THE ROOM – [O desejo do desespero]

Atualizado: Jun 21



Marcio Garrit - Psicanalista

Email: contato@psicanalitico.com



Dentre as inúmeras coisas que a psicanálise se ocupa em entender, uma das mais curiosas é o mecanismo de desejar. A conceituação dessa palavra seria extremamente simples se por trás dela não houvesse algo incontornável que é o paradoxo da existência humana! Um paradoxo que trás algo cansativo para todo e qualquer sujeito que insiste em tramar os caminhos da sua vida numa obturação inútil e infindável do espaço que o não, não cessa de deixar. Um espaço que por nunca ser preenchido já não aponta para o que precisa para deixar de existir e sim insiste em não deixar de querer. E querendo sem cessar nos direciona para o que não deveria ser direcionado. É sobre isso esse filme!

The Room é um filme franco-belga de 2019, dirigido por Christian Volkman e até o momento, distribuído pela Amazon Prime. O mesmo tem uma sinopse, a principio simples, porém ao longo da trama uma quantidade razoável de detalhes vão acontecendo que acaba por tornar a película bem interessante. Obviamente que meu papel aqui é, a partir de um traço da obra, instigar você, leitor, não só a assistir o filme, como refletir sobre os emaranhados insolúveis da vida humana. The room retrata a vida de um casal que decide ir morar no interior em uma casa imensa, velha e longe de vizinhos. Ao chegar à casa, durante as cenas clichês de mudança comuns em filmes americanos, percebem a existência de um quarto que até então estava escondido por papel de parede. A surpresa para ambos é que não havia nada dentro do mesmo, até o dia que tomado por uma insatisfação, Matt reclama da falta de algo e esse algo é materializado pelo quarto. O mesmo, tomado de êxtase, não pára de pedir mais e mais até que mostra pra Kate (até os nomes são clichês) o poder que aquele quarto tem. Destrutivo, mas tem. Daí em diante não precisa ter muita criatividade para entender que Matt e Kate não vão parar de pedir e pedir e pedir, até que Kate é tomada por uma tristeza, a priori, inexplicável: ela não tinha mais o que pedir! Sim, nós somos assim! Porém temos um mecanismo que não deixa que cessemos. A pulsão não pára. O desejo é como as batidas do coração: parou, morreu! Nesse momento nasce o improvável, o desejo mira para o desespero de não deixar que paremos de convocá-lo e pede nem que seja o próprio suicídio, mas pede, ou melhor, ordena. E ordena que o casal peça ao quarto um filho, porém, já nascido! É obvio que o quarto atende, e isso é o começo do fim do ato de desejar.

Encarar a falta de sentido se transformou em um punhado de palavras que o sujeito contemporâneo nem sabe mais o que significa. Óbvio que não estou falando só desse sujeito, porém este deixa isso mais claro. Assim como Kate, muitos de nós colocamos como meta de existir a insatisfação. Vivemos em uma posição histérica crônica da negação extrema da completude. Funcionamos como que na margem do quase conseguir, quase concluir, quase gostar, quase acabar... Esse acúmulo de incompletudes são a deixa exata para a junção do desnorteamento do desejo. E assim como Kate acabamos por escolher coisas que nos marcarão para o resto da vida. Sim, há desejos que uma vez executados não tem como voltar atrás. A partir daí, vive-se no intento de maquiar as cicatrizes que essa atitude mal tomada, esse desejo “mal” desejado deixou.

O filme não tem como problema central o fato do casal pedir ao quarto que gere um filho pra eles, tem algo muito mais inteligente e é justamente esse algo que me instigou a escrever sobre o mesmo. O que você deseja para o quarto, só se sustenta dentro da casa. Ao cruzar as portas de saída do casarão, não importa o que seja se dissolve e vira pó. Com isso, a casa “te engole”, pois fora dela, tudo que você desejou some! Pois bem, veja se isso não se parece com nossa própria dinâmica de desejar. O desejo é constituído por nossas questões singulares e são por essas questões que eles são moldados. A importância que damos a eles é só nossa. Sim, é só sua! Por mais que você espere reconhecimento, e pode acreditar, você quer esse reconhecimento. Seja lá o que desejou, só tem sentido na sua fantasia. Ou seja, assim como no quarto, tudo isso não pode ser entendido e alcançado “fora de você”.

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