F IS FOR FAMILY – [Existe pai sem pai?]

Atualizado: Jul 20


Marcio Garrit - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com



Como ser pai se nunca se teve pai? Como ser diferente do que se é ensinado na fase mais importante da vida que é a infância? Essa série discorre sobre isso. Sim, é a primeira vez que falo sobre série aqui no blog, e sinceramente, espero não ser a última. Temos séries que são um verdadeiro tesouro para nossa alma. F is for family nos fala sobre família desestruturada e comum, onde um pai que nunca quis ser pai, porque não teve um pai decente, acaba repetindo tudo que este fez. Nada de novo, porém, precisa ser dito.

F is for Family é uma série americana de animação adulta, criada por Bill Burr e Michael Price para a Netflix. Lançada em 2015 e já se encontra na 4 temporada. A mesma é ambientada na década de 70 do século XX e conta a história de uma família cheia de desencontros, composta de três filhos, esposa e um cachorro. O protagonista disso tudo é Frank Murphy, que inúmeras vezes solta a seguinte frase: “Porque eu não morri dormindo?” Tal afirmativa do desespero dá o tom do que seria a sua vida em família.

Como falar de Frank? Antes de mais nada acho interessante pontuar algumas coisas sobre esse modelo de família margarina que nosso patriarcado vem ordenando há séculos como o correto. Casal hétero, um casal de filhos e um cachorro em uma casa de cerca e a missa, ou o culto se preferir, aos domingos. Crescemos na obrigação de repetir esse modelo como se tudo fosse findar em um conto de fadas. Fazendo um pequeno parênteses, Todd Solondz, que prometo trazer aqui pro blog o quanto antes, é um dos cineastas mais brilhantes que assisti que conseguiu mostrar a realidade dessa fábula familiar em seus ótimos filmes. Frank é, na verdade, um personagem constante de Solondz. Um pai que não sabe ser pai, casado com uma mulher que se descobre que não dá conta de ser mãe e esposa, com filhos que absorvem a cada dia mais e mais as neuroses dos dois. Agora sim, chegamos na vida real, certo?

Ao longo das temporadas, a série vai mostrando a dificuldade que Frank tem em lidar com a vida em família, a missão de ser marido, a frustração de ter largado seus sonhos de carreira por causa da gravidez da esposa, que é bom marcar que não pára de engravidar, e o pior de tudo: Ele não consegue ser PAI! Confesso a vocês que chega a incomodar a forma como ele trata os filhos e a falta mínima de sensibilidade a respeito dessa importante função. Afinal, o neurótico sofre de reminiscências do pai, já diria Freud. Porém, tudo isso cai por terra quando chegamos à última temporada. Assim como em Blade Runner, o encontro da criatura e criador é catastrófico. É a partir daí que entendemos que Frank não passa de uma criança reclamona de uma falta que não poderia faltar. O amor do pai. E justamente por que falta é que Frank, para conseguir dar conta da vida, se assemelha ao pouco que lhe foi oferecido e se identifica com esse projeto mal acabado de paternidade. E óbvio, repete tudo com seus filhos. A partir daí vem o entendimento dos atos insensíveis como uma resposta paradoxal do que é o amor pra Frank,onde amar é ser renegado.

Falando um pouco de psicanálise, os primeiros objetos de relevante identificação do sujeito, a partir de seu nascimento, são os pais. A criança é extremamente dependente do desejo desses dois seres humanos e sente isso, sim, a criança sente que depende. Além disso, ela não tem uma base simbólica que a ampare frente as subjetivações dos adultos. O resultado disso é angústia e sensações constantes de desamparo com esses movimentos bruscos que nossos criadores nos submetem. Um simples “mamãe já vai embora!” pode significar, no psiquismo dessa criança, “eu nunca mais vou vê-la.” Junte isso a todas as negligencias, abusos, tapas, gritos e outros que somos submetidos até tudo fazer sentido. Alguns podem conseguir fazer um bom luto disso e sublimar, porém, assim como Frank, muitos, mas muitos mesmo, não!

Na última temporada o pai de Frank aparece. Toda história é desvendada e fica claro que para conseguir sobreviver, o menino Frank virou um clone do pai. Não é fácil para ele entender isso e não é fácil para nenhum dos que se propõem ao exercício de uma análise. Essa é a mais pura verdade, porém ocultada, das famílias margarina.

Descobrir que você pode ser protagonista da sua vida, pode significar deixar ir aquele que de alguma forma nunca chegou, e com isso, obturar essa falta de amor a partir de uma outra resposta que não aquelas que a criança recebeu, de forma tão errada e sofrida, no momento que mais precisava.

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