O FILHO HÓSPEDE


Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


Quantas vezes eu, você que lê esse texto que começa a tomar contorno, tantas e tantas pessoas escutam a reclamação de amigos, pais de filhos que nunca colaboram com nada em casa? Esses filhos que parecem que vieram ao mundo para serem servidos. Percebe-se um lamento, uma dor nessa queixa tão presente de quem não entende o motivo de tanta falta de interesse no bom funcionamento familiar, uma agonia ao se falar desse estranho tão familiar, esse querido, temido, irritante filho hóspede que faz tantos pais se perguntarem: “Onde foi que eu errei?”

Afinal, sobre quem estamos falando? Se formos parar para pensar com calma sobre o assunto, teremos que entender, admitir que esse filho hóspede não nasceu pronto, ele foi se constituindo com a ajuda de quem o pariu emocionalmente, de quem enviou a mensagem cotidianamente de que ele seria servido eternamente. Claro que também precisamos pensar que esse “eternamente” pode fazer sentido, enquanto interessar. Filhos existem, antes de serem paridos, estão prontos no imaginário de quem os deseja e são esculpidos para corresponderem às expectativas alheias.O fato é que, em algum momento esse hospedeiro emocional, terá que se encontrar com esse filho real e adivinhem, ele é parte de quem os gestou.

Estamos falando de sujeitos superprotegidos que foram servidos desde sempre porque era importante para quem os concebeu, a questão do cuidado. Quem de nós nunca ouviu a tal história de que o filho da fulana, onde come deixa o prato, e que o marido faz igualzinho e a tal fulana cata tudo, arruma a bagunça dos dois, de todos e afinal ela se pergunta: “O que poderia fazer se eles são assim, não escutam?” Basta que a conversa prossiga mais um tantinho e percebemos o quanto foi constante, ao longo da vida para essa hospedeira, cuidar, se sentir importante nessa função de prover tudo para os seus hóspedes.

É comum ouvirmos pessoas que desempenham a função materna sofrendo porque seus pequenos logo crescerão e não precisarão mais delas. Ganharão o mundo e nem mesmo lembrarão da sua existência, o quanto elas foram importantes para as conquistas de seus hóspedes. Esse deixar ir, essa apreciação de quem caminha, não para longe da sua hospedeira, mas talvez, para mais perto de si mesmo, buscando entender como é esse estar aí no mundo.

O filho hóspede está acostumado a ter tudo na sua mão, no seu tempo, na sua hora. Tem muita dificuldade com negativas, não suporta ser contrariado, tem mesmo atitudes infantilizadas. Em casa, atua como se fosse presença ilustre, quase uma celebridade. Os interesses, as necessidades dos outros não importam, aliás, ele não entende que existe o outro, vive centrado em si mesmo. Acontece que o mundo vai muito além do limite da nossa casa, do portão do nosso quintal e a vida trata esse filho hóspede como trata qualquer sujeito que está aí na vida, mostrando que nem tudo acontece de acordo com os nossos caprichos.

Quando esse filho hóspede cai nas tramas da vida, ele fica perdido, até tenta atuar como hóspede quer ser servido, mas logo entende que tudo é bem diferente de tudo aquilo que ele aprendeu como norma, como regra. Sentem-se inseguros, perseguidos, despotencializados, sem rumo, sentem falta de um colo que não ensinou que existe um chão duro, experimentou almofadas no seu engatinhar. Num determinado momento existencial, o filho hóspede passa a sentir raiva dos seus hospedeiros, julgam-nos e os condenam culpados, definitivamente culpados, por seus fracassos.

O filho hóspede, esse estranho tão familiar para os seus hospedeiros, causam um incômodo, transitam dentro de casa como se não enxergassem ninguém, com uma comunicação difícil, dirigem-se ao outro para reclamar de um serviço mal feito, não realizado e esfregam na cara dessa função materna que ela precisará se olhar, sem se apoiar em seu querido hóspede. Esse sujeito que ajudou esse hóspede a se constituir como tal, precisará repensar seu modo de agir, precisará gestar suas próprias idéias, seus próprios desejos, sua maneira de maternar.

Sabemos o quanto é difícil sustentar esse lugar,o da função materna, visto como sagrado e invocativo de uma responsabilidade tremenda, um privilégio, quase uma santidade, onde não cabem reclamações, sentimentos controversos, muito menos erros. Talvez essa seja a via para entendermos porque para tantos sujeitos é tão difícil, quase impossível compreender, aceitar que erros acontecem sim, equívocos fazem parte, mesmo quando a intenção é a melhor. Também não podemos esquecer que o desempenho da função materna, tem a ver com a relação dessa pessoa com aquela outra que a gestou e assim por diante. As situações realmente não se dão ao acaso, precisamos pensar.

Hospedeiro e hóspede, ambos tem a possibilidade de refazer o seu caminho, afinal não é necessário perecer com a famosa síndrome de Gabriela. Sim, vocês conhecem: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim.”

Pensemos...

Até a próxima!

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