ROUPA NO VARAL, COMIDA PRONTA E A VIDA, COMO FICA?


Cláudia Moraes - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Uma imagem que eu tenho como poética, é a de roupas no varal. Algumas vezes comentei sobre isso com algumas pessoas e ouvi risos sonoros como resposta. Pois é, quem já teve a oportunidade de observar um varal com roupas estendidas de ponta à ponta bailando com o vento, talvez saiba do que estou falando. É sério, quando o vento sopra e as roupas dançam num balé, às vezes suave, às vezes mais vigoroso e quando as peças se entrelaçam parecendo um abraço, parece-me mais poético ainda.

Eu ando com saudade daquela coisa que eu gosto de história dentro da história. Quem acompanha o blog sabe e para quem está visitando pela primeira vez, o convite está feito, eu inventando histórias vividas por aí. Vamos em frente.

Alzira, esse é o nome dela, sim pensei agora, está nascendo agora, apesar de estar pronta. Vamos deixar claro que ela nunca gostou do seu nome, mas como era uma homenagem à sua avó, ela fingia que aceitava. Gostava mesmo era de como o pai a chamava: Rosa, porque segundo ele, desde que Alzira nascera parecia uma rosa que desabrochava por minuto. Ali terminando o almoço, ela lembrava do pai morto. Gostava de lembrar dele indo à padaria buscar o pão, enquanto a mãe passava o café. Às vezes Alzira, quando criança, achava que a mãe tinha uma pilha enorme, super potente, dentro do corpo que a fazia trabalhar sem parar. Rindo sozinha diante do fogão, parecia que ela podia sentir o cheiro do café coado e do pão quentinho. Não eram abastados, mas também não eram pobres ao ponto de não terem o que comer.

O pai de Alzira era sapateiro e a mãe costureira. Trabalhavam duro para ter sempre comida na mesa e as contas pagas. Para Alzira e os três irmãos nada faltava e o que os pais queriam era que os filhos estudassem e trabalhassem a caminho do bem. Alzira não tinha mais a presença dos pais e ela sentia saudade. Lembrava da mãe sempre carrancuda, séria, trabalhando, trabalhando e ela nunca soube onde estava a pilha que deixava a mãe de pé. Hoje ela tenta encontrar uma outra pilha para ela mesma, mas já não vê sentido em continuar. Cansada Alzira fazia as coisas devagar.

Alzira sentia falta do movimento da casa quando seus dois filhos eram pequenos. Hoje homens feitos, tinham suas famílias e ocupados demais, mal a visitavam. Não, dos netos pouco sabia, poucos os via. O quê havia se tornado a vida então? O quê ela fizera da própria vida? A mãe a havia ensinado a ser uma ótima dona de casa e ela se orgulhava de como cuidava de tudo e de todos. O marido, aposentado há alguns anos, saía todos os dias depois do café e se plantava na praça com os amigos para jogar damas e dominó. Quando ele saía, ela olhava a porta ser fechada e o marido levava com ele os beijos de outrora. O marido não tocava mais nela, mas o seu corpo de mulher pulsava. Alzira pensava que talvez tivesse se tornado muito feia, mas ela se cuidava tanto, estava sempre cheirosa. O quê faltava?

A casa arrumada, a comida pronta, os filhos criados, o marido com a camisa bem passada, a roupa no varal... Fazer o quê com tudo tão pronto? Alzira observava a roupa bailando no varal e se perguntava se dava tempo, mas tempo de quê, para o quê? Ela não lembrava do que gostava, qual era o seu sonho, nem mesmo lembrava se tinha algum sonho. Por um instante lembrou que antes de casar tinha vontade de aprender a dançar tango. Em silêncio riu para si mesma, lembrando que o seu corpo não daria conta de tamanha estrepolia. Pensou então que ela e o marido poderiam entrar na aula de dança de salão e ir aos bailes, ou dançar em casa mesmo. Provavelmente o marido não ia querer. E ela? Por que havia deixado de cantar? Alzira adorava cantar. Parecia loucura, mas achava que tinha esquecido o som da própria voz.

