O DIABO DE CADA DIA - [O diabólico das relações]


Marcio Garrit - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


O diabo de cada dia é um filme com muitas histórias entrelaçadas, e todas com muitos embates. Você não consegue tirar os olhos da tela, por não conseguir acreditar na falta de limites, o que chama atenção, das relações que se apresentam ao longo da trama. Todas as relações são absurdamente violentas em todas as nuances possíveis. E talvez seja isso que torna o filme tão interessante: o diabólico que se apresenta nas relações, a falta de limite entre os sujeitos, ou dito de outra forma, a exposição bruta de uma arena onde o desejo se mostra sempre vencedor, e da pior forma possível.

Filme americano de 2020, dirigido pelo americano, filho de brasileiro, Antonio Campos. Até então, apenas conhecido por Christine (2016), filme que em minha opinião está longe de ser bom, Antonio Campos agora surge na cena cinematográfica com reais chances de levar um Oscar. O diabo de cada dia conta basicamente a história de 4 pessoas. Um pastor mau caráter, interpretado pelo surpreendente Robert Pattinson, um casal, literalmente perverso, e o jovem Arvin Russel, interpretado por Tom Holland, o protagonista. Toda trama se passa em Ohio, onde, ao longo da trama os personagens vão se encontrando e deixando marcas intensas na vida uns dos outros. Sem me alongar muito na sinopse, o que nunca foi o objetivo dos meus textos aqui no blog, vou pontuar o papel de cada um nessa trama, literalmente, diabólica.

Tudo se inicia em um cenário do pós guerra do Vietnam. Tal sobrevivente, pai de Arvin, inicia o filme demonstrando claramente sua perturbação mental com as cenas, nada suportáveis, que restaram da guerra e insistem em marcar suas memórias. Tais perturbações vão levá-lo a atos que marcarão o jovem Arvin para sempre. Assim como seu pai foi marcado pelos terrores do Vietnam, Arvin recebe, como que por herança, tais marcas do pai, mas da pior maneira possível. Ele presencia da extrema violência ao suicídio. Do combate sem medo ao inimigo a fuga extrema da vida. Com essas marcas Arvin estrutura uma maneira de se haver com a vida, com o outro. Ele enfrenta! Já adulto, em Ohio, outros personagens vão surgindo na trama com histórias de vida cada vez mais assustadoras que outras. Um casal que dá carona a rapazes sozinhos na estrada, matam-nos, e o marido tira as fotos enquanto sua esposa faz poses eróticas com o cadáver. Uma jovem abandonada pela mãe, que Arvin tem como irmã, se apaixona pelo pastor mau caráter que a engravida e depois se mata. Importante pontuar o altíssimo nível do trabalho de Pattinson (o pastor). Impossível não se enojar só de ver a imagem do personagem na tela.

Em mais de duas horas de filme, que parece passar em 30 minutos, esses e mais alguns outros personagens, vão se encontrando e cada um vai, a sua maneira, deixando marcas e enodamentos intensos na vida de cada um. Todo esse cenário me chamou atenção para uma coisa: o papel do outro em nossa vida e sua consequência. Tal afirmação é levada a radicalidade ao percebermos o quanto a repetição é constante na vida de todos os personagens. E como isso é real! Lembro do filme de Zizek, Guia pervertido do cinema (2006), quando o mesmo diz de forma bem marcante que a só o cinema consegue retratar a realidade, mais real do que realmente é!

Se pararmos para analisar por só um minuto que seja, o peso que o outro tem em nossas vidas, a sua capacidade de marcar de forma implacável o nosso destino, soa no mínimo perturbador. Todos esses personagens são a prova máximo disso, como já dito. Vivemos na busca do amor do outro, acreditamos que o mesmo tem a capacidade de nos completar, queremos mais um amigo, mais um amor, mais um pouco de atenção. Com isso suportamos o que não devíamos, nos espelhamos em quem não poderíamos e assim vamos deixando as marcas se propagarem incessantemente, nos afastando de nós mesmos. Quanto mais vivemos, mais nossos atos vão nos entregando, por que no fundo, todos eles são ecos de nossas perdas, do que não abrimos mão. Ele aponta para o que nos falta e que, querendo ou não aceitar, não será suprido. Talvez a vida seja a capacidade de por um fim naquilo que persiste, no que repete.

Filmes como esse, nos fazem ver o quanto à psicanálise é potente, real! O quanto frases como: “O sofrimento do adulto é consequência de uma dor infantil.” Se mostram verídicas e preocupantes.


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