PARASITA - [A dinâmica do desejo]

Atualizado: Mar 4


Marcio Garrit - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


Quem é o parasita? Ou seria o mais certo dizer: Quem são os parasitas?

Filme sul-coreano, de 2019, dirigido por Bong Joon-ho, ganhador do Oscar de 2020, como era de se esperar, é atualmente o assunto central do cinema mundial. A impressão que tenho, é que nem eles acreditavam que iam tão longe. Esse filme, como são a maioria dos que gosto de comentar, deve ser analisado por um viés metafórico. Não me importo pelos detalhes técnicos da película e sim com a possibilidade de tentar entender o que o diretor quis dizer. É isso que me faz ser um cinéfilo de longa data!

Como disse Christian Dunker em seu vídeo no Youtube sobre o filme, parasita é a demonstração do “recalque a céu aberto.” Não me importo com o desajuste conceitual da informação, mas sim o recado que ela traz: Funcionamos na hipocrisia da negação e no coletivo! O inconsciente humano serviria para esconder, tecnicamente, aquilo que não damos conta, o que é demais pra nós, e a repressão, serva da cultura, tentaria nos trazer a fama de “pessoa correta” perante o Outro. Parasita mostra que as coisas não funcionam muito bem assim, e que é no escuro que se mostra muito mais!

Ao mostrar uma família que mora no subsolo e que tenta sair desse lugar se acoplando vagarosamente a uma outra família que mora “no andar de cima”, Joon-ho, acredito eu, lança mão de uma dupla metáfora: Parasita é quem explora ou quem é explorado? Eu gosto de pensar que o humano precisa de um Outro para se alienar aos seus desejos e nessa alienação não medimos o tamanho da consecução dos atos de nossas sombras. Se para a biologia, parasita é um organismo que vive dentro de outro organismo, se alimentando e causando danos, algum de nós vive fora, só?

É claro que o filme traz uma crítica social gigantesca e essa deve ser pensada da maneira mais racional possível, principalmente questões como a meritocracia e as políticas de desigualdade atuais. Porém, fui seduzido a analisar a dinâmica do desejo. Afinal, o desejo não é um parasita? Um parasita ditador que não para de dar ordens e por mais que você consiga o que ele pede, ele não cessa! Quanto mais você tem, mais faz você querer. Querer ser o Outro, ter o que o Outro tem, explorar o outro para que você tenha mais e nessa dinâmica sem fim o que importa no final não é ter e sim a insistência de continuar.

Na última metade do filme, como de assalto, aparece alguém que vive escondido, literalmente, no andar de baixo, e ao contrário da outra família, não quer sair. Sua justificativa é que além de ter gostado de ficar ali ele sabe que não pode quitar suas dívidas e por isso achou melhor viver escondido para tentar, assim, se ver livre delas. Seria viver escondido, o fator necessário e imprescindível, para fugirmos da dinâmica infernal do desejo? Ou ficar isolado dependendo das sobras do Outro já é o parasita do desejo? Seja qual for à resposta dessa dinâmica, se é que há essa resposta, vivemos parasitados pelo desejo e com ele devemos lidar. As formas são inúmeras e o cenário externo poderá ou não dificultar mais esse ciclo interminável e angustiante, fazendo com que no final o outro vire a personificação do mal, o obstáculo final para a derradeira, e ilusória, forma de querer. Como se o mau cheiro, tão sentido pelos que moravam “em cima”, não partissem deles mesmos.

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