DIFICULDADE NA APRENDIZAGEM: O SUJEITO ILHADO EM SI



Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


O sujeito ilhado em si; é assim que muitas crianças se sentem no território escolar, onde se supõe, está o saber, lugar de aprender, espaço de aprendizagem. Também podemos pensar em alguém que não tem um guarda-chuva, uma capa em dia de tempestade, mas que não consegue pegar uma carona na cobertura de ninguém, é como se sentir molhado, encharcado, mesmo quando a chuva já passou; muitas vezes é assim, como alguém que só consegue se sentir só. Talvez pareça um tanto dramática essa minha maneira de abordar o assunto, mas falar sobre Dificuldade na aprendizagem é também falar sobre a angústia, sobre o sentimento de exclusão que um sujeito pode sentir.

Quantas vezes recebi inúmeros náufragos do não saber, tentando expressar que não encontravam remos que coubessem em suas pequeninas mãos para que pudessem remar como os outros marujos de sua turma. Remar em águas aparentemente pacíficas, que para os náufragos já mencionados, parecia o fim do mundo. Crianças que se sentindo não adaptadas, sem lugar, inclusive dentro de si, sendo rotuladas, enquadradas como aquele que não aprende, se mostrando irritadas, agressivas; talvez eu deva dizer reativas, tristes porque não conseguem fixar o quê acabou de ser explicado.

“Eu não sei Claudinha, eu não consigo lembrar.”

“Eu não entendo nada do que a tia fala na escola.”

“Eu tenho vergonha de perguntar quando não entendo.”

“As outras crianças riem de mim, me chamam de burro.”

“A minha mãe fica com raiva porque eu não quero fazer o dever de casa, mas eu não sei fazer.”

“Eu odeio a escola e a tia também não gosta de mim, ela grita porque eu não consigo aprender.”

Recebendo crianças e adultos que não aprendem no mesmo tempo que a maioria das outras pessoas, constantemente me perguntei e me pergunto: Afinal sobre o quê estamos falando? Cada sujeito, uma história, uma maneira de estar na vida. Poderia convidar você que me lê, a pensar sobre o caos que vive o universo da educação e já faz tempo. Talvez pudéssemos refletir sobre métodos, didática, pedagogia, a relação professor-aluno e tantos outros aspectos que cercam a questão da aprendizagem, mas hoje convido você a pensar e repensar a questão do olhar. Sim, a maneira que olhamos a vida, nossa maneira de estar no mundo, o olhar que dirigimos ao outro.

Convido a todos e inclusive a mim a um processo de alfabetização, do olhar da escuta, da presença. A regra básica desse processo é estar disponível para si mesmo e quem sabe possamos estar para o outro. Trabalharemos um olhar para encontrar o olhar de quem está perdido, prestes a desistir porque não acredita em si mesmo, porque tem medo do olhar julgador do outro. Exercitaremos a nossa escuta para ouvir o quê é dito no silêncio daquele que não consegue responder, porquê ele sequer entendeu o quê foi explicado ou ele entende que não pode, não deve saber. Quanto à nossa presença... a proposta é a de uma presença que falará com suavidade e firmeza, convidará à liberdade, ao limite, ao riso frouxo e à disciplina, à criatividade. Uma presença de quem se importa e isso não exclui técnica, mas convoca a alma. Sim, essas almas que têm história, que passaram pela infância, que estão na infância. Esses encontros, mesclados com desencontros que tecerão uma nova história, novas tramas.

Quando pensamos em dificuldade na aprendizagem, pensamos em impossibilidades e eu não as nego, mas isso tende a nos paralisar. O saber, não está localizado no território escolar, está em cada um de nós, daí a possibilidade de troca. Está nas famílias, nos pais que se irritam porque os filhos não aprendem, nos professores que lidam constantemente com a frustração, está em todas as profissões, esta aí no mundo, na vida.

Muitos adultos trazem suas marcas acontecidas na infância, situações traumatizantes relacionadas à dificuldade na aprendizagem e se colocam no mundo, na vida de uma maneira que repetem e repetem suas mazelas afetivas operando na subtração: NÃO POSSO, NÃO CONSIGO, NÃO SOU. Muitas caminham com a sua negativa para si mesmo num percurso de auto sabotagem, autoflagelação, respirando mendicância de afeto, implorando por colo, à deriva, ainda náufrago e isso aparece na clínica com freqüência, isso precisa ser olhado.

A dificuldade de aprendizagem não se resolve na clínica unicamente, mas com o dialogo entre todo e qualquer um que esteja implicado com essa questão. É um primeiro passo para refletirmos sobre novas maneiras de alfabetizar nossa disponibilidade, com respeito à subjetividade de cada um.

Todos convidados.

Até a próxima!

Um abraço,

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