SEIO MATERNO: DE ONDE JORRAM PARTICULARIDADES



Cláudia Moraes - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com


Penso que posso e talvez deva começar esse texto com uma afirmativa muito frequente entre as mulheres que amamentaram alguma vez em suas vidas; aí vai: “Era um momento só nosso! Só eu e o meu bebê!” Bem, nessa afirmativa cabe um mundo de reflexões. A maioria das mulheres relata que apesar de ser um momento difícil, inicialmente pela dor, pela dificuldade do bebê sugar e pelo leite que empedra, é um momento especial, divino. Os relatos deixam escapar a grandeza e a fragilidade desse lugar materno; primeiro porque só elas podem executar e a tristeza quando a sua criança não quer essa preciosidade, esse tão comentado leite sagrado.

Em nossa cultura, a maternidade é vista como algo que chega a colocar a mulher no lugar de divindade. Sendo assim, ela que não ouse reclamar, ela que jamais pense em não amamentar. Nesse momento precisamos lembrar, que as mulheres que clamam por união, força, respeito, tendem a julgar as mulheres que não amamentam, porque não podem, porque não querem. Precisamos pensar que para a maioria das mulheres, estar nesse lugar, de quem vai desempenhar a função materna, é algo complexo, com muitas exigências, onde não cabem reclamações. Essa maternidade idealizada pode vir derrubada por um real que convoca a dúvidas, receios, medos, para muitos, infundados e até a vontade imperiosa de desistir. É viver o sentimento de insuportabilidade diante do real, esse que pode colocar um sujeito diante de si mesmo e ele pode não dar conta.

Certo dia, no metrô uma mulher conversava com outra que empinava uma barriga enorme e trocavam impressões sobre gestar. A primeira, mais velha, disse para a gestante: “Ah! A gente se sente poderosa!” e a outra concordou. Seja no ventre, nos braços, as mulheres tendem a vivenciar a questão da completude e desfilam muito senhoras de si por qualquer ambiente, munidas de uma força que não se mede. Não se metam com uma mulher que desempenha a função materna, você pode virar pó. Essa é a linguagem do universo materno que colocam a mulher como detentora de super poderes e amamentar é um deles.

Temos aquelas mulheres que são tomadas pelo medo de amamentar e terem seus seios caídos, de não suportarem a dor, o cansaço, mulheres que não conseguem estar nesse lugar dessa doação total, dessa entrega que precisamos pensar que não é natural para todas. Aliás, será natural ou instituída? Por vezes são mulheres que ainda precisam ser amamentadas, nutridas pela possibilidade de estar nesse lugar, mas não podemos esquecer da importância dela poder dizer não mesmo diante de tantos julgamentos.

Uma palavra que cabe muito bem nesse texto, é frustração, pois não poder amamentar, por diversas razões, traz sofrimento para muitas mulheres que sonharam desde sempre com essa situação. São mulheres que por vezes, sentem-se menores, indignas de ocupar o lugar da maternidade. Sabemos o quanto o apoio emocional é importante para todas elas.

Pensemos sobre esse seio cheio de particularidades. Do quê estamos falando? É algo encantador observar o silêncio repleto de mensagens no encontro entre o olhar de quem amamenta e de quem é amamentado. É como um mergulho mútuo, onde um parece saber absolutamente tudo sobre o outro, pois já se encontraram inúmeras vezes mesmo sem jamais terem se vistos. Esse é o tipo de encontro que também pode acontecer em quem oferece uma mamadeira. A maneira como uma mulher apresenta o seu seio para o seu bebê, faz diferença, do mesmo modo que o preparo de uma mamadeira tem seus ingredientes subjetivos. Dar o peito com raiva, sem querer, ou sacudir uma mamadeira com vontade de enfiar garganta abaixo do bebê, tem suas similaridades.

Cada seio, um sujeito, uma história. Cada gestação, física e emocional traz seus signos, suas marcas, sua subjetividade, traz uma história familiar. Então, estamos falando sobre muito mais do que uma parte do corpo de uma mulher, estamos falando do sujeito inteiro, até mesmo do seu tempo de encontro com esse olhar que de uma maneira ou de outra contribuiu para a sua constituição psíquica.

Quando o bebê procura esse olhar no momento da nutrição, seja via seio, mamadeira, colherzinha e não encontra, o vazio pode se estabelecer e ele não encontra a si mesmo. Pode ser que aí esteja começando a se subjetivar, um sujeito que tenderá a vagar em busca de si mesmo pelos desertos da vida, esbarrando em todo tipo de possibilidades, tentando entender quais são suas particularidades, essas que ele jorrará em si mesmo, na sua maneira de estar aí no mundo.

Exagerando? Talvez, mas estamos falando de um início que pode nos dar pistas de um meio, resultado de particularidades estranhas.

Pensemos...

Um abraço

Até a próxima!

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