SEGREDOS NA NOITE – [Será porque que repetimos?]


Marcio Garrit - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Há um comportamento típico do humano que nos intriga por ter uma característica em particular: a repetição. E quando digo repetição, falo de forma abrangente a respeito desse significante. O que seria isso que nos habita fazendo-nos caminhar em círculos, muita das vezes, e nos aprisionando em dinâmicas que podem nos levar a grandes perigos? Esse filme retrata esse movimento, e é sobre isso que gostaria de conversar hoje com vocês.

Segredos na noite é um filme americano de 2006, dirigido por Patrick Stettner e que tem como protagonista o memorável Robin Williams no papel de Gabriel. Este interpreta um apresentador famoso de rádio que tem seu programa apresentado a meia noite. Nesse programa, Gabriel conta histórias e o filme inicia quando o mesmo decide contar algo que realmente teria acontecido com ele. A trama é bem intrigante. Gabriel tem acesso à história de Pete. Um menino de 14 anos que está para lançar sua autobiografia. Ao ter acesso a isso, Gabriel se impressiona com o que lê. Pete é um adolescente que cresce refém de inúmeros abusos, desde criança, e conta que após esses atos sádicos para com ele, costumava ficar ouvindo Gabriel pelo rádio. Acredito que nesse momento, Pete enlaça Gabriel numa fantasia sem fim, afinal, Gabriel sentiu-se amado. E quem sabe até o super herói de uma criancinha abusada. Tudo que um neurótico precisa ouvir. A partir daí as coisas começam a ficar mais complicadas, pois Pete consegue o número da casa de Gabriel e os dois iniciam longas conversas por telefone. O suficiente pra o radialista se sentir mais que amado, mas totalmente necessário, como se fosse a completude de Pete.

Desde o início das conversas, Pete se coloca como um adolescente super inteligente, porém, muito doente. Ele tem HIV e todas as mais DST´s possíveis, seu tempo de vida é curto. Tal cenário faz Gabriel se sentir mais que importante e com mais vontade de se aproximar de Pete. O filme vai se desenrolando até que Gabriel percebe vários “furos” nessa história, e a partir daí iniciam uma gama de suspeitas a respeito desses “furos”, inclusive a de que Pete não existe. Gabriel se lança em uma investigação pessoal que beira o absurdo e não para até ter a certeza que precisava. E é sobre isso que gostaria de falar mais um pouco.

Fica bem claro no filme que Gabriel se sente amado por Pete, ou pior, muito necessário. E isso vem acontecer justamente quando está atravessando um divórcio. O fato dele se sentir necessário e logo em seguida, abandonado, pode ter sido um grande acionador da repetição a qual se emaranha sem medir consequências, a ponto de por sua vida em risco, literalmente. Afinal, como aceitar agora que não me amam mais? Não seria esse o papel da repetição? A não aceitação da perda, da insatisfação e do abandono. O que ganhamos, além de cansaço e adoecimento, repetindo e repetindo o que nos leva pra nenhum lugar, no afã de entender ou acreditar que na repetição algo de bom acontecerá? Freud vai falar de um vetor chamado Pulsão e Lacan vai complementar com um outro chamado gozo. Vou me abster de discorrer sobre isso, afinal são conceitos muito complexos, porém, necessários para qualquer um que se interesse em se lançar no meio psicanalitico, mas vou preferir marcar algumas reflexões a respeito, e pra isso vou pra filosofia.

Albert Camus, um filósofo necessário, escreve em 1941 um livro chamado O mito de Sisifo. Nele, Camus levanta uma enormidade de reflexões sobre a dificuldade da existência humana. E tem como base o próprio mito que leva o nome do livro. Afinal, se tem alguém que repete, esse alguém é Sisifo. Ele repete, repete e repete. Repete em vida e repete em morte. E é justamente nessa repetição que Camus faz uma leitura inquietante do ato de repetir. Pra quem não conhece o mito, Sisifo recebe um castigo no qual ele deveria rolar uma pedra para o topo de uma montanha e ao chegar lá, a pedra rolaria de volta. Caberia a Sisifo descer e levar a pedra novamente até o topo, tudo isso em um movimento infinito. Camus, em sua leitura sobre o mito nos leva a seguinte reflexão: Toda a vez que a pedra rola para baixo, Sisifo tem a oportunidade de se permitir um novo sentir, de entender o caminho novamente. Mesmo a pedra tendo rolado todo o caminho de volta, a real alegria consiste em chegar ao cume. Afinal, de acordo com o próprio Camus, não há destino que não possa ser superado com o desprezo. Aceitar Sisifo feliz é obrigatório para conseguirmos descer novamente!

Gabriel, assim com Sisifo, viu sua pedra descendo novamente ao perceber que na verdade tudo era uma farsa. Mas ao contrário de Sisifo, não se sentiu feliz ao perceber que por algum momento foi amado por alguém, seu cume. Ele nega a perda e se lança no abismo. É isso o paradoxo da repetição. A escolha é sua!

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