O NOVO NORMAL E OS (DES)ENCONTROS FAMILIARES


Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com



Tudo vai mudar! Tudo será melhor porque tudo vai mudar! Como não pensar na palavra de ordem que anda em pauta na nossa rotina há muito, muito tempo antes da pandemia (Covid-19): INCERTEZA? E com a incerteza, a presença constante da angústia, um afeto que sugere possibilidade de movimento, que entretanto pode ser paralisador. O novo normal sugere que com a retomada das atividades laborativas, sociais, culturais, escolares após a pandemia, nós faremos a nossa parte, nós contribuiremos para uma mudança, para algo melhor. Será?!

O confinamento colocou os familiares muito próximos no espaço físico da casa e assim as pessoas precisaram se olhar e muitos não tem gostado do que tem visto no outro, em si. A casa, que outrora era um local de breves encontros, esbarrões, com as expressões:

“Até mais tarde!”

“Vai com Deus!”

“Não esquece de pagar a conta de luz!”

“Presta atenção à aula filha!”

“Oi, como foi o seu dia?”

“É sério que você chegou primeiro e não preparou nada pra gente comer?”

E por aí vai... bem, essas expressões, essas colocações acabaram ficando sem lugar. Os esbarrões se tornaram freqüentes e os incômodos também. Convivência exige muito de quem se dispõe para tal, pensemos sobre quem é obrigado a isso.

A presença da morte tão próxima deu uma sacudida, provocou certo estremecimento interno e pensamos na brevidade da vida, no tempo acontecendo todo dia. O cortejo solitário de caixões que carregavam vidas ceifadas que importava para alguém ou ninguém, marcando a impossibilidade da presença de quem desejasse ou precisasse se despedir; isso marcou a reflexão para muitos de sobre o quê se trata a vida. Houve quem risse e ainda ri do invisível que ainda grita em nossa cara que o imprevisível nos torna previsíveis, tolos na nossa arrogância em ser sem ser, nos desenhando para o mundo como aquele que sabe e faz. Assustados como rato acuado prestes a ser eliminado, começamos a nos interrogar a respeito de tudo e de nada, do nada. Quantas reflexões ouvimos sobre o impacto da quarentena, da pandemia, sobre solidariedade, sobre quão pouco valoramos o quê temos, o quê conseguimos, nossas relações. Quando tudo isso acabar, tudo vai mudar. Sairemos fortalecidos! Nos abraçaremos mais! Nos respeitaremos mais! Será?! Estamos em um processo de flexibilização do confinamento, voltando ao trabalho, voltando às ruas e o quê temos visto? Desrespeito pelo outro, pela vida.

As pessoas que vêm cumprindo o confinamento com seriedade, essas estão chegando ao seu limite, se interrogando se estão erradas; vendo tanta gente circulando como se nada estivesse acontecendo, como se fosse mentira a profusão de mortes, de sofrimento, de perdas. Pessoas que precisam se preparar para se misturar aqueles que pouco se importam com o outro; pessoas de todos os tipos, inclusive aquelas que acreditam que títulos garantem imunidade a doenças, a qualquer tipo de enfermidade. Nós e nossa podre arrogância que nos coloca nesse lugar de cegueira existencial.

Novo Normal? Continuamos imersos em nosso velho normal de não entrarmos em contato com nossos conflitos, de nos impedirmos de fechar ciclos, porque não conseguimos enxergar possibilidades, porque sentimos o aconchego espinhoso do nosso sintoma e achamos saboroso o amargor ácido do veneno diário das mesmas atitudes que sorvermos, com a retidão da entrega psíquica que nos aprisiona.

O confinamento tem nos proporcionado de tudo um pouco, encontros e desencontros. Algo mudou nas relações familiares? A sua família mudou? Continuamos ilhados no território da casa, cada um entregue aos seus afazeres, presos às telas dos celulares oferecendo e buscando proximidade virtual. Será esse Novo Normal que nos conforta?

Manter a distância para nos sentirmos próximos de maneira segura, com um simples toque, afastando o quê nos incomoda, utilizando o quê a tecnologia nos oferece. Será esse o caminho? Um controle que nos enrijece em uma jornada em que ficar muito próximo acaba por nos despir de nossos véus rumo a enxergar a insuportabilidade de quem somos e de quem não queremos ser.

Tudo vai passar! Vai mesmo?

Pensemos.

Até a próxima!

Um abraço,


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