TRUMAN [O real da morte.]


Marcio Garrit - Psicanalista

E-mail: contato@psicanalitico.com


Se existe uma coisa que gera uma enormidade de mistérios a sua volta, essa coisa é a morte. A filosofia se ocupa disso há muito tempo. A psicologia e a psicanálise, de uma forma geral, tentam encontrar meios de preparar e explicar o derradeiro final da existência. Não longe a medicina também vai se ocupar de evitá-la, ou melhor, de postergá-la. Acredito que a maioria das pessoas tenham certo receio da hora de sua chegada e alguns evitam até falar sobre isso. Há inclusive, os que encurtam sua jornada por acreditar que o encontro com a morte seria mais leve. Não importa como, quando ou quem. A morte sempre será uma incógnita pelo simples fato de não podermos vivenciá-la. O encontro com a mesma gera a ausência de tudo que conhecemos como vida. E mesmo assim, há pessoas que por inúmeras razões preferem abrir caminho para o encontro da mesma, e com isso, ir presenciando cada instante da ausência de tudo. É sobre isso esse filme.

Truman é um filme espanhol de 2015, dirigido por Cesc Gay e protagonizado pelo excelente Ricardo Darín. Sua sinopse é razoavelmente simples, porém, a forma como a mesma transcorre, não! Darín encarna o personagem de Julián, um ator argentino radicado em Madri. Um belo dia recebe a visita de seu amigo Thomás, que vem do Canadá para entender de perto o porquê que Julián desistiu de tratar seu câncer, que, diga-se de passagem, é o segundo. A partir daí vocês já podem imaginar como a trama se desenvolve.

Sou um cinéfilo confesso e chego a assistir mais de uma centena de filmes por ano, e não me furto em dizer que não me lembro de ter visto um filme tão sensível, profundo e poético sobre a finitude da vida como Truman. Cesc Gay foi um felizardo em todas as cenas, tudo ali é muito cheio de significados e não tem como não se emocionar a cada instante e refletir sobre o motivo da existência e o seu fim. Já vi muitos filmes sobre a questão da morte, muitos são dramalhões clichês, mas Truman não. E não é porque trata o assunto de forma real, humana, direta e simples. Talvez seja por isso que é tão difícil não se afetar vendo esse filme.

Falamos tanto da morte, que ao ouvirmos o som dessa palavra não nos espantamos mais. O espanto vem quando nos deparamos com algo que realmente faça termos algum acesso ao que não se significa a partir dela. Quando conseguimos captar algo que nos coloque frente a frente a esse real que nos potencializa a angústia. Tal sensação me fez lembrar do filme, do maravilhoso e perfeito cineasta, Bernardo Bertolucci - O céu que nos protege. Na cena final pronuncia-se a seguinte frase: “Por não sabermos quando morremos...achamos que a vida é inacabável. Mas algumas coisas acontecem de vez em quando. Poucas, aliás. Quantas vezes vai se lembrar de uma certa tarde na infância...uma tarde que faz parte de você...tanto que não imagina

sua vida sem ela. Mais 4 ou 5 vezes. Talvez nem isso. Mais quantas vezes vai ver a lua cheia?Umas vinte, talvez Ainda assim, tudo parece ilimitado.” É justamente essa defesa, talvez pela banalização da repetição da palavra, ou até por um mecanismo de fuga do aparelho psíquico, não sabemos, é que conseguimos acessar o que ela é, mas não conseguimos alcançar de fato o que ela representa. Bertolucci nos faz pensar, de forma intensa e forte que de tanto esperarmos o amanhã, não teremos amanhãs suficientes.

Essa insuficiência de amanhãs é intensamente registrada no imortal livro de Ernest Becker chamado: A negação da morte. Becker, em um trabalho magistral, tanto que vem a receber o prêmio Pulitzer em 1974, nega sua própria morte ao escrever um livro que ficará para a posteridade. Becker sabia que ia morrer, ele tinha câncer. A negação da morte é um livro que precisa ser lido, todos deveriam se dar esse presente e lê-lo pelo menos uma vez na vida. Fã de Otto Rank, discípulo de Freud, Becker defende que a morte é o que há de mais caro na existência humana, a ponto do sujeito se estruturar a partir da negação que o mesmo tem da mesma. É a partir dessa negação que respondemos a nossa forma de estar no mundo. O neurótico, e sua ilusão de controle, quer controlar até o após a morte, e com isso se fixa a crenças místicas e projeta um mundo celestial muito melhor. Sinceramente, acho que Becker tinha muita razão no que dizia. Afinal de contas, você já se perguntou o quanto de suas ações estão ligadas a sua crença no antes e no pós morte? É com esse gancho que volto para o filme, para Truman.

Julián é um ator com um passado glorioso e um presente duvidoso. Mal acabou de passar por um tratamento de câncer, descobre que está com outro. Por uma questão de escolha, decide viver o que tem pra viver e nega o tratamento. Não entrarei no mérito de analisar sua escolha. Thomás, seu amigo, tenta em vão fazê-lo mudar de idéia a todo instante, mas a decisão já está tomada. Julián decide viver até aonde der e quando estiver sem condições de continuar, dará cabo de si. Com isso, ambos partem em uma jornada absolutamente sensível e inevitável: organizar a vida e prepará-la para o fim. Coisa que, direta ou indiretamente, fazemos todos os dias, mas diferentemente de Julián, não sabemos quando o fim chegará.

Ver os amigos se ocupando de organizar a partida de Julián, não é algo simples de assistir, pois nos faz “tocar” o real da morte a todo instante. E isso fica muito presente em momentos quando Julián pergunta ao seu amigo: “O que você aprendeu comigo?” ou quando ele coloca seu cachorro, Truman, para adoção, sim, o filme tem o nome do cachorro de Julián. Ver o mesmo se despedindo do seu amigo canino de muitos anos marca a profundidade e a estrutura dos laços que nos mantêm vivos. Coisa que só conseguimos perceber no momento que perdemos.

Truman não é um filme de dramalhões ou fundos musicais inesquecíveis. Ele é simples, rotineiro e é essa simplicidade que deixa exposta de forma profunda o encontro do sujeito com sua finitude. Não sei como vocês vão receber esse filme, também não sei se vão assisti-lo. Pra mim, Truman foi um presente inesquecível, pois proporcionou o encontro com os limites da minha própria existência.

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