FAMÍLIA... FINITUDE... FAMÍLIA... FINITUDE...


Cláudia Moraes - Psicanalista

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Olhar e não ver, olhar e não querer ver, ver e não querer saber, não querer acreditar, não conseguir aceitar. Finitude, palavra sonora, musical, pesada intensa nas possíveis interpretações. Essa é a imagem: alguém olhando para o espelho e diante do espelho, o olhar, o mergulho no olhar de quem viveu a vida. Vida aos pedaços, em quebra-cabeça, vida na inteireza das reticências e a finitude a acenar. Finitude, dama matreira, zombeteira, se sabendo indispensável, certa. Esse tipo de dama que rodopia em territórios distintos, ambientes diversos, perfumes, odores fétidos, beleza, graça, alegria, tristeza, desesperança e o atropelo, o esbarrar no humano em nós. Nesse humano que olha para o espelho e captura a proximidade da finitude.

Eu gosto de falar isso: “O tempo acontecendo.” Por quê? Não sei bem, acho bonito, parece que ao falar isso, assim como quem espia e sente o sabor perene e sutil disso que mal sabemos falar, sinto o perfume inebriante do tempo, do tempo acontecendo. O encontro com a finitude vai acontecendo todos os dias, ao longo da vida, do existir, mas não pensamos sobre isso, nossa cultura não nos ensina a pensar sobre o fim. Caramba! Mas afinal, o que será o fim? Entendemos algo sobre o começo? Como nos aproximarmos de tal acontecimento? O fim. Não sei, não sei. Vamos adiante.

A finitude e a representação do fim. A finitude presente na família, sentada ao nosso lado no sofá, à mesa do jantar, na varanda, nos cantos das casas que trazem narrativas de vida, de famílias de todos os tamanhos. Os cantinhos dos encontros e desencontros, abraços, brigas, rompimentos, reconciliação. As famílias tendo que lidar com as despedidas. Quem de vocês que está a me ler, que estão passando por essa questão nesse momento ou que já viveram? Quem já foi pego de surpresa? Quem viveu isso a contar gotas? Quem sofreu com a partida de alguém querido? Quem festejou? Pensar sobre o assunto não é nada simples, viver o assunto, muito menos. De alguma maneira, filhos sabem que em algum momento, a inversão de papéis acontecerá e eles estarão na posição de cuidar dos seus pais. Bem, dependendo de como as relações são estabelecidas, as complexidades dos descaminhos na vida acontecerão em maior ou menor grau de intensidade de atravessamentos.

A finitude se apresenta em qualquer idade, mas a passagem do tempo, o tal tempo acontecendo pode marcar a finitude de maneira cruel, com a presença de mazelas físicas e psíquicas, o que pode ser bem doloroso para que observa a despedida de alguém que participou do início e transcorrer da sua vida. Pensem em um bebê buscando auxílio nas suas inabilidades; apesar da sua potência a florescer, florescendo, ele depende do outro e muito. Agora pensem no adulto que envelhece, nesse pai, nessa mãe tombados pela dor, pelo sofrimento físico, pelas doenças que limitam, que castigam o corpo outrora tão viril, forte e agora se permitindo serem carregados. Corpos carregados por seus filhos, netos, familiares que podem, não podem, desejam, não desejam viver o aprisionamento do cuidar, a alegria de estar por perto, o desejo de nada ver. Corpos que guardam almas que têm suas narrativas nem sempre reveladas. O olhar cansado e triste que encontram os de seus cuidadores, que buscam acolhimento, compreensão e transmitem uma certa vergonha de estarem em tal situação de tamanha necessidade de ajuda. Os pais morrem sim, esse dia chega de verdade, mas a finitude é esfregada na cara das pessoas, dos filhos diariamente quando a velhice vem afiada, marcada pela decrepitude, pelo adoecimento, pelas limitações presentes. De repente, um filho se percebe ninando seu pai, sua mãe, os ajudando a se vestirem, na alimentação. O humano presente no dia a dia.

Estou a falar das fragilidades de quem está a se despedir, mas não podemos esquecer dos sujeitos que mesmo com um fio de possibilidades, são teimosos, dominadores, manipuladores. Como eu costumo dizer, o velho não tem passado, mas não podemos ignorar aqueles pais velhos que mantém suas características de sempre que podem chegar a subjugar seus cuidadores e por quê esses cuidadores filhos, familiares permanecem nesse lugar? Que cada um pense a respeito.

Quando esse momento chega, quando pais velhos e adoecidos se aninham nos braços dos seus filhos, revoluções anímicas podem acontecer. Olhar para esses pais que mínguam, que vão desaparecendo pode ser tortuoso, principalmente se ficaram muitas pendências, mágoas, os tais silêncios que habitam famílias e famílias. Que lugar esses pais velhos que sofrem, que choram como criança e se contorcem por não suportarem a dor, ocupam na ciranda dos filhos que se debatem sem conseguir comunicar o quê realmente sentem? No momento, eu não lembro se já mencionei esse filme, mas não faz mal repetir se for o caso. Vamos lá: ”Meu pai, uma lição de vida.” Lembrei de sugerir esse filme porque me lembrei de uma cena em que o filho carrega o pai nos braços hospital afora porquê o médico cometeu um erro e o pai entrou em estado de choque. Nesse momento o filho carrega o pai no colo, o pai encolhido feito um bebê amedrontado. Assim como estou lembrando de uma matéria no jornal na TV em que o filho entra com a mãe nos braços em um hospital em busca de ajuda, um socorro que não vem e a mulher morre na recepção. A mãe morre nos braços do filho na recepção do hospital.

Quando se é criança, os pais podem parecer gigantes no tamanho, na potência, com super poderes tanto para o bem, como para o mal. É interessante perceber como esses encontros familiares podem acontecer. Muitas vezes são verdadeiras catástrofes em que aos filhos resta o desejo da morte desses pais, por outro lado, as pessoas não entendem bem porque filhos que foram marcados pela inconsequência dos seus pais, sofrem por esses pais que a finitude leva. Muitas vezes choram pelos pais que continuam existindo em seu imaginário, em seu desejo de poder chorar, sofrer por alguém que se desejou intensamente ter, alguém que se importasse com eles.

Ao longo das estradas da vida, inicialmente precisamos de quem segure nossa mão, que nos ajude a entender os momentos de pausa, de colo possível, incentivo, um olhar que sustente o nosso fazer existir, o nosso fazer EU. Com o tempo acontecendo, vamos aprendendo a levantar após inúmeras quedas; mais um pouco e voltamos a precisar de um outro por perto, apoio, colo um olhar que sustente nossa despedida. A finitude a bailar e a sorrir brejeira se aproximando e envolvendo em bailado que nos tira do chão e nos leva com o vento por aí, mas de alguma maneira podemos estar na essência do outro. Nossa essência, nossa assinatura na existência do outro.

Somos poesia, que sejamos declamados nas narrativas das pessoas com quem esbarramos na vida. Que nossos versos estejam nos silêncios necessários das turbulências do existir.

Somos finitos sim!

Um brinde aos possíveis começos antes dos suspiros do fim!

Olhar no espelho e poder ver, mesmo que entre risos e lágrimas, poder entender o quê se vê.

Para quem está a se despedir, rosas brancas, vermelhas, amarelas, azuis, as cores do arco-íris. Para quem fica... as lembranças, lembranças de vida.


Até a próxima!

Um abraço,

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