QUANDO UM FILHO ERRA


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Certo dia... Nossa! Parece que foi há milhares de anos atrás, mas de verdade faz muito tempo. Bem, eu me sentei ao lado de uma mulher que parecia também estar esperando um ônibus. Eu toda preocupada com a quase certeza de que chegaria atrasada para o meu curso, chateada porque havia feito a minha parte. Eu havia acordado cedo, em pleno sábado, após uma semana exaustiva de trabalho e o tal do ônibus não chegava. Apesar de estar bem voltada para a minha questão, eu observei a mulher ao meu lado. Era uma mulher que talvez estivesse beirando uns setenta anos, o cabelo todo branco, meio prateado, preso em um coque, usando saia e blusa simples e nos pés, não me recordo, talvez sandália também simples e uma bolsa sobre o colo. Bem magra, ombros curvados e um olhar que mirava o chão. Eu esperava o ônibus e aquela mulher; o quê esperava?

Era apenas uma presença, mas ao mesmo tempo, uma presença que fazia pesar o ar. De repente, acreditem se puderem, ela se dirigiu a mim.

- Sabe, eu tenho um filho. Ele faz coisas erradas, ele tem problema de cabeça, problema mental. As pessoas me olham, falam dele comigo, reclamam e o quê eu posso fazer? Ele é meu filho, quem tem que ficar com ele sou eu. É difícil, mas o quê eu vou fazer? Ele é meu filho.

Ela não derramou uma única lágrima, mas eu sentia como se todo aquele espaço em pouco tempo estaria inundado pela aridez da desesperança dela. Eu olhei para aquela mulher e parecia que eu podia ver uma enorme corrente que prendia o tornozelo dela e se arrastava até eu a perder de vista. Uma corrente que levava aquela mãe ao seu filho que fazia coisas erradas.

Muitas mulheres desempenhando a função materna eu encontrei por aí aniquiladas pelos feitos errados dos seus filhos. O relato dessas mulheres parece trazer o mesmo tom, a mesma cadência. Quando grávidas sentem-se poderosas, inatingíveis, trazendo dentro delas, algo de valor inestimável, como a gota preciosa que salvará o mundo do extermínio ou a elas mesmas. Esses filhos não são gestados no ventre de uma mulher, eles se desenvolvem, são criados nos ventres psíquicos de sujeitos que buscam por algo que não conseguem nomear, algo que falta, uma falta que transborda em milhares de seres.

Os planos feitos para o filho que vai chegar são muitos e únicos, desde a aparência, até detalhes do recheio da alma. Putz! Acabei de lembrar de uma cena em que uma mulher em um supermercado, empurrando um carrinho de compras, onde instalou sua filha; ela viu a criança fazendo careta para um adulto que olhou para a menina e sorriu. Parecia que a mulher havia freado bruscamente o carrinho. Ela olhou direto nos olhos da criança e com o dedo indicador apontado para a filha, com a voz firme disse:

- O quê é isso? Eu não tenho uma filha assim. A minha filha é muito legal. Você entendeu? Eu não tenho uma filha mal educada.

A menina que devia ter uns dois anos parecia congelada, mas algo me diz que a situação deixou registros naquela criança, causou barulho nela.

Eu tenho registrado na minha memória a imagem, principalmente de mulheres que me relataram a vergonha que sentiam pelos erros dos seus filhos e diversas vezes, eu escutei:

- Onde foi que eu errei?

- Por que eu estou sendo castigada dessa maneira?

- Eu não vou mais às festas da minha família porque eu não consigo ouvir o que os meus familiares tem para falar do meu filho; eu não consigo.

- Eu fujo de esbarrar com os meus vizinhos, eu tenho tanta vergonha, tanta, tanta, tanta.

- Será que eu fui dura demais? Ou não, será que foi falta de limites?

- Eu amei tanto o meu filho desde o dia em que ele deu sinal de vida. Sabe Claudinha, desde que ele era muito pequeno, parecia que eu podia sentir que eu ia chorar muito por causa dele.

- Eu não posso falar com ninguém como eu me sinto a respeito das minhas filhas. Você está entendendo que são as duas? As duas não prestam e não adianta eu querer pensar que elas são adolescentes, que é uma fase que vai passar. Elas são adultas... obrigada por me escutar.

- A única coisa que eu posso pensar é que minha filha puxou a família do pai, é só isso, não sei mais o quê pensar.

Vergonha! Esse é o sentimento que mais aparece nesses encontros com os pais, com as mães dos filhos que erram. Falar em voz alta sobre os erros desses filhos, seja lá qual for, é como falar sobre si mesmo, sobre as suas falhas. Parece que é como ter que tratar de uma ferida que sangra continuamente, uma ferida narcísica. Os filhos como extensão dos pais. Esses pais também funcionando como filhos de uma cascata de histórias anteriores à sua própria existência.

Foram muitas as pessoas que eu encontrei se atropelando em uma corrida paralisante, tentando se alcançar, resgatar um filho que erra, até chegar à exaustão e anunciar em silêncio, se contorcendo diante dos seus desejos mais ocultos, que não podem mais. É como se estivesse exposto na grande arena da vida: “É meu filho, mas eu não aguento mais. Esse filho eu quero que morra! Esse filho que me esfrega no lodaçal do sujeito que eu sou, que me obriga enxergar meus erros, minhas incoerências, esse filho eu não quero. Esse filho eu quero que morra e leve com ele os meus erros também! Eu também erro!

Eu e os desencontros...Certa vez, sentou-se ao meu lado, no ônibus, uma mulher que se pôs a falar da sua preocupação com o filho.

- Esse filho sempre me deu preocupação, e eu perdi noites e noites de sono, pensando sobre onde ele estaria, com quem. Eu não posso escolher as companhias dele, não dá. Quando é pequeno, a gente resolve, depois que cresce, ih! Mas quer saber de uma coisa? Hoje em dia ele continua igual, só que agora eu durmo. Entrego a vida dele pra Deus e durmo. Ah eu hein!

Sabemos que há quem condene a mãe que cansa, aquela que se permite dormir. Será que quem julga gostaria de fazer o mesmo?

Eu encontrei uma mãe que tinha, ou melhor, ela tem três filhos trilhando caminhos tortuosos e ela parecia estar se diluindo em vida. Para os outros ela parecia cuspir marimbondos, ela se defendia agredindo com palavras, ou com uma postura de indiferença, por vezes justificando os filhos. Um dia, ela desabou e falou sobre o quanto ela se sentia só e ela chorou muito falando sobre não poder fazer nada em relação aquele filho que estava dando problemas no momento. “Ele é meu filho!” As mães sentem raiva dos filhos que erram, mas não se permitem falar a respeito. Parecem reféns dos erros dos filhos, querem muito se orgulhar dos feitos dos seus filhos, querem se apresentar através da luz dos seus filhos, mesmo que seja um pouquinho do filho que sonharam, idealizaram.

Tem a fala de uma mãe que tentando manter o sorriso, me disse entre lágrimas:

- O problema é quando você se dá conta de que o seu filho é uma má companhia.

O assunto é danado de complicado. Aquela mulher que cuspia marimbondos estava precisando desabar, chorar, precisava de um abraço, talvez depois ouvir. Encontrei algumas mães que mastigavam espinhos, outras que nadavam em suas lágrimas. Encontrei poucas que abriram a porta e disseram:

- Se é isso o que você quer: VAI!

Não nos cabe julgar... Quando um filho erra, alguém chora, se desespera, não sabe o quê fazer. É um tanto assim. Pensemos...


Até a próxima!

Um abraço,


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