O QUE JOKER E BIRD BOX TEM EM COMUM? - [O impossível do olhar]

Atualizado: Mar 16



Marcio Garrit - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Narciso teria muita concorrência hoje em dia. Talvez nem tivesse espaço nas águas para observar seu reflexo. Certa vez assistindo alguns vídeos no Youtube, da Psicanalista Maria Homem, sobre a individualidade humana, ouço a seguinte frase: “Vivemos a era do um.”. A maneira como ela expõe isso ficou comigo até hoje trazendo reflexões sobre essa forma impossível de viver: sem o outro! Na cultura contemporânea, o outro é inalcançável e imperceptível. O que me leva ao seguinte questionamento: seria mais difícil parar de olhar pra si ou olhar para o outro? É nessa dinâmica que esses filmes se encontram!

Bird box é um filme americano de 2018, da diretora Susanne Bier, tendo Sandra Bullock como protagonista, tem um enredo simples: Em um mundo pós apocalíptico, pessoas são contaminadas ao olhar entidades sobrenaturais, tornando-se violentas umas contra as outras. Já Joker, filme também americano, do diretor Todd Phillips, protagonizado pelo fantástico Joaquin Phoenix – vencedor do Oscar como melhor ator, tem um enredo que poderia ser explicado de forma inversa: Arthur Fleck (Joker) contamina quem olha pra ele. Motivo: Ele é identificado como o produto da falta de olhares.

Em 1914, Freud escreve um texto sobre o narcisismo. Basicamente ele aponta para 3 fases. A primeira é a mais prematura da existência, na qual chama de auto-erotismo, ali, o bebê não sabe que há um outro, seu corpo é único e de puro prazer. Como manter isso é quase impossível, esse bebê começa a perceber e aceitar que há um outro no qual dependerá completamente a sua existência, a partir daí esse sujeitinho entra no narcisismo primário e constrói um laço intenso com sua mãe (pessoa que exerce a função materna). Isso ainda não basta, a criança se acha de alguma forma o centro de tudo. É vossa majestade o bebê: o bom vem de mim, o ruim vem do outro! Ao longo da infância isso deveria mudar para uma outra posição que Freud chama de narcisismo secundário, esse infante, já não tão criança assim, vai buscar um ideal de Eu, mediando os limites da convivência. A teoria narcísica da psicanálise não cessa por aqui, mas não é meu objetivo continuar destrinchando e sim levar você que está lendo agora para a última conclusão de Freud a respeito disso em 1930, onde o mesmo aponta os três maiores mal-estares da humanidade: acidentes naturais, o envelhecer do corpo e o laço social. Adivinhe qual o pior deles na opinião de Freud, e de Schopenhauer também? Óbvio que é o último! E ainda vem com um complemento: É o pior e não podemos viver sem ele. Talvez por isso ele afirme que não há como definir a felicidade, cada um que procure um jeito de ser feliz. A essa altura do texto chegamos à seguinte conclusão: Precisamos entrar no narcisismo para nos constituirmos sujeitos, porém essa minha posição narcísica irá “brigar” por um espaço possível de convivência sem abrir mão da minha unidade enquanto sujeito, terei que viver me equilibrando entre ceder e me resguardar, até porque se ceder demais me alienarei ao desejo desesperado do outro que não conseguiu entender que existe o não! Entenderam agora porque o laço social é o mais difícil e, talvez, diria, quase impossível? A impressão que temos é que hoje há uma quantidade imensa de sujeitos que ainda são vossa majestade o bebê! Não quero ouvir não! Não quero sentir a falta! Não aceito que pense diferente de mim! Você tem que fazer o que eu quero! É o que eu quero ou nada feito!

No filme Bird Box, o estrago já está totalmente feito. Os olhares não podem mais existir. Ver o outro já está na esfera do surto. Aceitar o outro já não é mais possível pra mim. Dessa forma, não olharei mais, ficarei na ilusão da falta do olhar, pois ao olhar o desejo do outro me obrigarei a sua alienação total.

Já em Joker, vemos um sujeito fragmentado, oprimido e desamparado por uma sociedade que executa marcas irreparáveis em seu ser e mesmo assim, exige que ele aja como se não tivesse acontecido nada. É a dinâmica do cada um com seus problemas, mesmo que eu tenha gerado esses problemas em você. Lembra da posição narcísica primária? Pois é! Os protagonistas de ambos os filmes tentam sobreviver ao impossível do olhar do outro, cada qual a sua maneira. Uma ainda tem esperança e vai buscar um lugar onde é possível o laço social, já o outro, toma como missão mostrar a falta absurda de alteridade do social. Não importa aqui julgar o mais certo ou a melhor posição e sim em levantar a seguinte reflexão: Ambos continuam, pois ainda tem a capacidade de fantasiar o impossível! Talvez seja isso o viver em sociedade.



Continue refletindo....


Maria Homem: Solidão e Soletude <https://www.youtube.com/watch?v=4eyz5-uNGMA&t=313s>. Acesso em mar/20


Filme: O Jantar, 2017, dirigido por Oren Moverman, EUA.


Franz Kafka, A metamorfose

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