O GAMBITO DA RAINHA – [ Fuga ou defesa? ]

Atualizado: Jan 4


Marcio Garrit - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Uma criança dentro de um carro, no banco de trás, e no volante uma mulher descontrolada e chorando. Isso acontece após uma cena, que essa criança observa de dentro do carro, onde a mãe briga com um homem que muito depois essa criança vai entender que era seu pai. Uma frase ecoa, pela voz perturbada da mãe, dentro do carro: “Esse homem foi um erro e que trouxe um problema que é você.” Após isso uma ordem: “Fecha os olhos!”. Essa mulher, com problemas mentais graves, se suicida jogando seu carro contra um caminhão na estrada em alta velocidade. Ela morre na hora, mas Beth, essa sobrevive sem um arranhão, porém, essa falta de arranhões será compensada por ferimentos muito mais graves que ela vai se auto infringir ao longo de boa parte de sua vida.

Assim começa a série americana de 2020 - “O gambito da Rainha”, dirigida por Scott Frank, ambientada na década de 60 do século XX, e atualmente exibida pela Netflix. Protagonizada pela atriz Anya Taylor-Joy – Beth. Uma criança sobrevivente de uma tentativa de suicídio feita por uma mãe enlouquecida pela vida e que tentará se haver com todo esse desamparo no orfanato, a qual passa a viver, após esse ato. Beth é uma criança séria. Antes de continuarmos, é necessário e importante questionar esse significante: criança! Não sei se Beth era uma criança. A mesma cresce sem saber sequer se tinha um pai, a mãe era visivelmente psicótica e suicida e ainda por cima tenta matar a filha também. Ao longo da série vemos cenas como a que deixa a entender para Beth que está se afogando, e para Beth, só resta olhar e se desesperar, por que a mãe entra no rio e não volta. Será que Beth teve tempo pra ser criança, ou essa fase foi apagada de sua vida? Seja o que for, essas faltas retornam cobrando dela muito mais do que ela pode dar.

Retomando a sinopse, Beth agora tem um novo local pra morar: um orfanato. Nesse local vai descobrir duas possibilidades de existência. As duas vão afiançar a alienação de Beth, estamos falando do xadrez e as drogas. A primeira, apesar de ser utilizado por Beth como uma droga, ainda proporciona laços e conquistas, já a segunda, só a faz ficar perto de tudo que ela sequer deveria ter conhecido: a ausência da mãe, porém, de uma mãe que sequer existiu. Talvez seja isso a maior desgraça de Beth.

Visivelmente traumatizada, Beth é uma “criança” séria demais e com dificuldades de fazer amizades. No orfanato descobre os comprimidos tranquilizantes e o xadrez, que é ensinado pelo zelador do local, nas horas vagas e no porão. Nesse momento, Beth percebe que existem “ferramentas” no mundo que auxiliam a conviver com o desamparo e com o impossível do laço social, e as usa de forma intermitente, pois o “buraco” feito nela é grande demais para usar essas ferramentas de outro jeito. Muito me lembra o que Freud escreveu, logo nos dois primeiros capítulos, de “O mal-estar da civilização” (1930). Ser feliz é um movimento de cada um e caberá a cada um lidar com isso a sua maneira, sendo o uso de substâncias toxicas, uma delas!

Ao longo de sua existência, Beth se utiliza do xadrez e das drogas, agora não mais apenas tranquilizantes, como se fossem uma coisa só. Esse excesso, como já sabemos, aponta uma falta imensa, assim como todo excesso. Beth vai deixando claro ao longo da trama que é apenas isso: Um tabuleiro de xadrez e um punhado de comprimidos engolidos com álcool e tabaco. A alienação que insiste, demonstra um movimento compulsivo de Beth em tentar dar sentido aquilo que lhe tiraram que é a possibilidade de se fazer sujeito. De conhecer e tentar acessar o outro que não pela via do suicídio ou do erro, como sua mãe fez questão de deixar marcado. Beth vira um gênio do xadrez e isso a salva de alguma maneira, mas é sobre esse outro lado que gostaria de falar um pouco mais.

Uma das coisas mais curiosas do nosso psiquismo é a maneira como as coisas nos marcam e como vamos resgatar isso que falta ou excede. Quando Freud afirma sua terceira cicatriz narcísica, é nesse momento que vemos o tanto de realidade que isso expõe. Ou até a subversão do pensamento de Descartes, exclamado por Lacan. Enfim, a razão não nos guia. Existem uma enormidade de subjetividades que fazem parte da estrutura dos nossos passos, muitas dessas subjetividades não são alcançáveis pela palavra, somente pelo sentir. É como se não houvesse explicação, apenas é. Talvez isso explique o desenvolvimento do conceito de pulsão de morte, mesmo que sendo um mito conforme dito pelo próprio Freud a Einstein. Percebemos que a repetição é algo que até sua explicação só se torna possível a partir de uma não explicação, ou uma explicação sem lógica. O aparelho psíquico existe para repetir, e assim o faz porque funciona sobre uma pressão constante das pulsões sobre ele, pressão essa que nunca poderá ser descarregada por completo e além disso se descarrega por contraste: alivia um lado e sobrecarrega o outro. E nem falamos da pulsão de morte ou do gozo, onde esse mecanismo se coloca mais longe dos cogitos cartesianos.

Porque Beth se destruía? A explicação é “tecnicamente” muito fácil: Quando você é um erro, você precisa errar! Quando você é um problema a ser lidado, você precisa fazer jus a esse título. E talvez, devido a essa forma ilógica do aparelho psíquico funcionar, acabamos por acreditar que a única forma de não ser mais destruída psiquicamente pelo outro é ser igual a ele. A partir daí, o que se faz é cavar, sem parar, nossa própria sepultura no afã de um dia encontrar aquela(s) pessoa(s) que nos ensinou(aram) isso, e assim conseguir aquele abraço de acolhimento que tanto se esperava. Amarga ilusão!

Beth aprendeu isso com a mãe. Existem muitas Beths por ai, o problema é que nem todas jogam xadrez.

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