Atendendo a um impulso, correu até o espelho e se olhou. Quem era aquela mulher de olhar triste, vazio e quando foi que aquelas marcas haviam surgido em seu rosto? Tocou o espelho, como quem fosse tocar naquela pessoa que parecia estar tão perto e tão longe dela mesma. Onde estava Alzira? Talvez em cada canto daquela casa, um pouco em cada filho, no marido, nos sonhos que não se havia permitido ter.

Alzira uma mulher como tantas outras, que havia aprendido a não ser. Voltando ao quintal, Alzira verificou se as roupas estavam secas e ao fazer isso, balançou a cabeça com desanimo, ao lembrar do varal de pé na casa dos filhos. Nada como ter um quintal em casa para se ter um belo de um varal, uma corda que exibia histórias através das roupas penduradas. Alzira deu um suspiro e pensou que talvez a prima Clotildes estivesse certa, talvez ela devesse ter encontrado pessoas, vivido romances proibidos, tendo amantes, vivendo a sua vida. Por outro lado, não se arrependia do que tinha vivido, gostava de lembrar de passagens da sua história, risos e lágrimas se misturavam. Agora... tudo parecia sem direção e parecia que a questão se resumia em uma única interrogação: “Servir a quem agora?” Com os filhos criados, o marido ausente que muitas vezes comia pela rua mesmo e ela ali a esperar. Aprendeu cedo demais que a maternidade era uma dádiva, onde só cabia o dever, a entrega, o deixar de ser. Sua identidade? Mãe. Por isso sempre se envergonhava quando sentia raiva ocupando esse lugar. Sentia que a maternidade havia trazido coisas boas, mas também trazia irritação quando ouvia todos os dias, de todas as pessoas que a maternidade era assim e pronto. Muitas vezes havia chorado escondida por se culpar pela raiva, a vontade de largar tudo ou só dormir um pouquinho. Um pouquinho só. Ao mesmo tempo, sentia que podia derrotar o mundo para proteger os seus filhos, até mesmo de um olhar que não os achasse bonitos. Às vezes pensava que era louca com o turbilhão de sentimentos que a tomava.

Foi até a estante e permitiu que um livro a escolhesse. Tentou lembrar do último livro que havia lido, não conseguiu. Esticou-se em um sofá antigo que tinha no quintal, mas muito bem limpo, ora pois e fechou os olhos. Como uma roupa no varal sentiu o vento bater no seu rosto, a sensação era boa. Pensou que assim que as roupas estivessem secas teria que passá-las, mas rapidamente abriu o livro e antes de começar a ler, disse a si mesma: “Deixa de besteira Alzira! Depois você passa e se não quiser, não passa. Eu hein!”

Alzira, uma mulher como tantas outras absorvidas pelas entranhas do desempenhar da função materna. Mais uma mulher aprendendo que não ter desejos próprios é um dos ingredientes da maternidade. Que lugar é esse que convoca alguém a deixar de ser a si mesma, tendo que ser muito o seu EU. E de que eu falamos? Ser para que o outro seja, mas não podendo ser. São tantas as exigências, que quando elas deixam de existir, ou diminuem, essa mulher não sabe o que fazer. Tão acostumada a servir ao outro, não consegue servir a si mesma, até porque nem sabe que tem necessidades. Reconhecer-se como alguém que deseja, como sujeito pode ser uma árdua tarefa.

A onipotência e a sujeição da maternidade... que baita confusão! Que trama sedutora! Aquela que outrora fora prisioneira de um amor intenso e sutil, agora carcereira em nome de um amor que aprendeu assim. E qual a medida? Qual a dose certa para um amor entregue em um formato único ditado em nossa cultura? Ser mãe é...Talvez estejamos falando de um amor que precisa enlaçar para libertar, um amor que contém, que permanece como continente daquele que foi contido, mas que a ação principal passa a ser apreciar, torcer, admirar.

As roupas no varal contando histórias e o vento trazendo e levando reflexões e entre idas e vindas, algumas decisões, ações.

A jornada de uma menina que se torna mulher e no meio do caminho, a maternidade ou não. Então... o quê fazer com isso? Sei não... Cada uma há de falar por si, com autoridade.

Até a próxima!

Um abraço,

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