O [NO] POÇO – EXISTE SOLIDARIEDADE SEM VIOLÊNCIA?



Marcio Garrit & Cláudia Moraes - Psicanalistas

E-mail: contato@psicanalitico.com



Filme espanhol de suspense de 2019 dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, trata-se da história de uma prisão no formato de um poço com centenas de andares, onde em que cada andar ficavam presas, duas pessoas. Uma vez por dia era liberada a refeição em forma de banquete, que começava pelo primeiro andar e conforme ia descendo a plataforma com a comida, aos demais restavam as sobras dos anteriores. Não é difícil de imaginar que não havia solidariedade entre os andares e com isso os últimos nada recebiam! É importante salientar que uma vez por mês, as pessoas mudavam de andar no poço, aleatoriamente, com isso, quem estava no último, poderia, no mês posterior ir para o primeiro andar. Outro ponto importante é que as pessoas escolhiam entrar no poço.

O poço é um filme que trata do ÓBVIO que ninguém mais vê. As cenas dessa película são tão impactantes e ricas de conteúdo que achamos melhor debatermos em grupo, através de uma conversa entre eu, Marcio Garrit, e minha parceira aqui do psicanalítico, Cláudia Moraes, inaugurando assim, nosso primeiro texto em dupla no blog, sobre cinema.

CM: Então Marcio, o quê pareceu óbvio pra você no filme?

MG: Já dizia Nelson Rodrigues que o óbvio só poderia ser percebido pelos profetas. Essa sociedade egoísta em que vivemos não consegue refletir por mais de cinco minutos se o assunto em questão ameaçar suas vontades. No filme, para que todos pudessem comer, deveria haver ausência desse egoísmo. O volume de comida servido era imenso, porém, as pessoas “surtavam” e comiam o máximo possível sem pensar que dessa forma prejudicariam os outros. Nota: quem estava embaixo, poderia em algum momento estar em cima no futuro, ou o pior, já ter estado. Isso mostra que nem a vivência consegue reduzir o egoísmo. O óbvio nesse caso é a incapacidade da mais básica reflexão.

E pra você Cláudia, existe solidaderiedade possível quando o cenário social ameaça o narcisismo do sujeito?

CM: Não é algo simples de acontecer, afinal o que observamos no filme, é a indisponibilidade para olhar além do próprio umbigo. Parece que pensar o coletivo é algo que nos escapa, estamos paralisados em nós mesmos, em nossos interesses. Entretanto, se pensarmos o coletivo a partir do individual, talvez seja possível pensarmos na coletividade. Árdua tarefa, pois mesmo os presos que inicialmente se recusavam a viver a dinâmica de receber os restos dos outros, de pouco se importar com o que vem pela frente, pela existência do outro; num determinado momento se rendem. Era responsabilidade da Administração do Poço, determinar o fracionamento da comida? Precisamos sempre que alguém determine uma ordem?

MG: Se você está querendo fazer uma analogia da Administração com os ditos do estado ou os significantes cicatrizantes dos pais, posso dizer pra você que sim! Vivemos a luta de tentar transformar o nosso Ideal do eu em Eu ideal, essa dinâmica precisa ser dificultada pela castração. O entendimento da falta e dos limites deveria ser inserido desde o início. Depois de uma certa fase da vida, as coisas ficam muito mais intensas. Ou seja, se isso não se dá desde o início da vida, o obvio vira algo da esfera do enigmático, do impossível. Sendo assim, te pergunto: Há paz sem guerra? Há caridade sem luta? A violência precisa se presentificar para que ela não mais se presentifique? O que acha desse paradoxo?

CM: Essas indagações me lembram a passagem do filme em que uma das presas tenta por meio da educação, da reflexão, do pedido que haja responsabilidade para com o outro, que se pense no outro e nada consegue. Eis que o protagonista do filme, (ou será que o protagonista é o poço?), seu colega de cela introduz a violência, a ameaça e consegue atenção, o que foi frustrante para aquela que investia no diálogo, na possibilidade de conscientização. Como você bem colocou, a castração faz parte do processo da constituição psíquica do sujeito e ela por si só, é um ato de violência. Dessa forma penso que a violência deixa a sua marca como impedimento, paralisa o sujeito, obriga-o, mas não se faz autoridade e sim ameaça. A violência faz o sujeito obedecer, mas o limita no ato de pensar, de refletir.

