JOVEM E BELA - [O sexual traumático]



Marcio Garrit - Psicanalista

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Freud estava muito certo quando afirmava que há trauma no sexual. Que não há instinto, ou como diria Lacan, a relação sexual não existe! Esse encontro do corpo com a fantasia é permeado de tantos mistérios, de tanta pulsão que o significante não se faz suficiente. O que vemos é o ato! A vontade! O corpo que goza, e por pouco gozar, só resta um mais-gozar. Mesmo que pra isso, o mesmo corpo que trás a possibilidade de prazer, seja posto imediatamente em risco. E por quê?

Jovem e Bela é um filme francês de 2013, do diretor François Ozon. Uma película belíssima! Conflituosa e instigante como todo e qualquer objeto de desejo. Ozon revisita o magistral filme de Bunuel, A bela da tarde, onde Catherine Deneuve (como Séverine) desfila o máximo da ambiguidade freudiana. Marine Vatche, é importante pontuar, não deixa nada a desejar com sua Isabelle.

O filme mostra a vida de Isabelle, uma jovem de 17 anos que em um momento de férias decide perder a virgindade. O seu encontro com o sexual é frio, doloroso e burocrático. Não há vontade, desejo ou cuidado. Só há o movimento, quase que obrigatório que ela se impõe. Ao voltar pra casa, vê o homem que com quem transou passeando de bicicleta, Isabelle acompanha a paisagem, não olha pra trás, como se aquele homem não tivesse representação alguma na sua vida, como se o seu desejo fosse para além do encontro. O que Isabelle persegue não são os homens, eles são apenas um tipo de ponte para um encontro com algo que se perdeu.

Isabelle transa com homens mais velhos, se prostitui apenas pelo ato de se prostituir. Não usa o dinheiro, não tem planos de fugir ou demonstra algum traço ninfomaníaco. Ela apenas repete. Como se essa dinâmica falasse ao espectador: “O que busco com esses homens não é o sexo e sim algo do sexual, da fantasia.” Óbvio que Isabelle é descoberta, da pior forma possível, um de seus clientes habitué morre durante o ato sexual. Isabelle é menor de idade, sua mãe não entende os motivos da filha, talvez nem Isabelle, uma nova dinâmica se instaura na família e uma pergunta se fixa: Quem é Isabelle?

Duas coisas nesse filme marcam a potência dos desencontros da sexualidade humana. A primeira é quando Isabelle, ao ficar sozinha com os homens da família começa a provocar uma insegurança nas suas respectivas esposas, como se Isabelle fosse seduzir todos eles. A outra é quando vai ao psicólogo e pergunta diretamente a ele quanto é? Após sua resposta, Isabelle responde: “Só isso?”. Seu psicólogo afirma ser seu preço, e ela de forma aterradora deixa bem marcada a sua transferência já muito aparente que pagará com o SEU dinheiro. Só uma coisa permeia Isabelle, a insegurança dos que convivem com ela. Mas como bem dito por ela mesma: “A perigosa não sou EU!”

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