PARA AS CRIANÇAS BOAZINHAS RAIVOSAS


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Pensando sobre o quê escrever para colocar no nosso blog, pensei sobre as crianças boazinhas. Sim, sobre crianças que carregam o peso de um título deveras avassalador. Pensei nos adultos encarcerados no seu infantil “bonzinho”.

Os adultos, de uma maneira geral, gostam de ter suas crianças obedientes, cordatas, que cedem sempre, enfim... que não dão trabalho. A tranquilidade é para o adulto, porém para a criança que não consegue se desvencilhar de tal armadilha, é uma dura tarefa.

Lembrei de várias crianças que encontrei pela vida, no meu trabalho, nas minhas andanças, contudo lembrei de uma menina que levava para as nossas sessões, o fato de que queria ser ela mesma, mas sofria porque, segundo ela, não tinha coragem. E lembrando dessa menina, lembrei dos muitos recursos que muitas crianças utilizam para responder do lugar de “boazinha”. A menina em questão escrevia histórias, escapava através dos seus personagens. Do alto dos seus nove anos, questionava a dinâmica da sua família. Ela olhava ao redor, observava outras crianças, outras famílias e se questionava por quê algumas coisas “simples” não aconteciam na sua casa, na sua família.

Uma menina que queria ser, uma criança que não expressava o quê sentia por medo de ferir a mãe, pelo desespero de pensar sobre a possibilidade da perda do afeto dos pais, principalmente da mãe. A lógica do seu pensamento se sustentava na certeza de não poder “ser”, para não perder. Ela ensaiava escondida no seu quarto tudo aquilo que ela diria para sua mãe. Ela diria para poder “ser”. A palavra dita a libertaria, quando a manhã chegava, decidida ela caminhava em direção à alegria de “ser”, Sem amarras, sem correntes, sem culpa ela diria o quê realmente pensava e como se sentia. Ela contaria sobre a sua raiva. Ah! Aquela raiva que ela sentia profundamente e a fazia mergulhar em um atoleiro de culpa. Acontece que ali, parada diante da mãe, diante de tudo o quê a figura da mãe representava, a menina se encolhia envergonhada e desistia.

Muitos fantasmas escondem-se por trás de uma criança boazinha, como o medo da rejeição, do abandono, solidão, irritabilidade, prejuízos na concentração, raiva, muita raiva. Tudo isso e um pouco mais vivido secretamente, transbordando em sintomas que viabilizam alguma possibilidade para que esses sujeitos possam tentar ser quem são; entrar em contato com suas faces apagadas, anuladas.

A imagem que veio para mim, foi uma menina encolhida em um canto de uma sala qualquer, em um lugar qualquer por aí, com os olhos arregalados e as duas mãos sobre a boca, com força, impedindo suas palavras de escapulirem. Impedindo a si mesma de transbordar e se espalhar por aí, como pétalas ao vento.

Uma outra imagem? Uma equilibrista. Uma analista equilibrista. Eu ali, tentando entender, “sentir com” essa menina a sua angústia, os seus atravessamentos, os meus... Eu ali para o trabalho, para o nosso trabalho. Crianças na corda bamba da vida, caindo, levantando e recomeçando. Crianças no setting podendo ser, podendo expressar a sua raiva, podendo tirar seus véus, sem saber que o fazem, contudo sabendo. Como tudo isso é interessante!

O inconsciente nas palavras, nas tintas, nas massinhas de modelar, nos recortes e colagens, no brincar, nas escaladas pelo corpo do analista, nos abraços eufóricos, nas lágrimas, nas gargalhadas, nas birras, nos gritos e nos silêncios. A raiva podendo estar presente, sendo expressa, sentida, liberta. O sujeito que a criança é, podendo ser nos encontros e desencontros vividos no setting analítico.

Quem sabe, você foi uma dessas crianças boazinhas e vive isso na repercussão da sua vida adulta. Se você não cuidou disso, ou melhor, se você não recebeu ajuda, provavelmente você sentiu e sente a convocação da vida de maneira pesada e hostil. Com o tempo acontecendo, a vida vai exigindo que a pessoa se posicione, que se entenda com os seus desejos. Crianças boazinhas tendem a se tornar pessoas inseguras, ansiosas, medrosas, acuadas, pedintes afetivas, com acentuada necessidade de atenção, o que acaba por interferir na relação com o mundo, com a vida. Sujeitos adultos habitados por sua porção infantil boazinha desassistida precisam de ajuda. Se você ainda vive assim, pense sobre a possibilidade de libertar essa criança que toma a frente e busca ganhos com essa posição. Falo de trazer essa criança para a vida, trazer a si para vida com responsabilidade sobre si. Fácil? Não é fácil, mas falamos sobre possibilidades.

Para as crianças boazinhas de todos os tamanhos e idades, adultas ou não, o meu abraço e votos que haja desejo para romper com amarras.

Até a próxima!

Um abraço,


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