MÃES CARCEREIRAS, PORTAS ESCANCARADAS...


Claudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Cá estou eu a pensar sobre o assunto escolhido, falar sobre mães carcereiras e seus filhos encarcerados. Eu escolhi escrever sobre esse assunto tão presente na clínica, na vida, justamente pelo trabalho que faço, pelos encontros e desencontros com pessoas que falam do seu período de encarceramento que algumas vezes, duram uma vida inteira.

Sim, eu vi o filme Fuja, vi sim; um filme bem comentado. Quem sabe falamos sobre esse filme em uma live, ou aqui em nosso momento de reflexão no nosso blog. Hoje eu espero conseguir falar sobre um encarceramento de outra ordem, um aprisionamento que traz como ingrediente principal, nossa subjetividade.

Há algum tempo atrás, não muito, em um tempo em que podíamos circular pela cidade e nos embriagarmos com ótimos espetáculos, parece que foi há muito tempo rsrs, bem, em minhas andanças, cheguei a uma peça de teatro, que realmente foi um espetáculo. Não fui por indicação, apenas caminhei e cheguei até o CCBB e achei que parecia interessante. É verdade, eu não me lembro o nome da peça, mas eu me lembro de vários outros detalhes, como a iluminação, o figurino o som, a tensão que pairava no ar. Pensei tantas coisas, mas não tinha com quem comentar, então comentei comigo mesma. Até hoje eu lembro de uma frase, uma interrogação de uma personagem para a outra. Um pergunta que abriu e encerrou o espetáculo. Três irmãs falando sobre a vida, sobre o desenrolar da vida de cada uma, das tramas que constituíam sua família. Três irmãs, três mulheres adultas falando sobre a vida, sobre o sentindo de existir, de estar aí. A pergunta? A irmã mais nova perguntou para a irmã do meio, acho eu: “Como se faz para abrir as portas do mundo?”

Então pessoal, como se faz para abrir as portas do mundo? Sobre o quê estamos falando? Qual o movimento, a direção? Será que há portas a serem abertas? No filme Fuja, a protagonista acreditava em sua condição de limitada e estava sendo drogada, adoecida para acreditar que não podia ser. Quando percebeu que o seu lugar, sua condição não era aquela em que havia acreditado por anos, mesmo com a limitação de não conseguir andar, fez o quê pôde para fugir do seu cativeiro. Nesse momento eu penso nas pessoas que não conseguiram, que não estão conseguindo fugir de seus cativeiros psíquicos, pessoas que eu conheci, pessoas com quem trabalhei e trabalho na clínica. Quando você encontra pessoas vivendo sob a influência, sob o comando de uma mãe que dita a vida do seu filho, que acredita ter o direito de determinar o quanto esse filho, essa filha irá caminhar, sabemos que há um problema. Quando estreitamos o olhar, apuramos nossa escuta e percebemos que esse filho(a) faz parceria com essa mãe, então nos damos conta de que temos um problemão.

Nós e nossas armadilhas queridas que nos fazem nos entulharmos de sintomas, disfarçados numa narrativa amparada pela racionalidade, uma racionalidade que nos esconde de nós mesmos. Temos as mais belas explicações para a maneira sofrida como nos permitimos ficar. O sofrimento apresentado é legítimo, não duvidem disso, entretanto, precisamos entender esse processo em que as não tentativas, fragilidade, submissão, pode ser um enorme esforço para permanecer onde se está. Inúmeras vezes, trata-se de busca por amor, atenção, olhar materno. Sim, colo materno, um colo que fez falta e que ainda é buscado.

A mãe carcereira, sim ela existe; ela tende a fazer do seu filho(a), depósito de suas frustrações. Ela ameaça, ela se coloca em lugar de benevolência e generosidade, sabe magoar, dá ordens como se o filho(a) tivesse três anos de idade, não importa se ele tem 20, 40, 60 anos. O olhar é severo, tem o dom de despotencializar, não reconhecendo os feitos do outro. Forte, determinada, fria, pronta para marcar a ingratidão do outro, o outro filho. É interessante observar que o cuidado materno, o acolhimento vem quando o outro filho está adoecido, mais fragilizado do que nunca, acuado, culpado. Então, a mãe carcereira se mostra suave, tranquila, necessária. Os filhos das mães carcereiras tendem a se queixarem de se sentirem presos, sem vida, confusos sobre como lidar com a face tenebrosa de uma mãe dominadora, que pode surgir como uma fada luminosa. Ela figura como tudo! Bruxa ou fada, ela é tudo!

Quando os filhos encarcerados percebem que as portas das masmorras nunca estiveram trancadas, que nem portas, de fato existiam, é uma tremenda dor. Questionam-se sobre o quê estiveram fazendo da sua vida, decidem que não permitiram mais isso e aquilo, mas continuam no mesmo lugar, encarando o seu algoz como soberano supremos da sua existência. Com o tempo acontecendo, com o fluxo do trabalho analítico, quando conseguem entender que o carcereiro são eles mesmos, a reação tende a ser de sofrimento maior. O quê fazer com tão preciosa e aniquiladora informação. Estou me lembrando de um caso da morte de uma mãe carcereira de uma mulher com mais de cinquenta anos e ela lamentava a morte da sua mãe com muita tristeza. Ela sofria com os desmandos da mãe enquanto viva, mas com a morte da mãe, o lamento era mais intenso. Ela declarava que pelo menos a sua mãe estava lá para ela. Era aquilo que ela buscava desde pequena, que sua mãe carcereira a mantivesse presa na sua estranheza de amar. Ela dizia que era o jeito da sua mãe amar e outras vezes, dizia entre lágrimas que não tinha como agradar a mãe, que nunca seria a filha desejada pela mãe e ela não sabia o quê fazer. Com a morte da mãe, a possibilidade de andar, fazer o seu caminhar, mas ela só queria a sua mãe ali. Precisava aprender a se amparar.

Quem pode ensinar a abrir as portas do mundo? Que portas serão essas? Estarão realmente fechadas essas portas? Quem pode libertar quem necessita estar encarcerado, subjugado em busca de amor, em busca de amor materno? Abrir a porta, ter condições para tal, ter desejo de sair de si, para estar em si, coragem para abandonar gozos sufocantes, respirar, pensar em possibilidades, tudo atrelado a algo chamado processo.

Filhos de mães carcereiras muitas vezes patinam desesperados diante de portas escancaradas. São prisioneiros de seu psiquismo que mesmo quando tratado, resistem. Sim, muitos conseguem seguir, muitos aprendem a caminhar; há possibilidades.

Abrir as portas do mundo... Do que se trata?

O quê vocês acham?

Até a próxima!

Um abraço,


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