THE NIGHTINGALE – [A maldade humana tem limites?]



Marcio Garrit - Psicanalista

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Alguma vez você se perguntou sobre o limite da maldade humana? Ou você acredita que dentro de todos nós há luz e o amor vence sempre no final? Particularmente eu não acredito que “dentro” do humano haja uma propensão a paz. Nesse momento me vejo bem freudiano, o sujeito se constitui pela diferença, pelo recalque de suas pulsões brutais e vagueia no mal-estar constante que é gerado pela impossibilidade de se manter um laço social pleno. Você pode até estar achando tudo isso muito radical e até concordo com você, porém, é o que é! Por acaso, existe algo mais nefasto do que a própria história da civilização? Stanley Milgram e Philip Zimbardo com seus experimentos que o diga. Hannah Arendt também! É sobre isso esse filme.

The nightingale é um filme australiano de 2018, dirigido pela interessante cineasta Jennifer Kent. É um drama angustiante com uma sinopse nada linear. O longa é ambientado em um território selvagem da colônia inglesa na Austrália de 1825. Mostra uma sociedade pobre e abandonada no meio do nada. Clare, a protagonista, é uma irlandesa escravizada pelos britânicos. O tenente, a quem ela está aprisionada, logo nos primeiros minutos do filme a estupra em uma cena que parece ter 2 horas de duração, mata seu marido e um dos soldados que assiste a tudo, lança o bebê de Clare contra a parede em um golpe que o mata na hora. Essa sequência nefasta de tragédias é o “boas vidas” que Nightingale nos dá provocando uma devastação no emocional de qualquer pessoa que ainda tem a capacidade de se afetar. Obviamente que Clare não morre, muito pelo contrário, direciona todo o seu desejo para um único objetivo: matar seus algozes. Porém, uma coisa tem que ser feita antes. Clare precisa de um guia para ir com ela pela floresta, pois os militares já tinham partido e além de ser extremamente perigoso o caminho, poucos sabem circular pela floresta insólita, pra não dizer o mínimo sobre ela. É nesse momento que Clare conhece Billy, um aborígene detentor de algo que nem Clare e nem seus algozes se quer sabe que existe. Billy é livre, apesar de tudo! A partir daí se inicia uma jornada tensa e de desnudamento que recalque nenhum consegue operar, a evidencia do núcleo da existência humana, a maldade.

A proposta que esse filme trás não é nova. Vários filmes, famosos inclusive, como o Irreversível de Gaspar Noé apresentam essa sinopse. Uma mulher violentada que sobrevive e se vinga. Porém, Nightingale trás algo que me chama a atenção, além da fotografia esplendorosa, que é a forma como a maldade se mostra ao mesmo tempo que a beleza se apresenta desnudando assim, o sujeito. Clare é um exemplo disso! Mesmo após toda desgraça que a acomete, não larga mão de seus hábitos racistas e é vil com Billy. Um homem negro e execrado por todos, porém o único que pode lhe ajudar. Precisa ir mais fundo em dor e sofrimento pra perceber que também faz parte da podridão de uma sociedade que a cuspiu. Isso me faz lembrar a dinâmica de nosso funcionamento diário. Procuramos demonstrar que somos evoluídos e não ligamos para as diferenças, mas ao senti-las de perto, reagimos mal. Não somos homofóbicos desde que não seja nosso filho(a), não somos racistas até olharmos com medo ao negro que se aproxima de nós achando que é assalto, somos da paz até alguém nos provocar nas redes sociais, e por ai vai... É a eterna dinâmica do sou o que preciso ser para não deixar de ser amado. Sim, a maldade humana joga, também com nossa carência. Com nossas vaidades.

É óbvio que Clare se vinga. Um filme como esse não iria arriscar um final diferente. Porém, sua vingança não é feita por suas mãos, mas pelas mãos de quem achava que era menor que ela. Ao entender que seu sofrimento não era o maior do mundo e ao conseguir enxergar o outro que sofre como igual, Clare executa uma vingança para além dos seus algozes. Ela se vinga de todos que a colocaram nesse lugar mesquinho da existência e começa a enxergar a diferenças como realmente pequenas.

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