POESIA PARA QUEM NÃO SE OLHA



Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


E agora? Inventei de me meter a falar sobre poesia, mas não sou poeta. Na verdade, é mais do que isso, eu inventei que quero oferecer uma poesia para você que já faz tempo que não se olha, ou talvez jamais tenha se olhado. O problema continua, não faço poesia. Até faço, digo que faço, eu mesma leio, gosto mesmo não gostando para me dar uma força, me ofereço aplausos e sigo, bem desse jeito.

O jeito é ir em frente, escolho assim. E escolhendo assim, dirijo-me à você que se perdeu no tempo, que desaguou em si para fazer margem para o outro. Para você que investiu na existência do outro; que bordou a barra das tramas do desejo do outro. Quanta ousadia esquecer de si mesmo!

São muitas as pessoas que encontrei e encontro, principalmente mulheres, que se puseram a apreciar o desenvolvimento desse outro, muitas vezes chamado filho e colocaram seus sonhos, suas expectativas nas prateleiras empoeiradas dos seus devaneios. Pessoas que puseram a pausa, como nota dominante na melodia do tempo da sua rotina, velando o desabrochar do outro, a necessidade do outro e assim o fizeram porque entenderam o quê assim foi ensinado. Outros sentiram a alma pulsar nessa direção e apenas se deixaram levar. Também muitos seguiram esse caminho se debatendo no amargor da renúncia a si mesmo, querendo gritar, clamar pela realização dos próprios desejos, mas se aninharam no calor da sua culpa e cumpriram a sua missão, o seu dever, viver a vida do outro.

Sabemos que tem gente que depois de um tempo de dedicação ao outro, consegue retomar seus passos e lembrar quais eram as suas aspirações, ou até mesmo, criar novas. São pessoas que conseguem voltar a se olhar, mergulhar em seus desejos, se regar e desabrochar em si mesmo, florescer.

Para você que nunca se permitiu existir, que se ocupou e se ocupa de viver a vida do outro, declamando versos escritos por outros. Para você que protagoniza tragédias alheias, com a autoridade de quem nada sabe dei si e teme o seu próprio vazio entupido do outro... bem, à você eu digo que nada sei. Nada sabendo, à você ofereço um convite: Olhe para si mesmo! Inebrie-se do silêncio que pode ser dilacerante, oportuno, desafiador. Mergulhe nas vielas fétidas que estreitam o seu ser e dizem tanto sobre quem você é. Rasgue-se em mil pedaços, sinta-se gotejar formando poças de sangue que falam de vida, da sua vida. Mire-se na escuridão do seu olhar e encontre-se no desabrochar de um jardim secreto, esse que ainda respira no seu coração. Não tenha medo de ser! Certamente vai doer! Mas a possibilidade de romper os grilhões nesse constante fazer, ser quem não se é, cheira a movimento.

Minha poesia não se resguarda em bocas que regurgitam totalidades. Minha poesia escorre por bocas desdentadas que sorriem catando ventos que uivam a dor da existência, o frescor do sorriso, por vezes fúnebres de crianças, muitas vezes desamparadas. Minha poesia que nada sabe, não quer apontar caminhos, convida a experimentar.

Esse é o meu fazer poético para quem teme ser, para quem teme se olhar.

Até a próxima!

Um abraço,

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