PAIS NEGLIGENTES E OS CUIDADOS NA VELHICE


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Pois então vamos lá! Imaginem comigo uma estrada, do tipo que você olha e parece enxergar o tempo acontecendo. Agora vamos colocar, vamos ilustrar essa cena com personagens, um adulto e uma criança. Um adulto carcereiro de uma criança sufocada dentro de si, sufocando uma criança ao seu lado. Não, esse adulto não leva as suas mãos ao pescoço dessa criança. Esse adulto não se volta para essa criança, não a olha, a ignora. Agora pensemos na criança caminhado ao lado desse adulto que não a vê, que não a encontra. Uma criança com o olhar voltado para cima, um olhar que quer encontrar um outro que a faça viva, que a faça existir. O quê vocês pensam? O quê sentem? Alguém se reconhecendo nessa cena? Alguém se identificando? Sobre o quê estamos pensando, falando?

Esse adulto com um suposto andar firme, tomado de vitalidade, juventude, de um poder que aponta para um lugar onde talvez não haja limites. Em algum momento o andar desse adulto começa a vacilar. O tempo acontecendo e de repente a necessidade imperiosa de se pensar em onde essa estrada vai dar. Por outro lado a criança cresceu e pode ser que tenha deixado de procurar esse olhar outrora tão importante e necessário.

E aí, o quê acontece, por onde vai essa estrada, essa história?

Eu costumo falar que parece que o velho não tem passado e a criança não tem futuro. Tudo bem, precisamos viver o presente, mas não é no presente que, de alguma maneira desenhamos o passado e o futuro? Uma vez ... Nossa! Eu era uma menina e sentada no banco de trás de um ônibus a caminho do centro da cidade com uma das minhas irmãs, nos sentamos em lugares diferentes, porém próximos e um homem começou a conversar comigo. Ele era um adulto, a pele preta dele brilhava, eu achava que ele estava indo ao trabalho, mas o que me chamou à atenção, foi um calombo que ele tinha na testa. Eu pensava que poderia ser um tumor. Em silêncio eu pensava: Será que dói? Os ombros curvados, um olhar triste, ele parecia sem vida. Histórias de ônibus são ótimas, já deu para perceber que eu tenho várias, não é mesmo? E eu sempre tive um chamariz para isso. Aquele homem adulto puxando conversa comigo, e simplesmente começou a falar da infância dele. Ele falou sobre uma atitude severa que a mãe tinha com ele constantemente. Ele queria falar de uma dor que poderíamos pensar como longínqua, entretanto, aquela dor parecia atravessar uma estrada de aproximadamente uns quase quarenta anos e habitava a alma daquele sujeito que queria falar da sua dor. Eu com a minha pouca vivência, porém entendendo que ele precisava de um porre de esperança, ofereci a ele uma dose de amor. Eu me lembro de dizer que a mãe dele, certamente não sabia o quê fazia, que ela pensava fazer o melhor por ele, que talvez ela não tivesse muito jeito, não fosse muito carinhosa porque podia ter tido uma mãe muito brava. E muito compenetrada eu disse que a mãe o amava. Ele com os olhos marejados e um meio sorriso disse: “Será?” e eu muito convincente respondi: “Eu não tenho dúvidas. A sua mãe amava muito você.” Se por um lado a expressão dele parecia dizer: “Ai caramba, o quê essa garota sabe sobre a vida?” por outro lado ele parecia aliviado, alguém havia dito que a mãe dele o amava. Estaremos todos atrás desse tal amor que nos funda como sujeitos de uma estrada que nós leva para os confins de nós mesmos e nos põe no mundo?

Que lugar ocupamos no desejo do outro? Quem somos nós para esse outro? De que maneira se dão essas relações? Pensem numa mulher com mais de sessenta anos aproximadamente dizendo “A minha mãe nunca me amou, nunca fez nada por mim, nunca se importou, nunca esteve presente nas coisas que eram importantes para mim e quando ela envelheceu, aí ela precisou de mim, aí ela lembrou de mim. E o que eu podia fazer?” O quê ela podia fazer? O quê ela conseguia fazer? O quê ela desejava fazer? Penso que dá para entender o turbilhão que essa mulher estava vivendo, trazendo tantas lembranças que ela dizia querer esquecer, mas que a aprisionavam em uma pergunta que nunca era respondida: “Mas por quê ela não me amava? Por quê ela não podia me amar?” Havia ali também uma menina em um corpo, em uma alma de uma mulher com mais de sessenta anos.

Para a maioria das pessoas, entender que o tempo está acontecendo, que em algum momento os filhos se tornam pais dos seus pais, já é algo bem significativo, difícil, forte. Imaginemos o quê passam os filhos de pais negligentes. Cuidar de quem não cuidou de você. Isso em um discurso apresentado para a sociedade, esperado por essa sociedade, para uma visão cristã, desliza e encobre sentimentos, pensamentos, dores que ficam alojadas nas latrinas do nosso psiquismo que transbordam, em algum momento transbordam ou também podem marcar nossa alma com gotas diárias de sintomas que nos põem a serviço de nossas tramas escravizantes com nome de sintoma. Tomamos nosso chá de hipocrisia às cinco da tarde e depois nos debruçamos à janela para julgar e atirar pedras em histórias, às quais não temos a menor ideia do que se trata. É importante entendermos que para muitos filhos negligenciados faz-se necessário que eles tentem mais uma vez olhar para esses pais negligentes se encontrarem no imaginário deles, no desejo deles. Sim, vamos sim encontrar pessoas que querem ir atrás de um amor que nunca foi expresso, sentido. Por mais que entendam que não há o quê buscar, mesmo assim buscam, isso é importante para muitas pessoas. São assinaturas em espuma, assinaturas que tatuam a alma.

Há uma quantidade enorme de pais negligentes que também foram negligenciados e repetem a ação do não olhar, atuam parindo para ver a morte em vida do seu filho, filha, repetem a sua própria morte. Filhos de sujeitos cindidos podem ser tragados por ravinas existenciais onde o aprisionamento pode figurar como eterno. O rumo que esses filhos tomam podem resultar em casamentos indevidos, em busca de proteção, amor, comida e por aí vai, adicções, sexualidade árida, transbordamentos que inundam um coração vazio.

Esses filhos estraçalhados, também podem em algum momento, também justificarem seus pais negligentes e logo em seguida, voltam a questionar a sua própria existência, a ação dos seus pais. São esses filhos que podem se contorcer tentando gritar que não querem cuidar dessas pessoas, desses pais que não os cuidaram, não reservaram nada para um futuro, para uma velhice mais cuidada. Pessoas que viveram intensamente o seu presente, dessa ou daquela maneira e não perceberam que o tempo sempre esteve acontecendo. Mesmo para os filhos que têm condição financeira para contratar profissionais para cuidarem dos seus pais negligentes, o caminhar em tal estrada tão longo, pode ser uma ação árdua. Também encontraremos aqueles filhos tão esvaziados que realmente não querem saber, não respondem à qualquer convocação e seguem sozinhos, como sempre sentiram que estiveram.

Quem é um filho sem o olhar do outro?

Quem é um filho sem o desejo do outro?

Continuemos a caminhada... estejamos na estrada.

Até a próxima!

Um abraço,


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