FAMÍLIA E A DIFÍCIL ARTE DE DIZER ADEUS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Depois de uma longa pausa sem marcar presença aqui no nosso blog, estou de volta, estamos de volta com essa troca interessante de um que escreve e o outro que lê. Pausa... pausas palavra que me faz visualizar pétalas ao vento, folhas secas mostrando um balé tão clássico como moderno, o movimento da vida. Pausa também é vida.

E por falar em vida, por falar em adeus, não tem como não me lembrar de uma amiga de trabalho, quando eu atuava como auxiliar de biblioteca, aliás uma experiência bem interessante. Bem, o nome da figura é Inêz, para todos Inezinha. E por quê lembrar da Inezinha? Ela gostava de cantar e dentre as músicas que ela cantarolava enquanto arrumávamos os livros nas estantes da biblioteca, havia uma bonita canção do Francisco Alves. Hoje eu sei disso, na época eu só achava engraçado como a Inezinha se entregava com toda propriedade para cantar. Bem, aí segue a letra da música, da qual estamos falando:

ADEUS, CINCO LETRAS QUE CHORAM


Adeus, adeus, adeus

Adeus,

Adeus, adeus, adeus

Cinco letras que choram

Num soluço de dor.

Adeus, adeus, adeus

É como o fim de uma estrada

Cortando a encruzilhada

Ponto final de um romance de amor

Quem parte tem os olhos rasos d’água

Ao sentir a grande mágoa

Poe se despedir de alguém

Quem fica, também fica chorando

Com o coração penando

Querendo partir também

Adeus, adeus, adeus

Adeus, adeus, adeus

Pois aí está, a imagem da querida Inezinha, toda pequenina, porém grandiosa em sua generosidade, transtornada ao saber que alguém sentia fome, cheia de manias nas suas particularidades. Uma senhora com jeito de menina, principalmente quando absorvida em suas fantasias românticas.. Eu não me despedi da Inezinha; já faz tempo que ela canta e certamente encanta em outros cenários, quem sabe nesse tão falado céu. E assim é, parece ser, as pessoas partem e ficam em nós. Tantas lembranças sobre e com a Inezinha estão em mim. Ela parou de atender o telefone, sumiu e então eu soube por uma amiga em comum, que viu no facebook sobre o falecimento da Inezinha. Foi bem estranho de verdade. Não consegui segurar o tempo, ninguém consegue, não dá.

Mas como se aprende a dizer adeus? O que quer dizer adeus? Que representação é essa? Estou me lembrando da tragédia do Morro do Bumba, que aconteceu em 2010, um desabamento provocando muitas mortes. Uma repórter entrevistou uma menina de uns sete anos, se não me engano; ela perdeu os pais e os irmãos e para responder à repórter que perguntou o que ela faria a menina disse: “Agora é isso, eu vou seguir a minha vida, fazer minhas coisas, é isso.” Ou algo bem parecido com isso. Talvez essa criança tenha entendido o sentido do ocorrido, bem mais tarde, mas será que dizer adeus, é seguir? Seguir na vida, com a vida, com as lembranças?

Para cada um o sentido, a representação de família, como cada história se constitui. Todo tipo de família, toda sorte de história e o real da vida, a morte. Sim, a morte tão soberana, tão vaidosa e poderosa, nesse lugar, pois de maneira geral, é aí que a conseguimos colocar. Com a pandemia, o cenário de tragédia, numa arena em que mortes múltiplas aconteceram, sem deixar a possibilidade para se respirar, fossem os atores ou a platéia. As pessoas apareciam na TV, falando sobre suas perdas múltiplas com um olhar de desamparo sem igual. Dizer adeus de maneira seguida, parece colocar aquele que perde como contorcionista tentando lidar com a dor.

Fora da pandemia, sem ser exclusivamente pela questão do vírus, as mortes em sequência também acontecem e voltamos à sensação de desamparo marcada no olhar, em todo o corpo daquele que sofre as perdas. E quem quer perder? Mesmo sabendo que muitas vezes que o desenlace, a morte veio como um livramento, devido ao tamanho sofrimento vivido, aceitar a partida de quem se ama não é fácil. Velar várias partidas, é uma árdua tarefa, um luto que precisa ser vivido com todas as particularidades que o processo traz. Em família, quando as pontas sobram, existem, quando o silêncio foi instalado ao longo do tempo e o quê precisava ser dito não foi, para muitos a angústia, a culpa a se instalar. Tempo para viver, para dizer, para estar. A presença de quem parte e fica em nós através de lembranças, por trás das nevos, os sentimentos contraditórios, aceitação, não conformação. A ausência na presença de quem fica, a canção dos sorrisos, gargalhadas, aquele cantinho aonde a pessoa sempre sentava... rastros de quem se foi...

A dor que rasga a alma e põe na ponta da língua, escorrendo pelos lábios, a pergunta que fica ressoando no coração de quem fica: “Por quê?” Porquê se há vida, há morte, porque quem nasce, morre. Por que temos que presenciar mortes múltiplas em um curto espaço de tempo? Quem sabe? Quem pode responder? Quem sabe como viver luto múltiplo? Provavelmente ninguém. Talvez esse seja apenas mais um caminho que se faz ao caminhar.

Que os corações sofridos sejam abrandados, que as lágrimas tenham seu lugar em olhos que parecem que jamais voltarão a sorrir. O tempo precisa acontecer, não há regras, não há receitas. O mergulho no mar de luto é particular, a volta à superfície é singular. O abraço que não será mais dado, as mãos que não mais se enlaçarão, a escolha do cardápio do almoço em que todos viriam, não mais... não mais do mesmo jeito.

Quando uma família sofre perdas múltiplas, o impacto sofrido, abala até mesmo os olhares que tanto podem se acolherem, quanto se desencontrarem. Os problemas que ficam, precisam ser resolvidos; a burocracia precisa ser cumprida, porque afinal, morrer custa caro. Cumprir os ritos finais, o simbólico da partida, custa caro. Alguém tem que secar as lágrimas ou em meio a elas, acertar os detalhes.

Inezinha viveu uma vida de expectativas e verdades absolutas, princípios que a impediram de ver realizações que ficaram a acenar na esquina, mas ela não pôde por seus motivos, ir até elas. Assim parece ser a vida, nossas assinaturas nos levando aqui, lá ou apenas nos paralisando. Quem fica... acaba ficando com o vazio da ausência de quem foi e no caso das perdas em sequência e em curto espaço de tempo, com o vazio intenso da ausência dos que foram. Todos iremos... então é preciso seguir como disse a menina enlutada do Morro do Bumba. É preciso viver a dor para seguir e quem sabe, recriar a si mesmo, com um tanto da seiva do outro, a seiva que nos faz sorrir ao lembrarmos.

Nossa! Esse parece um assunto sem fim. A difícil arte de dizer adeus a quem se ama, é assim... difícil.

Eu pensei agora mesmo, quando o sono começa a querer me alcançar... pensei em uma ciranda, pensei nos sorrisos, nas mãos que seguram umas as outras e o canto do silêncio, que fala sobre a vida entrelaçada à morte, pois assim parece ser. Uma ciranda que fala de possibilidades, de início e fim, que fala de adeus e olá. A vida a falar da morte e a morte a falar da vida, e cada um de nós vivendo o luto à sua maneira, ressignificando a si mesmo diante das despedidas.

Tentemos seguir...

Até a próxima!

Um abraço,



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