JOJO RABBIT – [A queda do Outro]



Marcio Garrit - Psicanalista

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Porque a liberdade é um paradoxo pra nós? Nos iludimos a achar que somos livres, pois o que fazemos no final é escolher uma jaula, ideológica ou não, fantasística ou não, para habitar. Após habitarmos essa tal “jaula” reclamamos da prisão. A questão é que a história vem mostrando que o número de pessoas que reclamam só vem diminuindo!

Jojo Rabbit é um filme americano, de 2019, indicado ao Oscar na categoria de melhor filme, do diretor neozelandês Taika David Waititi. Esse é um dos filmes que se você, ao assistir, não sentir nada, preocupe-se: há algo de errado com você. O filme aborda uma enormidade de questões, tomando como base o cenário da segunda guerra e a vivência de Jojo, uma criança, em relação aos costumes nazistas. Não podemos deixar de frisar que a trilha sonora é no mínimo instigante.

Sabemos que essa temática não é nova. Vários diretores já passearam no inferno de Hitler e muitos conseguiram criar verdadeiras obras primas. Mas o que tem de diferente, então, em Jojo Rabbit? Eu diria que a queda do grande Outro de Jojo e a demonstração, a partir de um fato real, da teoria de Freud sobre o narcisismo das pequenas diferenças. É sobre isso que devo falar.

Freud, desde 1918, vem demonstrando através de sua obra, a preocupação em escrever sobre as pequenas diferenças. É somente em 1930 que ele dedica um maior volume de texto sobre o assunto, no seu memorável trabalho “O mal-estar da civilização”. O pai da psicanálise aponta sua grande preocupação ao perceber e afirmar que são nas pequenas diferenças que nascem os piores ódios. Vamos pensar sobre isso!

Sinceramente, essa afirmação já é o suficiente para encerrar o texto, porém vou continuar mesmo assim. O que diferencia um sujeito de outro a ponto de não conseguirmos lidar com isso? O cenário no qual o filme se ambienta é uma demonstração clara de que não precisa ser muito diferente para que uma grande distância se instaure entre os sujeitos. E é a partir disso que estruturamos todo o nosso jeito de viver. Para que isso piore, é só termos lançado na cultura um estímulo para que isso se propague. Não é mera coincidência o aumento que sofremos no mundo de violências que retratam essa diferença como o racismo, misoginia, homofobia, intolerância religiosa e etc. Tudo é motivo para que o ódio se instaure, é só pensar contra ao que está evidenciado no momento. Esse ódio “guardado” dentro de nós só precisa de um grande Outro, um líder referendando, autorizando, apoiando e pronto! Uma grande massa se apóia nesse novo ideal e a partir daí, é só aguardar, as péssimas consequências futuras.

Jojo, talvez pela falta de um pai, vê em Hitler esse substituo, a ponto de tê-lo não só como o objeto de completude de sua falta como também seu amigo imaginário. Seguir as ordens desse grande pai era algo recebido como uma missão inquestionável, mesmo que tudo que viesse dele fosse absurdo e ridículo. E já que é assim, porque aceitamos? Porque no fundo, odiamos a liberdade. Ela dá medo, dá trabalho, exige coragem e é anti ídolos e anti ideológica. Quem se habilita? Ou vivemos em torno do mito da ignorância ou gastamos todo nosso tempo em nos preparar para aceitar que é somente NA DIFERENÇA que pode se estruturar algum caminho.

Quando Jojo toma conhecimento de que seu grande Outro, Hitler, se suicidou, algo “cai”, e isso que cai é justamente aquilo que nunca deveria ter existido: a nossa fraqueza e ignorância em acreditar que alguém ou algo pode resolver o mundo por nós.

Jojo se livra dessas amarras e termina o filme dançando, assim como Nietzsche ele também não acredita em um Deus que não dance.


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