Para você o quê representava a comida no Poço?

MG: Uma das primeiras perguntas que o protagonista faz ao seu companheiro de cela era sobre como o poço funcionava e a resposta foi imediata: É tudo sobre a comida! O que vem depois, já dissemos, a luta de classes. Não me importa se tem para todos, o que importa é que tem que ter muito pra mim. A comida marca a indiferença. É a luta pelo dinheiro que se faz escasso porque quem tem muito, quer mais para não sobrar nada para quem nada tem.

Porque ele levou o livro Don Quixote para o poço? Qual o significado disso?

CM: Foi ótimo você ter tocado nesse aspecto do filme, porque eu achei muito interessante. Don Quixote é um personagem muito interessante e me leva a pensar nas estratégias que usamos para sobreviver às nossas próprias armadilhas. Enquanto D. Quixote está mergulhado em seus delírios, investido de uma potência, de uma força que o torna destemido, enquanto ele enfrenta feras que só ele vê, há um motivo para continuar. Quando ele cai em si, quando volta para si mesmo, para o seu vazio, para aquilo que ele não consegue dar rumo, significar, ressignificar, ele perece. Ao ingressar no Poço, Goreg mergulha nos labirintos de si mesmo e com o desenrolar do filme, vai se despindo do seu controle sobre as suas idéias, vai entrando em contato com aspectos do seu psiquismo que o distanciam dele mesmo e o aproximam de aspectos sombrios, esses que nos habitam; sua sanidade parece ir pelo ralo. Lembro de um momento em que ele come as folhas do livro para não comer um humano. Simbolicamente penso em Goreg comendo, engolindo a força de D. Quixote, a força do seu delírio.

Observa-se que a indiferença é um elemento constante entre os habitantes do Poço, algo que chama à atenção. Dentro do que estamos discutindo, como você essa dinâmica? A indiferença é sintoma ou se tornou estrutura?

MG: Dentro da dinâmica do filme, a impressão que me passa é que a definição de sujeito no poço é a indiferença! Antes de entrar no poço a pessoa passa por uma entrevista e diz qual seu prato favorito. Esse prato é inserido na plataforma junto com os outros pratos favoritos dos outros confinados. Isso quer dizer que há um prato para cada um e não há necessidade de desespero e sim de alteridade e racionalidade. Na plataforma tinha comida pra todos! O máximo que poderia se fazer era um rodízio dos pratos favoritos, coisa que se mostrava impossível de articular pois os de cima não falavam com os de baixo e os de baixo não falavam com os que estavam abaixo. Nada de diferente da dinâmica social atual. Vivemos num sistema que para continuar existindo como tal, não pode haver comunicação, entendimento e racionalidade. Enquanto escrevo esse texto estamos atravessando a pandemia do Covid-19, veja o álcool gel e papel higiênico. Sumiram! A luta desesperada em não confinar para não ter que prejudicar o sistema financeiro! É tudo sobre isso... Indiferença! Respondendo diretamente a você: A indiferença precisa ser estrutura para que tudo se mantenha como está.

O que aquela criança, que estava no fundo do poço (literalmente), representava?

CM: Duas coisas me vieram à cabeça, primeiro esse nosso início, isso que de mais genuíno temos em nós, a nossa infância, onde tudo começa. Sim, começamos muito antes de existir, sendo gestados no imaginário de alguém, mas aquela criança me fez pensar nessa criança que carregamos ao longo da nossa vida, a que fica nas entranhas do nosso inconsciente e nas bordas da nossa língua. Em segundo lugar, vi que se tratava de uma menina e isso me fez pensar no feminino como início da vida, no começo de tudo.

Afinal, qual a mensagem que o Poço deixa para nós? O quê o Poço representa?

MG: Acho que a esta altura já percorremos todos os andares desse poço e termino da mesma maneira que comecei: O óbvio que não é mais visto. O sujeito precisa renascer, assim como essa criança que retorna como fênix, sob uma plataforma devastada desnecessariamente pela cegueira humana. As bases da existência precisam ser revistas, ou continuaremos nos digladiando sobre uma plataforma, ou seria por uma desgraça de um mito ideológico, e descendo ao fundo do poço.

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