MAKALA – [Existir suporta tudo?]



Marcio Garrit - Psicanalista

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Que preço pagamos por existir? Bancar o desamparo e a angústia que vem dela, da existência, seria uma boa resposta? Makala é um filme que corrobora com Freud, ao deixar claro em cada cena, há um mal-estar inerente à civilização.

Documentário Francês, de 2017, dirigido por Emmanuel Gras, e é importante marcar, magistralmente, se passa em um lugarejo afastado de tudo no Congo. Esse cenário isolado é o pano de fundo de uma jornada no mínimo angustiante. Makala retrata a vida de um jovem pai de família que vive o desamparo de forma radical. Não tem amparo de nada e nem de ninguém. Apenas é munido de uma fantasia que possibilita que toque a vida em frente. Almejando dar uma vida melhor a sua família, percebe que precisa fazer alguma reforma em sua casa e para isso precisaria ir à cidade, comprar algumas telhas. Nessa hora emerge uma pergunta: com que dinheiro? O jovem se dirige a floresta, derruba uma árvore imensa e com sua madeira faz carvão. Esse carvão será ensacado e levado por 50 km a pé (os sacos vão na bicicleta e ele empurrando a mesma) em uma estrada de barro e no mínimo sinistra. Tudo isso para chegar em uma cidade cujo cenário me lembrou aqueles filmes de guerra americanos no Vietnã. Pessoas pobres e vivendo em uma aglomeração que propicia a retirada de qualquer dignidade humana. São para essas pessoas que esse jovem vai tentar vender seu carvão e com isso juntar a maior quantia possível de dinheiro e comprar suas telhas. Nessa hora, a pergunta que fica na mente é: Pra que?

Durante mais de uma hora e meia, o documentário retrata minuciosamente o trabalho lento, demorado e sofrido desse jovem, Kabwita, para tentar subsistir. As inúmeras machadadas para cortar a árvore, a força absurda para levantar cada galho, o trabalho interminável para montar um forno de barro imenso para essa madeira virar carvão, o tempo quase interminável para esse processo se findar, o preparo dos ratos que comiam assados na brasa, a retirada das farpas que entravam nos pés, a caminhada dia e noite em uma estrada que o convidava a morte a cada segundo e no fim, o olhar perdido, cansado e quase indecifrável, se não fosse pelo desespero aparente, de quem fazia algumas pausas para pedir a Deus alguma ajuda e,.. a ajuda não vinha!

Kabwita era como o barro dessa estrada, já estava entranhado na paisagem e ninguém mais o via. Mas quando o viam, era pra oprimir e barganhar. Sim, os humanos barganham a miséria! Nessas horas os instintos agressivos da humanidade, que tanto Freud se preocupava ao mostrar que seriam as verdadeiras ameaças a continuação da cultura, se mostram da pior forma possível e o outro é objetificado e utilizado como meio ou obstáculo para sua satisfação.

Filmes como esse são necessários para nos trazer a seguinte pergunta: Como seria sua vida sem os meios que você tem hoje? Qual o peso do outro em sua vida se você não tiver alguém pra prestar conta? Você derrubaria uma árvore, como Kabwita, ou tentaria outro meio? No meio desse cenário inóspito, Kabwita acreditava que meia dúzia de telhas para se cobrir do sol e da noite eram combustíveis necessários para uma missão de vida. Como se essas telhas conseguissem cobri-los do que realmente os desnudava. Viktor Frankl, ao sobreviver a Auschwitz, escreve um livro que propõe a busca do sentido para fazer valer a vida. É o sentido que faz você suportar qualquer coisa, diria Victor Frankl. Vou procurar estender: Existe um limite pra tentar fazer sentido?

O filme termina com Kabwita, após um dia infernal, tentando vender aquele carvão todo ensacado e amarrado em sua bicicleta, que aparentava estar pesando 100 kilos. Os olhos de Kabwita, reparem naqueles olhos, esvaziados e ao mesmo tempo com alguma esperança. Dirigi-se a uma igreja e junto com demais vai rezar e pedir ajuda aquele pai maior que chama de Deus, bom, até o final do filme a ajuda não veio.

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