O ABANDONO E A RESPONSABILIDADE EM NÓS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Esta semana tenho pensado sobre um filme que assisti tem uns dois meses: “Para sempre Liliam.” Um filme que nos proporciona a oportunidade de pensar sobre a questão do abandono, esperança e desesperança. Isso, assim desse jeito, um entrelaçamento do sim e do não para tantas pessoas que se permitiram pensar em possibilidades, com um suspiro, com os olhos fechados, sentindo um ventinho fresco no rosto com a sensação de que a vida vai mudar para melhor. Pessoas que se permitiram sonhar.

Deixa eu contar um pouco sobre quem é Liliam. Trata-se de uma jovem de dezesseis anos, vivendo na Antiga União Soviética, que com o peito a transbordar de alegria, sem se conter em sorrisos, pulinhos e gritinhos, como qualquer adolescente, porque iria viajar com a mãe e o novo namorado dela. Acontece que Liliam não cabia nos planos da mãe, que decidiu viajar com na companhia apenas do namorado. Liliam fecha a cara para a mãe, cruza os braços e tenta ignorar a fala da mãe que dizia que depois mandaria buscá-la. Quando a mãe desiste de falar e vai para o carro, Liliam corre desesperada, chorando, implorando para não ser deixada. Aos cuidados de uma tia que também não se ocupa dela, Liliam fica ligada à sua própria sorte; ela não tem espaço, lugar no desejo de ninguém.

Tantas pessoas são trazidas ao mundo e largadas à própria sorte . E para aonde se vai com isso? Enquanto pôde, Liliam não se prostituiu, mas com o dinheiro na mão, foi ao mercado e saiu com as sacolas cheias, tentava sobreviver. Acreditando mais uma vez que começaria uma nova fase na vida, entregou sua esperança a um jovem que prometeu amor e um trabalho cheio de vantagens, mas na verdade, estava sendo traficada para ser escrava sexual na Suécia. O único amigo, um menino de onze anos chamado Volodya, um outro sujeito abandonado, não suportou ser expulso de casa constantemente, não cuidado, rejeitado e espancado pelo pai, retirou-se da vida ingerindo uma quantidade significativa de medicamentos. Amigo que ela acolhia para dormir no sofá do minúsculo apartamento onde a tia a colocou e também o alimentava.

Abandono, negligência, filhos de órfãos de pais vivos e mortos, retalhados com suas partes soltas ao vento, encarcerados em impossibilidades formuladas por quem não quis saber. Sujeitos como o resto do desinteresse de alguém que se representa como ninguém. A mãe de Liliam não só não voltou, não mandou dinheiro, como também comunicou à justiça que se desobrigava como mãe, que doava a filha que era um problema em sua vida e que nunca fora desejada. Vamos pensar sobre como Liliam ouviu esse tanto sobre a sua história, a narrativa de parte de sua existência .Como seguir com tal etiqueta, a indicação de resto e seguir? São muitas as pessoas que seguem, que sentem o tempo atravessar a sua existência com o questionamento sobre o porquê de estar assim na vida, desse jeito, sobrando.

Estou aqui a falar sobre uma jovem que representa muitas outras. São tantas meninas e meninos abandonados dentro e fora de casa, prostituídos, jogados fora. Olhando o mundo pela lente da crueldade humana, com a alma fraturada, embalados pela desesperança e pela dor de existir. Crianças, jovens, sujeitos esquecidos, lembrados como nada, como dejetos.

Enquanto pôde, com todas as limitações que encontrava pelo caminho Liliam cuidou do seu único amigo, Volodya e impediu que ele tirasse a própria vida. Com a sabedoria dos seus onze anos, marcados em grande parte por amargura, carregando consigo a desconfiança que a vida o ensinou, Volodya sinalizou para Liliam que havia algo errado com o namorado dela, com as maravilhosas ofertas que ele apresentava, que estava acontecendo tudo muito rápido, mas ela não conseguiu ouvir, inclusive queria levar Volodya com ela, mas o namorado disse que não seria possível. Quando Liliam partiu, Volodya estava sem vida. Liliam que lutara para preservar a vida do amigo, também não agüentou, ela desistiu. Tratada como um pedaço de carne com orifícios a serem invadidos constantemente por dezenas de seres se considerando no direito de agir assim, uma vez que pagaram. Quando finalmente conseguiu fugir, para não ser novamente capturada, encurralada, ela saltou para a morte.

Houve uma época em que eu falava sem pudor algum, na verdade, eu convocava as pessoas para entenderem que todas as crianças eram filhos de todos os adultos e que a responsabilidade pelo bem estar delas era de todos. Hoje eu ouvi, em uma live, a Dra Michele Kamers falando sobre Infância, educação e psicanálise que precisamos parar de entender a criança como propriedade particular do pai e da mãe, que todos que estão por perto são responsáveis. A responsabilidade está em cada um de nós.

Para sempre Liliam, Volodya, João, Maria e todos os outros nomes que eu não gostaria de mencionar, mas que infelizmente cabem aqui, ali, por aí. Que não sejam abraçados pela morte como saída, muito pela morte em vida, transformados em zumbis, objetos nas mãos da escória humana.

A responsabilidade está em nós, que não salvamos a Amazônia se não molhamos a planta que temos em casa, que falamos tanto em proteger a infância e operamos diversos tipos de violência, que fingimos não ver, até mesmo quando se trata da nossa casa, da nossa criança interior.

Uma imagem? Dois caixões: o de Liliam e do seu amigo Volodya que se reencontraram como anjos, um apoiando o outro. Lírios para o sepultamento da dor. Não agüentando mais, Liliam fugiu quando teve oportunidade, correndo do outro, foi ao encontro de si.

Escolhi Lírios... escolhi lírios para oferecer para Liliam, seu amigo e todas as pessoas que vivem e viveram o abandono e suas consequências.

Flores e abraços...

Até a próxima!

Um abraço,


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