O OUTONO EM CADA UM DE NÓS II


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Bem, começo esse texto explicando o título. O outono em cada um de nós II, porque no início do nosso trabalho no Psicanalítico eu escrevi um texto com esse título. Recentemente no “Reflexões analíticas”, ao fazer uma live sobre o sofrimento do idoso, lembramos desse texto e cá estou eu a repensar sobre essa escrita, sobre esse assunto tão presente em nossa existência, o tempo acontecendo.

Na primeira versão do texto eu encerrei falando sobre respeitarmos e cuidarmos do jardim psíquico que existe em cada um de nós. Falei isso ao convidar o leitor a observar crianças brincando numa pracinha qualquer de um lugar qualquer. Estamos por aí, como sujeitos que somos, que estamos a ser, sendo inventados ou desinventados por alguém, ou ninguém. A jornada de cada um de nós, cada um com um tipo de estrada, muito comum, porém, singular e nessa palavra cabem tantas imagens, tantas marcas, tantas tatuagens que identificam almas, com e sem recheio.

Por falar em imagens, trago hoje essa imagem, um sujeito qualquer, único parado e diante de si, uma estrada que não tem fim, mas que considera pequenas ou grandes pausas. O ritmo vai acontecendo e o desenho da vida se formando. Quantos passos? Quem saberá? Talvez dependa de quem vai regar inicialmente esse jardim psíquico tão nosso e do outro inicialmente.

Ao tomar essa tal estrada, observamos e vivemos as estações, o tempo acontecendo, o desabrochar, o verão quando tudo parece brilhar e tudo é descoberta. A primavera nos convidando a florescer para nossas escolhas e sonhos possíveis e pra lá de impossíveis, cheios de força e ímpeto para realizar, para perceber o viço dos dias, quando se está a escalar montanhas imaginárias, entrando em árduas batalhas, contra monstros reais, do cotidiano e aqueles especiais que persistem em existir, desde a época em que vivam escondidos embaixo da cama de milhares de nós, no escuro que faziam o quarto parecer um calabouço repleto de perigos e interrogações. Para o inverno, tempo de colheita, aquele tempo em que queremos nos aconchegar e saborear as conquistas possíveis e aquelas guardadas no cantinho do coração, da gaveta como projeto que não deu certo. E o outono?

O outono, aquela fase em que o tempo se anuncia em cada trilha que vai brotando em nossa face, em nosso corpo, em nossa alma. Para identificar o outono, a velhice, no outro texto eu chamei o velho de outonista. Permito-me repetir, falemos do outonista.

O outonista começa a ser desenhado, antes de existir, que lugar ocupamos no desejo do outro? Esse início fala muito do outonista que seremos quando o outono chegar ou ao longo da estrada, mesmo sendo verão. E aí estou a me lembrar das crianças sábias, que são obrigadas a vivenciar o outono à força, pressionadas, colocadas em lugares indevidos, para desempenhar funções indevidas.

Esbarraremos com tipos diversos de outonista na vida. Quem não conhece aquele outonista que parece surfar no tempo e se sente na crista da onda, ou furando a mesma, qualquer onda, vivendo um dia de cada vez, um mergulho de cada vez, com uma energia que escapa no olhar, no caminhar, mesmo aquele sem tanto vigor. Passos comedidos, mais lentos, porém com força. Então eu penso se a força está no físico ou no recheio de cada um. Pessoas que vivem a vida com o quê vai acontecendo, com uma naturalidade, sem murmúrios persistentes; outonistas que caminham sem se prender a rótulos, classificações. Lembremos dos outonistas que maldizem a vida e que querem se retirar, pois não há mais nada a fazer. Os saudosistas que desprezam a atualidade e estão sempre a suspirar pelos bons tempos das outras estações.

Não sei se é esse o caminho que realmente quero tomar nesse texto. Vamos ver... deixe-me pensar, divagar...

Certo, tomo de volta a imagem do sujeito com a estrada à sua frente. Para onde se vai nessa vida? De que maneira estamos a existir aí no mundo? O quê andamos a fazer? A quem ou, ao quê nos aprisionamos com a atormentante necessidade de prestar contas, de sermos aprovados, aceitos, como se fôssemos crianças remelentas, irritadiças, com sono, pedindo colo, aconchego? Talvez eu só queira falar sobre esse questionamento que invade as almas das pessoas que percebem que o tempo está acontecendo, que o outono sempre existiu, foi acontecendo a cada minuto da nossa existência.

Os impulsos e atropelos; erros e acertos das outras estações... está tudo lá no outono; no outono em cada um de nós. A passagem do tempo em nós; nas limitações físicas, nesse desabrochar que se percebe em um corpo que enverga, que se curva para si mesmo. Talvez seja um tempo em como não se tem como não se olhar, se descortinar, se ver; se desesperar ou não. Não há nada dado, trata-se de (dês)construções reais, imaginárias, uma escrita na areia cheia de desatinos sábios. Uma poesia a caminhar a passos lentos, passos que podem levar até si mesmo.

Para quem vive uma estação diferente do outono, um outonista pode ser um peso, um trambolho no meio da sala, alguém que sobra, um resto que não cabe na vida de ninguém. É importante que um outonista caiba na sua própria vida, na sua própria história. A fala de um outonista tende a ser cortada, entendida como vazia e ele tende a se refugiar em seu silêncio que transborda gritos de fúria e tristeza. Que assinatura um outonista deixa ao longo da sua existência para não conseguir estar na vida pertencendo a si mesmo? Certo, não é tão simples assim, mas há o quê se pensar. O quê há de bom em ser outonista? Será que as folhas que caem podem ser como os excessos dos quais um outonista precisa se livrar, entender que não precisa mais e seguir, mesmo que não saia do lugar? Pode o outono oferecer um tanto de leveza?

Estou com a sensação de que estou tomada pelas lembranças das crianças com quem andei cruzando na clínica, na vida e sorrir ao ver o esforço das crianças sábias, amadurecidas precocemente, tentando viver a infância, o verão. As crianças outonistas, com o olhar perdido diante da tal estrada, saltitando, interessadas em andar sem direção, aguardando aquele que tomaria a sua mão e indicaria os primeiros passos. Também estou a me lembrar dos outonistas crianças com o olhar a se interrogar de que maneira caminhou e muitos entendendo que a estrada nunca acaba, talvez se diminua a marcha, talvez o desejo seja o de se apreciar o tempo que aconteceu.

Um jardim psíquico precisa de cuidados...

Que possamos ser jardineiros interessados em cuidar de cada detalhe do nosso jardim psíquico, de nós e essa é uma longa história, para todas as estações da vida.

Até a próxima!

Um abraço,

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