa um grande incômodo na cidade, até que é taxado de pervertido e severamente castigado pelos cidadãos de Baku. Lembra do menino? Ele salva Nulan, e é justamente nesse momento que este percebe o que realmente faltava na sua vida. Os dois seguem para um novo ciclo, e Nulan, quem sabe agora, vai tentar definir o que é a vida! E você, sabe o que é a vida?

36 visualizações

Nos siga nas redes sociais!

  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone Instagram

Para falar conosco, envie um e-mail: